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O yin e o yang que é este Benfica

Houve dois Benficas esta noite na Luz frente ao V. Guimarães, no jogo que abriu a Liga NOS 2018/19. Até aos 70 minutos, o Benfica foi luz, ação. A partir daí, e depois da saída de Fejsa, quando as cabeças já estariam de certo do outro lado do Bósforo, chegou a passividade. E de um 3-0 ao intervalo, os encarnados viram-se a defender um apertado 3-2

Lídia Paralta Gomes

Pizzi, o yang do Benfica, como que aliviado depois de perceber que o seu hat-trick quase não chegava para ganhar ao V. Guimarães

Carlos Rodrigues/Getty

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Não é fácil caracterizar o que foi o arranque de campeonato do Benfica. Talvez seja avisado ir lá por partes. Até aos 70 minutos, a exibição do Benfica para receber este V. Guimarães, não terá estado longe da perfeição. O Benfica saiu para o intervalo a vencer por 3-0, três golos que, a partir de certo momento, não viram resposta do outro lado. Três golos de Pizzi, o comandante de um pelotão que, mais do que “calejado”, como disse Rui Vitória na antevisão ao jogo, estava muito bem preparado para aquilo que teria pela frente, ou seja, para aquilo que é jogar frente a uma equipa de Luís Castro.

Acontece que após 70 minutos de yang, de luz, de atividade, apareceram 20 minutos de yin, a passividade, as trevas, em que o V. Guimarães marcou dois golos e pegou no jogo, depois de Rui Vitória tirar Fejsa de campo e colocar Alfa Semedo, talvez já a pensar no jogo de quarta-feira em Istambul.

E é sempre um erro achar que está tudo acabado frente a uma equipa como o V. Guimarães, que ainda para mais é uma dessas equipas de quem esta temporada esperamos “coisas lindas” - desculpem a expressão, mas o narrador da transmissão televisiva deste primeiro jogo do campeonato usou-a tantas vezes que tenho medo que tenha ficado para sempre na minha cabeça.

Porque das equipas de Luís Castro sabemos já duas ou três coisas. Que jogam com os grandes olhos nos olhos, que gostam de assumir o jogo, que tentam, sempre que possível, mostrar bom futebol. E também que nem sempre as ideias do treinador são absorvidas imediatamente - até porque são um bocadinho mais complexas que as do génerico treinador português. No ano passado, e basta recuar um bocadinho, o Chaves de Luís Castro começou mal, pairou a foice do despedimento prematuro, mas a direção transmontana acreditou e o certo é que os flavienses terminaram a época em 6.º lugar.

O estilo das equipas de Luís Castro, sendo corajoso e entusiasmante quando resulta, é muito penalizado quando existem erros. E este V. Guimarães errou demasiado durante 70 minutos, em que, diga-se também, o Benfica jogou bem e conseguiu precisamente estancar aquilo que são os pontos fortes do adversário.

E aqui, Pizzi foi o expoente máximo do yang, bem coadjuvado por Gedson e Salvio. Depois de uma primeira oportunidade de Júnior Tallo, com um cabeceamento que Vlachodimos afastou bem, o Benfica começou um jogo de pressão alta que obrigou o V. Guimarães a sentir-se desconfortável e a errar. E foi de uma perda de bola de André André que surgiu o primeiro, logo aos 10 minutos. Após ganhar ao ex-FC Porto, André Almeida lançou Gedson, com o jovem a encetar uma cavalgada que acabou num cruzamento para a área. Ainda houve um corte, mas estava lá Pizzi para a emenda.

PATRICIA DE MELO MOREIRA

O Benfica falharia então uma grande penalidade por Ferreyra e por momentos vislumbrou-se uma reação vimaranense: depois de um erro de Fejsa, Teixeira ficou frente a frente com Vlachodimos. O alemão defendeu bem, mas a bola sobrou para Tyler Boyd que com a baliza ali à mão de semear rematou ao poste.

Estávamos ao minuto 18 e o falhanço de Boyd lançou o Benfica para momentos para uma ofensiva sem descanso rumo à baliza de Douglas. O Vitória, pouco habituado a tal coisa, estava então completamente manietado. E de repente, mais dois golos, duas vezes Pizzi. Aos 30’ após Salvio brincar com Rafa Soares antes de deixar para o cruzamento de André Almeida e aos 39’ numa jogada que começou em Grimaldo, teve um meio com Ferreyra de forma inteligente a deixar passar a bola por baixo das pernas e acabou com Pizzi novamente em frente a Douglas.

E ao intervalo parecia tudo decidido.

Ao intervalo e até já bem dentro do 2.º tempo. Sem nunca mais ser particularmente perigoso, o Benfica foi controlando, mostrando aqui e ali alguns bons pormenores, para então, a partir da saída de Fejsa, se recostar de forma precoce, confiando que a almofada de três golos era mais do que suficiente para, por exemplo, lançar Alfa Semedo.

Com Alfa, apareceu o yin.

PATRICIA DE MELO MOREIRA/Getty

Até porque Luís Castro já tinha lançado Davidson e Celis, que acabaram por ser decisivos para que o V. Guimarães fosse mais parecido àquilo que já vimos algures em Vila do Conde e Chaves. Enquanto o Benfica desacelerava, o jogo dos minhotos tornava-se mais rápido, mais fluído. E foi logo numa das primeiras vezes que conseguiu chegar à área que o Vitória reduziu, aos 76’, com André André a surpreender a defesa encarnada com um remate cruzado e repentista, depois de ganhar espaço quando Alfa dele se esqueceu.

O segundo não demorou muito: aos 81’, a uma perda de bola no meio-campo encarnado e a uma incompreensível moleza que se seguiu, André André e Celis responderam com uma jogada rápida que acabou com o colombiano ex-Benfica a fazer o 3-2.

Só aí o Benfica percebeu que tinha mergulhado a fundo no yin e era preciso recuperar algum do yang. Ainda assim, até ao final foi o V. Guimarães quem mais ordenou e ao Benfica resta tirar daqui um par de lições para o futuro.

Não é a pior altura para se ter lições, afinal isto é só o início do campeonato. E começar o campeonato com um jogo emotivo e com muitos golos também é boa notícia.