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Automobilismo

Juan Manuel Correa viu um colega morrer à sua frente, escapou à amputação da perna e foi operado 25 vezes. Agora vai voltar a competir

O piloto norte-americano de 21 anos foi uma das vítimas do acidente que tirou a vida a Anthoine Hubert em agosto de 2019, no GP Bélgica de F2. Ele lutou contra o coma, sobreviveu e seguiram-se meses e meses de recuperação, com 25 operações às duas pernas pelo meio. Agora, anunciou que estará de volta às corridas em 2021. Vai baixar de escalão, para a Fórmula 3, mas o desejo de um dia correr na Fórmula 1 continua vivo

Lídia Paralta Gomes

Bryn Lennon/Getty

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No dia 31 de agosto de 2019, voltou a haver morte num fim de semana de Fórmula 1. Tal não acontecia desde que Ayrton Senna embateu com o seu Williams no muro da Curva Tamburello, em Ímola, no GP São Marino, a 1 de maio de 1994, um dia depois da morte de Roland Ratzenberger na mesma pista. Numa das corridas da F2, em Spa-Francorchamps, na Bélgica, o jovem francês Anthoine Hubert despistou-se ao tentar evitar o contacto com outro carro acidentado. Embateu fortemente numa barreira de pneus e o carro desgovernado voltou à pista. Nessa altura, Juan Manuel Correa tentava também passar incólume da confusão, mas não evitou o carro de Hubert, num choque a mais de 250 km/h.

A morte de Hubert seria confirmada poucas horas depois. Juan Manuel Correa sofreu fraturas graves nas duas pernas e uma lesão na coluna. À dor da morte do companheiro de pista, o piloto norte-americano, nascido no Equador, juntava uma longa luta por uma recuperação que parecia impossível.

Mas 16 meses depois dos trágicos acontecimentos de Spa, uma boa notícia: Correa vai voltar a correr na próxima época. Não na F2, mas um escalão abaixo, na F3, com a equipa ART, uma das melhores nas fórmulas de promoção, as principais portas de entrada na Fórmula 1 e cujo o calendário acompanha a categoria máxima.

“Anunciar o meu regresso à competição é um dos momentos de que mais me orgulho na minha carreira”, sublinhou o piloto de 21 anos em comunicado, em que reafirmou o desejo de ainda correr na F1 um dia.

Juan Manuel Correa tem mais que razões para estar orgulhoso, após uma improvável recuperação que bateu todas as previsões temporais. Depois de escapar com vida ao terrível acidente que vitimou Hubert, o norte-americano foi transportado de helicóptero para o hospital e permaneceu em coma durante duas semanas. No total, tinha 20 fraturas em ambas as pernas e pés.

Com a mãe de Hubert numa cerimónia de homenagem ao francês um ano após a sua morte, em Spa

Com a mãe de Hubert numa cerimónia de homenagem ao francês um ano após a sua morte, em Spa

Bryn Lennon - Formula 1/Getty

Ainda em coma e já depois de ser transferido para um hospital de Londres especializado em cuidados intensivos, a recuperação do norte-americano sofreu um revés, ao desenvolver um síndrome respiratório grave que deixou os seus pulmões demasiado fracos para novas operações. Só no final de setembro pôde iniciar as primeiras operações de reconstrução das duas pernas, depois de recusar a primeira abordagem dos médicos, que aconselharam a amputação do pé direito.

A operação seria um sucesso, mas a essa seguiram-se muitas: no total, Correa foi operado 25 vezes. Durante 14 meses foi obrigado a usar uma estrutura de metal para estabilizar o osso da perna direita, a mais severamente afetada no acidente, mas logo que possível iniciou o trabalho físico e psicológico para voltar um dia às pistas.

Numa entrevista em novembro a uma rádio argentina, Correa revelou que os médicos colocaram um prognóstico de “dois anos para a recuperação”, mas rapidamente o piloto respondeu melhor que o esperado, encurtando em vários meses as perspectivas iniciais.

A primeira corrida de Juan Manuel Correa deverá acontecer em maio, no regresso do campeonato de Fórmula 3, no GP Espanha, na Catalunha.