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Ayrton Senna

O dia em que o diabo apareceu

Este é o texto de alguém que esteve naquele dia e naquele lugar onde Senna perdeu a vida numa corrida que nunca devia ter acontecido. Só que aconteceu e António Varela, diretor de comunicação do COP, relembra a tragédia

António Varela

Paul-Henri Cahier

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Se havia um piloto destinado a bater o recorde de cinco vitórias no Mundial de Fórmula 1 fixado por Juan Manuel Fangio ele era Ayrton Senna, o predestinado, o brasileiro brilhante, tão iluminado que um dia disse ter sentido a presença de Deus. Senna pilotava tão bem e tinha uma autoestima tão grande que se achava num mundo à parte. Ele e quem dele fez um ídolo. Merecidamente.

Senna construiu um currículo brilhante nas outras fórmulas, até chegar ao Mundial maior. Foi ao pódio com a Toleman, ganhou o primeiro grande prémio com a Lotus, foi tricampeão com a McLaren. Foi o mais jovem de sempre a ganhar três campeonatos, com 31 anos.

A rivalidade com Alain Prost foi feroz, até o francês abandonar a Fórmula 1 tetracampeão, dizendo: “O recorde de Fangio? Deixo isso para Senna.” Finalmente titular do primeiro volante da Williams, o melhor carro da época, o brasileiro entrou no ano de 1994 para cumprir o seu destino: ganhar campeonatos em sucessão até ultrapassar o mítico Fangio.

Portugal vivia as ilusões prometidas por Pedro Lamy, o piloto português a quem as portas da Fórmula 1 foram franqueadas após um trajeto de brilho nos campeonatos de base, como a Fórmula Opel, a Fórmula 3 alemã e a Fórmula 3000. Uma dezena de jornalistas portugueses, nos quais me incluía, pediram acreditação para seguir o Mundial. E para além de Lamy viam igualmente Ayrton Senna e o projeto de vir a tornar-se o maior piloto da história.

Chegou a primeira corrida de 1994, em Interlagos, Brasil. Senna fez a ‘pole position’, mas a corrida correu mal e abandonou. Ganhou Michael Schumacher, com a Benetton.

A seguir o campeonato voou para as montanhas de Aida, no Japão, onde foi disputado o Grande Prémio do Pacífico, num ambiente só possível na Fórmula 1 do patrão de então, Bernie Ecclestone. O recorde da pista, que caiu no primeiro treino livre, pertencia ao próprio dono do circuito. Senna voltou a ser o mais rápido na qualificação, mas abandonou de novo. E ganhou Schumacher.

A Williams entrou em modo pré-crise. O melhor piloto, com o melhor carro, não ganhava uma corrida? Dizia-se no paddock, na sala de imprensa, em todo o lado, que seria a “temporada europeia” a devolver o Mundial ao rumo traçado na cabeça de toda a gente: Senna campeão, com certeza.

O Grande Prémio de San Marino seria disputado em Itália, na pista de Ímola, a poucos quilómetros de Bolonha. A sexta-feira começou dramática. O Jordan de Rubens Barrichello voou literalmente no treino e foi espatifar-se na rede. O estado do jovem piloto brasileiro, então considerado um dos delfins de Senna, suscitou as maiores reservas. Ficou o susto, hoje olhado como um sinal para o que viria a seguir, num sábado de qualificações demasiado cruel para Roland Ratzenberger, que perdeu a vida a concretizar o sonho de ser piloto de Fórmula 1 num Simtek a cair aos bocados.

Domingo, 1 de maio de 1994. Hoje parece impossível como depois de dois acidentes tão graves houve condições para a realização da corrida.

Mas era preciso que ela acontecesse. As audiências televisivas batiam no teto, os sponsors salivavam. Ayrton Senna ia correr pela primeira vitória da temporada. Logo a abrir, um acidente entre o finlandês JJ Lehto e Pedro Lamy fez saltar uma roda que foi aterrar entre os espetadores, causando ferimentos em alguns deles.

Era o diabo a mandar cada vez mais num lugar onde só viviam deuses do volante. E o que é mau quase sempre acaba por ser pior do que aquilo que aparenta. Ayrton Senna, o mestre, o tricampeão, o predestinado, saiu diretamente da curva para o muro de betão, a 300 km/h. Ali perdeu a vida, mas não morreu, 25 anos depois fazem-se publicações especiais sobre o piloto mais talentoso de sempre, dizem.

Na tal curva Tamburello, feita com o acelerador no fundo, não era suposto haver despistes, muito menos com Senna por protagonista, por isso não havia gravilha, nem pneus amarrados, nem rails, só cimento. Essa era a Fórmula 1 de então, a velocidade acima de tudo. O campeão acima de todos. O negócio sempre multiplicador de milhões de milhões no topo. Só depois, lá muito ao fundo, vinha, lenta e atrasada, a segurança.

Foi essa Fórmula 1 que permitiu a realização do desgraçado Grande Prémio de San Marino, ganho e festejado no pódio por Michael Schumacher. Com Ratzenberger na morgue de Bolonha e Senna a caminho dela.

Escrevi então que nessa Fórmula 1 palco de tantos acidentes e que duas semanas depois viu o princípio do fim da carreira de Karl Wendlinger, em mais um acidente devastador no Mónaco, o limite de velocidade era a imaginação de cada um. Havia sempre margem para introduzir uma alteração, mudar a aerodinâmica, acrescentar pormenores que permitissem ganhar potência, em nome de carros mais rápidos. Porque também aqui os reguladores seguiam a uma velocidade diferente.

E foi nessa Fórmula 1 que o recorde de Fangio começou a ser batido até acabar no currículo de Michael Schumacher.