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Automobilismo

Rali de Portugal. Salto em comprimento

O segundo dia do Rali de Portugal andou pelas serras da Cabreira e do Marão. Alguns saltos espectaculares inclusivamente na classificação, deixando em aberto para domingo a luta entre Evans e Sord

Rui Cardoso

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O rali de Portugal é famoso pelos “saltos”, ou seja pelos voos dos automóveis ao transporem lombas a grande velocidade. Os mais apreciados situam-se no troço de Fafe: o do Pereira antecede a descida do Confurco (Várzea Cova), enquanto o da Pedra Sentada se situa imediatamente antes da tomada de tempo. Contudo, há um outro salto, o do Zebral, no troço de Vieira do Minho, que não é propriamente para deitar fora.

De tal maneira assim é, que se criou a tradição de os organizadores da prova instalarem junto à Zona Espectáculo 24 uma escala graduada, começando em 15 metros e acabando em 35 de forma a os espectadores terem noção da distância percorrida sem tocar com as rodas no chão. Este ano lá estava a famosa escala e umas centenas largas de pessoas prontas a tirar medidas, pelo menos com os olhos. Logo à passagem do francês Tourmaux no seu Ford Fiesta que abria o troço (a ordem de passagem não corresponde necessariamente à classificação) se percebeu que um destes dias vai ser preciso ampliar a barra até aos 40 metros…

Depois, um desfilar de voos para todos os gostos, tendo como traço comum a circunstância de quase todos se fazerem com o carro fortemente inclinado para o lado do condutor, já que a lomba é antecedida por uma passagem pelo asfalto e uma ligeira curva à esquerda. É obra porque, ao contacto com o solo, não convém contrabrecar de forma demasiado brusca, sob pena de poder iniciar uma sucessão de saltos mortais com vista para a vertente sul da serra da Cabreira. Até porque se segue uma curva larga para a direita e é preciso apontar a frente do carro para o lado certo.

Bastava isto para esta parte do troço de Vieira do Minho ser notável. Mas acresce a ampla visão panorâmica no alto da serra: vê-se a aproximação do carro a descer um cabeço e, depois do salto, a subir e contornar a encosta até desaparecer ao longe, no meio das árvores. Um verdadeiro regalo para quem gosta destas coisas. E que, apesar das restrições da pandemia, ainda é muita gente, pelo menos neste local, onde os mais azarados têm que estacionar a 2 km de distância e fazer uma caminhada serrana.

Defender o ambiente

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Nada que tirasse a energia ao público que no local se entretinha a cantar em coro canções dos Xutos e a emborcar mínis. Com o pormenor nada despiciendo de os espectadores parecerem ter interiorizado a tónica ambiental do rali que lhe tem merecido sucessivos prémios internacionais e o transformaram num caso de estudo internacional, invariavelmente sublinhado pela Federação Mundial, a FIA. De facto, garrafa ou lata esvaziada é garrafa ou lata no saco ou no contentor de lixo. Ao longo destes dias apenas vi no troço de Góis duas garrafas pequenas de água, presumivelmente abandonadas por outros tantos mentecaptos e que este vosso esforçado repórter fez questão de recolher e deitar num caixote.

As precauções sanitárias dão resultados divertidos como a de os jovens que nos anos anteriores andavam com bidões de cerveja às costas, agora fazerem o mesmo mas com álcool gel para desinfectar as mãos. Um destes, com algum sentido de humor explicava à entrada da zona espectáculo do Zebral: “também é álcool e está fresquinho, não dá é para beber…”

Um cheirinho de todo-o-terreno

Pela parte que me toca, o rali tinha começado às sete e meia da manhã em Guimarães, hora de uma saída relâmpago na direcção de Cabeceiras de Basto e do troço respectivo. Foi a ocasião de voltar a pôr à prova as qualidades da “montada”, no caso a nova pick-up D-Max da Isuzu, já evidenciadas nos corta-fogos da Lousã, conforme referido em crónica anterior.

Desta vez a ligação entre a aldeia de Torrinheiras (na estrada Cabeceiras-Salto) e a parte final do troço de Cabeceiras de Basto era um trilho não asfaltado com algumas pedras, regueiras e lama que a “camioneta” ultrapassou como se nada fosse, perante o olhar meio incrédulo, meio invejoso dos espectadores que tinham tido que estacionar os seus automóveis a 3 km e caminhar. Alguns, bem preparados para estas andanças, puxavam geleiras e demais equipamento de piquenique em armações com rodas. Bem dissera Camões que “a necessidade aguça o engenho”.

Tal como aconteceu com um moço à minha frente que, à custa de braçadeiras de plástico e bocados de corda de roupa, transformou um dos esteios de ferro onde se apoiava a vedação da pista numa verdadeira steadycam para o seu smartphone. A engenhoca até incluía um suporte para um power bank onde alguns aflitos ainda deram um cheirinho de carga aos respectivos telemóveis…

Tal como Vieira do Minho, este troço também permite amplas vistas, com uma longa aproximação dos concorrentes desde o alto da serra até à zona espectáculo. Estes aparecem à saída de um gancho à esquerda, descem, fazem uma curva à direita completamente atravessados e sobem a fundo até uma pequena lomba atrás da qual desaparecem.

Luta até ao fim

É sempre falível tentar extrapolar a partir da forma como os concorrentes passam num determinado local o seu desempenho no troço, quanto mais na jornada. Ainda assim – impressões que se repetiram à tarde na segunda passagem por Vieira do Minho – se percebeu que o jovem francês Fourmaux pode ter um belo futuro à sua frente. Também que Ott Tanak, este ano na Hyundai, teria gostado de defender amanhã a primeira posição no rali mas ficou pelo caminho. Elfyn Evans da Toyota e Dani Sordo da Hyundai passaram para os dois lugares cimeiros do pódio. Quanto ao terceiro lugar, uma verdadeira luta fratricida entre Sebastien Ogier e o seu colega de equipa na Toyota Takamoto Katsuta.

Domingo se verá se uma vez mais há “justiça de Fafe” e há novo golpe de teatro à beira do fim da prova ou se as linhas gerais da classificação de sexta-feira se manterão.