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A revolta dos dispensados

E aí vão três derrotas consecutivas para o Benfica. A de esta noite, frente ao Moreirense (3-1), para piorar, está revestida de um fino recorte irónico: os dois primeiros golos da equipa de Moreira de Cónegos, que foi a equipa que melhor futebol apresentou na Luz, foram marcados por Chiquinho e Pedro Nuno, jogadores que o Benfica comprou mas não quis

Lídia Paralta Gomes

Gualter Fatia

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É uma daquelas práticas do futebol moderno que me fazem suspirar por quando tudo era, aparentemente, mais simples. Falo daquela moda dos clubes grandes comprarem jogadores por atacado para emprestar consecutivamente ou, simplesmente, dispensar.

É estranho, mesmo.

Chega a ser por isso quase irónico, para não dizer uma chapadita de luva branca, que a revolta que poderá muito bem marcar um qualquer fim no Benfica tenha sido orquestrada, liderada e instrumentada por dois desses jogadores que andaram pela engrenagem da Luz sem nunca verdadeiramente terem sido jogadores do Benfica, Chiquinho e Pedro Nuno.

Foram eles que iniciaram o escândalo que acabaría com uma derrota por 3-1 para o Benfica, a segunda seguida para o campeonato, a terceira consecutiva se a Belenenses e agora Moreirense juntarmos o Ajax na Champions.

Não são tempos fáceis, estes, na Luz.

E nem se pode falar de “azar” ou de “bolas que não quiseram entrar”. Porque a bola até entrou, logo aos 2 minutos, quando João Félix encontrou Jonas na área e o brasileiro, de regresso ao onze, voltou aos golos. Mas ainda se festejava nas bancadas quando Chiquinho, rapaz que o Benfica comprou este verão à Académica para um par de meses depois o vender ao Moreirense, com todo o espaço do mundo à entrada da área, rematou cruzado, colocando um lacinho numa jogada rápida que seria, na verdade, apenas um amuse bouche daquilo que os minhotos iriam mostrar na 1.ª parte.

Começava assim elétrico o jogo na Luz e o Benfica até podia ter empatado um minuto depois, com Jhonatan a salvar no último momento uma tentativa de chapéu de Rafa que ia direitinha à baliza. Nada que tenha assustado o Moreirense, que chegou a Lisboa para jogar de peito feito e que em tempo algum quis apenas o empate.

Gualter Fatia

E teve recompensa aos 16 minutos. Em mais uma jogada de combinações rápidas, Arsénio arrancou pela direita, o samurai Fejsa pareceu por um momento um bem comportado gatinho e deixou-o ir e para responder ao cruzamento estava Pedro Nuno, rapaz que o Benfica comprou em 2016 à Académica para logo o emprestar ao Tondela, antes de o vender em definitivo ao Moreirense esta temporada.

Irónico.

Pedro Nuno que depois do golo ainda podia ter marcado por mais duas vezes, enquanto do outro lado até Jonas, o rei da eficácia Jonas, ia falhando golos que normalmente não falha e Rafa esbanjou uma saída em falso de Jhonatan, atirando a bola para as pernas de Ivanildo.

E já que falamos de eficácia, isso foi coisa que não faltou ao Moreirense, que aos 36’ deu ainda mais expressão à surpresa, que olhando para o que Benfica e Moreirense jogaram talvez não seja tão surpresa assim: após uma atrapalhação de Vlachodimos e apatia geral dos restantes colegas da defesa, Loum olhou para o cantinho da baliza e de bem longe lançou um míssil rasteiro que o guardião grego talvez pudesse ter desviado.

A perder por 3-1 ao intervalo, Rui Vitória lançou Castillo para dar mais músculo ao ataque, Salvio para fazer o corredor direito e o Benfica teve mais bola. O que não significa ter mais ideias, como todos sabemos. Com o Moreirense mais fechado, porque agora se podia dar ao luxo de estar mais fechado, o Benfica nunca teve a imaginação e criatividade para dar a volta ao texto: objetivamente, a vitória do Moreirense é justa, porque foi a equipa que jogou melhor, principalmente na 1.ª parte, onde teve a coragem de jogar com as linhas bem subidas, a pressionar o Benfica, a avançar com rapidez e qualidade para o ataque.

Intranquilidade e apatia parecem ser dois conceitos meio contraditórios mas são dois conceitos que convivem neste Benfica de Rui Vitória (e a expulsão de Jardel é um retrato disso mesmo), que já vai com três derrotas seguidas, coisa que não se via desde os idos de 2010. O coro de assobios com que a Luz brindou jogadores e treinador dizem que talvez não haja lugar para um 4.º desaire.