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Disfarçar as coisas pela intensidade chegou, mas não vai chegar sempre

O Benfica ganhou 1-0 ao Fenerbahçe, o que é bom porque fica em melhor posição para seguir rumo ao play-off decisivo da Liga dos Campeões. Mas o Benfica, com bola, continua a ser previsível, linear, com muito pouco jogo interior e sem gente a posicionar-se dentro do bloco adversário, carências que remediou na segunda parte com um aumento na intensidade, agressividade e velocidade de fazer as coisas. Foi o suficiente, desta vez, para encostar um adversário passivo

Diogo Pombo

RAFAEL MARCHANTE

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Abordemos o expectável e previsível elefante que há na sala, um devaneio metaforizado para se falar de Rui Vitória, não em tom jocoso, antes para concluir o que fácil é de se ver: que entre expressões feitas, tornadas familiares pelo uso e repetição, como a “temos perfeita noção daquilo que queremos”, ou a “vamos ser uma equipa muito convicta e determinada”, o treinador do Benfica prossegue, num caminho que se faz caminhando, igual a si próprio, imutável na postura e no discurso.

É um estilo, uma forma de agir perante as coisas que ele mantém, sucedam-se as épocas, as partidas e os desempenhos, entrem mais golos do que os que se deixem entrar, seja a qualidade de jogo (para lá dos números) maior ou menor.

Não mudando o treinador na forma de ser, comunicar e estar, poderia mudar o conteúdo à equipa na qual tem mão, mas não. O oficialmente primeiro Benfica desta época é, espremidas as três novidades que há em Odysseas na baliza, em Gedson ao centro do campo, e em Ferreyra na área adversária, o Benfica frequentemente visto dos tempos recentes, sobretudo do último ano, notório no que é, ou ousa ser, com a bola.

Que é muito pouco, contra um Fenerbahçe que se passeia com timidez durante 45 minutos, nunca montando uma pressão que tente incomodar os dois centrais, até situando-a uns metros atrás de Fejsa, e tendo os jogadores apenas a ligarem o modo ‘bom agressivo’ quando eram desafiados em situações de um contra um. Também elas poucas, e voltamos à equipa de Rui Vitória.

O Benfica usufrui de bastante mais tempo com a bola, mas pela forma como a usa e posiciona os jogadores no campo, para a usar, fabrica uma série de ‘mas’: Fejsa, o trinco, nunca quer receber um passes nas costas de algum adversário, ficando na linha de Jardel e Rúben Dias; Pizzi e Gedson também correm, quase sempre, paralelos em campo; os laterais raramente se projetam para fixarem marcações; Ferreyra simplesmente espera que as jogadas lhe cheguem; Cervi e Salvio correm e sprintam e tentam cruzar a bola, improvisando, tornando redundantes os improvisos por eles serem sempre os mesmos, vindos dos mesmos tipos.

Os encarnados, numa palavras, são previsíveis.

E, por previsíveis, entenda-se uma equipa que, muitas vezes, tentar aproximar-se da baliza adversária só com quatro jogadores à frente da linha da bola, quase estáticos. Raramente procura espaços entre as linhas - desfasadas, buracosas e pouco coesas - do Fenerbahçe, que é bem falível na transição ataque-defesa que, trocada por miúdos, são os momentos em que perde a bola e os jogadores têm de reagir, apertar, correr para trás e fazer estas coisas de forma organizada.

Por isso, o Benfica tem o remate frouxo, rasteiro e torto de Salvio, à entrada da área, e outro de Ferreyra, dirigido amigavelmente às mãos do guarda-redes, após roubar duas bolas na metade turca do campo - arriscou na pressão, havia espaço, foi incisivo, aproveitou-o para deixar alguém com hipótese de rematar.

Isto na reação, não na ação, uma situação de jogo em que a falta de mentes técnicas e criativas em campo, como as de Jonas (lesionado ou prestes a ser vendido), Zivkovic (sentado no banco) ou, esticando a corda, Krovinovic (há muito lesionado), contribuem para o jogo ofensivo com que pretende ofender o Fenerbahçe seja, na primeira parte, linear e previsível.

Não melhoraria por aí além, depois, com grande rasgo ou engenho, embora os jogadores aumentassem, em muito, a tal boa agressividade com que tentavam fazer as coisas.

Carlos Rodrigues

Os encarnados avançaram o par de metros com as linhas, pressionaram mais à frente no campo, cortaram no espaço e no tempo dado aos defesas turcos para pensarem o que fazer à bola. Reagiam mais rápido, e mais próximos uns dos outros, aos passes falhados, começando a recuperar as bolas acabadas de perder - e remataram, muito.

Entre a meia dúzia de disparos à baliza nos 15 minutos pós-intervalo, todos fora da área, apenas o de Salvio obrigou Volkan Demirel à parada do jogo e não parou em corpos turcos, que se juntavam cada vez mais na área. O Benfica cresceu na intensidade, agressividade e velocidade, qualidades que lhe chegavam para ser mais perigoso no jogo, mesmo que o formato de usar a bola, em posse calculada e pensada, não mudasse.

Mas o Fenerbahçe, encolhido e conformado com esse encolhimento, encostava-se à área e assistia, passivamente, às jogadas que o Benfica já aproximava mais da sua área. Esse modo simpático de se pôr a jeito permitiu que o cruzamento lento e rasteiro de Salvio chegasse a Cervi, cujo remate igualmente junto à relva e parco em força, fizesse um túnel entre as pernas de um defesa e nas mãos instável de Demirel.

Vinte e um cruzamentos depois, o 1-0 aparecia e o Benfica soube manter a constância da forma intensa e pressionante de forçar as coisas, que foi acentuando a desorganização dos turcos. Os encarnados continuaram sem um dos três médios a aparecer entre linhas, a querer a bola dentro do bloco atabalhoado do Fenerbahçe, resumiam-se a muitas tabelas entre lateral e extremo. Muitos cercos feitos às segundas bolas. Muita insistência em manter a equipa avançada no campo.

A equipa aguentou-se assim e forçou o contexto que beneficiou as explosões e boas decisões de Grimaldo, a aptidão física de Gedson nos duelos e as jogadas canalizadas para Castillo, aparentemente menos 'jogador' que Ferreyra, só que mais forte a receber passes de costas para a baliza, rodar sobre o corpo do marcador e rematar, como o fez por duas vezes.

Mesmo que parco em ideias e em criatividade para as criar - ou nas que teve -, o Benfica manteve-se organizado a defender, compacto a contrariar um Fenerbahçe sem velocidade no ataque, rematador de apenas duas bolas na baliza de Odysseas, pouca produção e desempenho que foram tornando os turcos na equipa inferior em campo.

A passividade deles foi derrotada pelo aumento de intensidade da equipa de Rui Vitória, não tanto pelas ideias, pela forma de desenhar jogadas, ou pelos desequilíbrios que o posicionamento dos jogadores no relvado. Fazer as coisas rápido, forçando-as na força e na rotação, pode desatar muitos nós e atar bastantes jogadores a ficarem no lado ganhador de duelos (físicos, um para um, ressaltos, chegar primeiro à bola, etc.), mas nunca será um disfarce eterno para a falta de ideias, engenho e criatividade em usar a bola.

E isto sim, ser-lhe-á conveniente mudar.