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Rali de Portugal. Açor, a montanha-russa

Um primeiro dia do rali verdadeiramente meteórico com alterações de liderança, despistes e problemas mecânicos para candidatos à vitória

Rui Cardoso

Octavio Passos

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Que faz às sete da manhã no alto da serra da Lousã alguém que não seja nem lenhador, nem caçador, nem trabalhador dos parques eólicos? A resposta por estes dias é de uma simplicidade cristalina: vai ver a edição 2021 do Rali de Portugal.

Era de facto nas serras do centro (Lousã e Açor) que se disputava o primeiro dia da edição 2021 do Rali de Portugal. Na vertente sul da serra, com a vila da Lousã bem à vista lá em baixo, se situava a primeira zona espectáculo do dia (o público está obrigatoriamente acantonado em locais vigiados, ainda que de lotação limitada por causa do covid-19). Os mais radicais tinham ido de véspera e dormido na serra antes de os acessos fecharem. Os mais bem equipados chegavam de madrugada, de jipe ou de moto, descendo íngremes corta-fogos. E quem não conseguia fazer nem uma coisa nem outra, amarinhava a pé pelo corta-fogo da Barraca Preta acima, coisa que não era de somenos: quase 40º de inclinação e umas boas centenas de metros de piso irregular.

Estes espectadores chegavam vermelhos que nem pimentões à orla do troço, onde a GNR aguardava a ocasião mais favorável para os deixar cruzar a pista. Um casal com duas crianças pequenas vinha tão derreado que um soldado da Guarda se sentiu na obrigação de pegar num dos miúdos ao colo e ir pô-lo do outro lado. Os recém-chegados eram brindados com salvas de palmas e assobios e quando um deles disse que nunca mais ali voltava, seguiu-se um animado diálogo:

- ****** nunca mais aqui volto!

- Qual quê! Para o ano está cá caído outra vez.

- Só se for de helicóptero…

Os roncos ao longe do motor do Toyota de Sebastien Ogier interromperam esta troca de galhardetes que prometia. O francês passou veloz, dando a ilusão que não seria prejudicado por ira a abrir a pista mas rapidamente se viria a constatar que não era assim. Enquanto nos circuitos ou no todo-o-terreno sair à frente é vantajoso, nos ralis isso praticamente nunca sucede, pois o piso não está limpo, as trajectórias não estão marcadas e escorrega-se demais.

Ott Tanak e Thierry Neuville (Hyundai) transmitiram a ideia de que iriam estar todo o dia ao ataque mas viria a ser Dani Sordo, ainda num carro da mesma marca, a tirar partido de passar em oitavo e ter a pista definida para se guindar ao primeiro lugar, após a ronda da manhã: Lousã, Góis e Arganil.

A primeira passagem da tarde observei-a já no início do troço de Góis num local privilegiado que permitia comprar o andamento dos “aviões” (ou seja os mais de 300 cv e tracção integral dos carros do WRC) com os últimos do pelotão que hora e meia antes tinham ali concluído a primeira passagem por Góis, caso dos participantes na Peugeot Rally Cup Ibérica.

Golpe de teatro em Mortágua

A tarde, a segunda volta a Lousã, Góis e Arganil (acrescida de Mortágua e da Super Especial de Lousada), foi uma caixinha de surpresas. Dani Sordo em Hyundai que tinha dominado de manhã, começou a ter problemas de pneus e de mecânica e não conseguiu segurar o primeiro lugar, caindo para o lugar mais baixo do pódio. Thierry Neuville, em carro da mesma marca, dava o que na gíria se chama “uma morteirada” em Mortágua e à hora a que escrevo esta crónica as notícias oscilavam entre a perda total do carro e uma queda de três dezenas de lugares na classificação.

Rodando alguns instantes atrás do destroço Neuville e do pó que levantava ao arrastar-se pela pista, o Toyota de Elfyn Evans perdeu mais de meio minuto e com isso a possibilidade de chegar ao pódio. Reclamou e o colégio de comissários corrigiu-lhe o tempo, o que no final do dia o fez ascender ao segundo lugar, a 2,7 segundos do Hyundai do estónio Tanak, para já líder da prova. Quem acabou por limitar estragos foi Ogier que, mesmo abrindo a pista ainda ganhou Mortágua e perdeu “apenas” 22 segundos para o estónio. Referência ainda para o japonês Katsuta (Toyota) que viu premiada a sua regularidade com o quarto lugar.

Nos portugueses era Armindo Araújo (Skoda) a levar a melhor, averbando a pontuação correspondente para o nacional de ralis. Para o segundo dia, sábado, haverá em perspectiva, ainda mais emoção, com nova ronda, agora pelas serras da Cabreira e Marão, com classificativas longas e necessariamente duras para as mecânicas