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Sabem quem é o treinador que perdeu? Poupo-vos o trabalho: é Rui Vitória

Entre um penálti falhado, oportunidades desperdiçadas e o guarda-redes Muriel a ter o seu dia, o Benfica perdeu (2-0) pela primeira vez no campeonato, contra o Belenenses SAD de Silas que esperou, jogou fechado e defendeu encostado à área, como nunca o fizera contra um grande

Diogo Pombo

LUÍS FORRA/LUSA

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Ver a bola a ser apertada entre o pé de Seferovic, que a pontapeia fortemente e corpo estático de Gonçalo Silva, que a bloqueia na sua intenção de agredir a baliza, ficando na terra de ninguém que é um ressalto à espera de ser reclamado, é fortuito. Como o é ver Rafa a reclamar essa sobra, sentar um adversário e outro, que tropeça nesse corpo caído, virar outro conjunto de ossos, músculos e massa que cai sobre a relva para desviar a bola de novo rematada e impedi-la de entrar na baliza.

É obra do acaso, de pequenas coisas não planeadas que se ligam pela fortuna. É até caricato de tão despropositado. É um acaso que salva o Belenenses SAD de ficar com uma consequência do que, por constraste, tão intencional, convicta e propositadamente faz - defender a baliza e defender-se do adversário com a equipa encostada à própria área, com duas linhas de jogadores coladas uma na outra.

Os corpos vestidos de azul juntam-se em num retângulo de campo de 30 metros, às vezes nem tanto, encurtando o espaço por onde o Benfica pode entrar. Pizzi, Gedson e Rafa, os pés rápidos, mais passadores e em quem a equipa mais depende para dar rodagem à bola que monopoliza. Quando ainda isso ainda não era uma certeza, o arranque do jogo deu logo um remate em arco a Salvio, para Muriel voar e desviar, aos 15 segundos.

Quando já o era, as duas muralhas recuadas dos azuis que rodeavam a área davam toda a bola, todos os passes e todo o tempo e espaço do Jamor ao Benfica para viver, tranquilamente, em 70 metros de campo. Mas, com os alas na linhas dos três centrais e os médios e avançados alinhados à sua frente, tapava a relva disponível para os encarnados acelerarem pelas linhas, abusarem de Grimaldo e avançarem para cruzarem, depois, rasteiro e para trás, na área.

Nunca se viu a marca de água atacante do Benfica até ao intervalo. Esperando, não pressionando, só reagindo e confiando que ter muitos jogadores fechados e juntos chegaria, o Belenenses SAD foi desmontado por tabelas pelo centro. Gedson, o médio com mais explosão no arranque, por duas vezes logrou tocar a bola, fugir e recebê-la mais à frente, já na área, para ameaçar com remates. Seferovic também disparou a bola, mas perto da linha de fundo, contra Muriel, depois de um disparate vindo da vontade azul em sair a jogar pela relva.

A avalanche ditatorial do Benfica na bola, mantendo o jogo no campo contrário, forçava as tentativas pelo centro e, numa delas, o VAR viu um penálti que Salvio quis bater, já depois de querer trocar de chuteiras. O argentino disse que o fazia depois e o seu pé direito bateu na bola que Muriel defendeu, com toda a intenção. Isto foi aos 32 minutos, tempo em que o Belenenses SAD nunca ligou cinco passes seguidos ou se aproximou da outra baliza com propósito.

E, aos 36’, o lateral Zakarya viu um buraco do ozono entre lateral e central, lançou a bola rasteira e Odysseas fugiu da baliza para a dividir com um Licá que nunca teria espaço para lhe dar grande proveito. O guarda-redes derrubou o avançado e Eduardo Henrique, contente com as suas chuteiras, fez o que Salvio não logrou. À surpresa do 1-0 seguiu-se o espanto do 2-0, originado num lançamento lateral encostado à área do Belenenses SAD, que abriu o livro do que não fazer.

Porque os jogadores do Benfica reagiram tarde, pareciam despreocupados, pressionando só quando a bola chegou a Henrique, perto da linha que divide o campo; o médio ficou do lado felizardo de um ressalto, é verdade, mas, continuando a correr com a bola, os encarnados deram passo à frente, saíram-lhe ao caminho, em vez de recuarem uns metros para retardarem uma decisão e evitarem o que aconteceu - alargaram espaço nas costas, deram profundidade a Keita, o passe entrou e o avançado ajeitou a bola para tornear Vlachodimos

LUÍS FORRA/LUSA

Em 45 minutos, jogando encolhido, fechado, diminuindo o campo ao máximo e esperando ao invés de pressionar, como nunca o fizeram contra um grande, a equipa de Silas marcou dois golos. Nos 630 minutos de campeonato anteriores, só marcara quatro.

O Benfica a quem a bola, os passes, o domínio territorial e o ímpeto passaram a pertencer, ainda mais, ganhou Jonas para a segunda parte. Enquanto os três defesas do Belenenses SAD e os médios se adaptavam ao maior alarme personificado que existe, no campeonato, a jogar na área, os encarnados forçaram um massacre.

Jonas, Rafa e Pizzi, por vezes em fases distintas da mesma jogada, remataram para ou Muriel os contradizer, ou a direção da tentativa falhar, por pouco, a baliza. Foram 10 minutos de uma avalanche da qual a equipa tentou um golo que fosse trampolim para tudo resto. Não apareceu e, a partir daí, a cadência de jogadas terminadas em remata à baliza foi diminuindo.

E mirrou, ainda mais, quando Rui Vitória tirou Pizzi da direita (68’) para ter Castillo a tentar entender-se no espaço e nos movimentos com Jonas e Seferovic. Só no minuto seguinte é que a urgência do Benfica em passar a bola para a frente, a trocar o pensamento pela pressa, deixou alguém, no caso Jonas, a rematar para Muriel, de novo, defender. Tudo o resto se compôs improvisos individuais, ver quem fazia algo acontecer ou passes trocados até um jogador ser capaz de cruzar a bola para a área.

Estratégia desenfreada que só incomodou, realmente, Muriel, já nos descontos, quando Jardel obrigou Muriel a mais uma grande parada. Fora isso, a bola, os passes completos, os remates e as oportunidades que o Benfica criou a mais são números para esconder o que se viu muito na segunda parte - uma equipa sem ideais, rendida à pressa, sem capacidade para desmontar a forma como o adversário se defendia, cuja falta de plano coletivo foi mais evidente com a saída de Pizzi.

E o Benfica acabou por perder. Mas não "quase que por magia" por "a bola não passar a linha". Ou por oportunidades que "em condições normais" entrariam. Ou porque "hoje a bola não quis entrar, é isto e não há nada a dizer", tudo coisas ditas, no final, por Rui Vitória.

LUÍS FORRA/LUSA

As oportunidades não aproveitadas são uma parte da derrota do Benfica. Outras, por exemplo, estão no que se viu depois de sair o médio que mais liga ideias e se associa a quem está mais perto da baliza, para só aos 84’ sair Fejsa, um médio feito mais para contrariar o adversário e menos para dar vida à bola que, sobretudo, usa para a fazer chegar ao lateral ou outro médio mais próximo.

A equipa ficou coxa com Rafa, único extremo para esticar linhas de passe e obrigar o Belenenses SAD a abrir-se.

E ficou à mercê de um adversário que fundou a resistência no seu guarda-redes e ainda reagiu em dois contra-ataques que Lucca e Licá não aproveitaram. Porque, mesmo defendendo lá atrás, como não costuma, manteve o hábito de, com bola, a circular com jogadores perto uns dos outros, com poucos toques e sempre na procura do homem livre e de frente para a baliza. Silas é o treinador da equipa que ganhou.

E o Benfica de Rui Vitória perdeu.

O treinador que na antevisão a este jogo, como já o fizera antes do clássico, reagiu a perguntas com "números e factos" que lhe dizem respeito: "Sabem quem é o treinador que tem mais vitórias na Liga dos Campeões com menos número de jogos? Este rácio de jogos com vitórias. Eu poupo-vos o trabalho: sou eu". Não era factual, como o ZeroZero verificou e comprovou.

Facto é que o Benfica perdeu pela primeira vez no campeonato, ligou duas derrotas seguidas pela quarta vez desde que é treinado por Rui Vitória, é a segunda vez que fica dois jogos consecutivos sem marcar golos. E é factual que pode ser igualado no campeonato pelo FC Porto.