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O treinador que ninguém quer: Rui Vitória, um homem só

É uma questão de tempo até Rui Vitória sair. O movimento já é impossível de travar. Luís Mateus explica porquê nesta edição do Expresso Diário - e identifica os erros do técnico e do seu presidente, Luís Filipe Vieira

Luís Mateus

FOTO MIGUEL A. LOPES / LUSA

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O ciclo começará e terminará com o mesmo rótulo, o de “não-treinador” e com a imagem do Ferrari imobilizado sem motor para voltar a pegar, depois de peões sucessivos e embates estrondosos de cada vez que tenta retomar percurso - como nesse arcade da década de 80 de nome “Out Run”, presente em praticamente todos os salões de jogos. Perante o amontoado de gente que protesta, Rui Vitória terá de dar a vez a outro. Agora, ou daqui a algum tempo, já que Luís Filipe Vieira terá arrumado temporariamente o chicote na gaveta (o presidente do Benfica fala às 20h, já depois do fecho desta edição do Expresso Diário).

O “não-treinador”, que teve forças para recuperar equipa, a “carteira profissional” e também, por cúmulo, o próprio apelido ao sagrar-se campeão duas épocas seguidas, acabará por sair sem glória e, muito provavelmente, com uma imagem que demorará a descolar: “o treinador de equipa pequena”. Ouviu-se isso muitas vezes e continuará a ouvir-se, porque ninguém muda de um momento para o outro.

Vitória está cada vez mais só, mas não é o único culpado. É de sublinhar o desinvestimento protagonizado por Luís Filipe Vieira e a sua administração na época passada, que poderia ser histórica por se tratar do assalto ao penta. Depois, há o prolongar da agonia na atual, talvez por se sentir ainda refém do fantasma de Fernando Santos e até do que aconteceu posteriormente com Jorge Jesus. No entanto, ao continuar a cruzar os braços, o presidente não retira o grupo de um ambiente insustentável de lenços brancos perante jogos cada vez mais decisivos, fora da Liga dos Campeões e a quatro pontos do primeiro lugar da Liga, ocupado por um FC Porto aparentemente embalado.

Não há volta a dar, sabe-se há muito. O buraco só ficará mais fundo.

Foto Pedro Nunes / Reuters

OS PECADOS DE RUI VITÓRIA

Como é que Rui Vitória passa de “não-treinador” a melhor técnico em duas épocas e agora volta a cair na desgraça e a recuperar o rótulo inicial? Primeiro, com mérito na gestão de crise. E, depois, por culpa da falta de bagagem para acrescentar valor.

Jorge Jesus, quando trocou Benfica por Sporting, acusou Vitória de nada ter juntado ao jogo dos encarnados e terá, caricaturalmente, ganho no confronto contra si próprio por três vezes: Supertaça, Liga (na Luz) e Taça. Ao seu jeito, Jota Jota sentia-se confortável para provocar, enquanto o rival aguentava firme com o discurso - que hoje se acusa de insosso e monocórdico - a ganhar pontos, criando a aura de bom rapaz, e deu o mote para o grupo voltar a unir forças.

Havia um inimigo comum.

O triunfo em Alvalade, com o quase imperdoável falhanço de Bryan Ruiz pelo meio, confirma a ascensão e vale um título que muitos acreditavam perdido. É um ano de lesões e de apostas seguras. Semedo, Lindelöf, Guedes, Ederson e Renato aproveitam para sair, em momentos diferentes, confirmando a ideia de que o Benfica tem o treinador ideal para a política desportiva desejada: vender depois de… “formar a ganhar”. É o lema. Campeão e com Taça da Liga no bolso, Rui Vitória vence a crise e o Benfica bate Jesus a vários níveis.

Há um parêntesis que vale a pena fazer: a preparação dos jovens que saem de várias fornadas do Seixal. Exemplar. Não se vê um único tremer. Jogam todos como se fosse habitual fazê-lo. Um dia mais no escritório. É claro que o queimar de etapas teorizado no Seixal ajuda, mas há mérito de Rui Vitória.

FOTO ANDREAS GEBERT / REUTERS

Em 2016/17, o Sporting quebra. É o FC Porto quem se assume como grande concorrente, mas a era Espírito Santo corre mal no Dragão. O Benfica é campeão, depois de arrecadar a Supertaça, e termina a época em festa no Jamor. No entanto, mesmo aí, depois do tetra e de mais três troféus, a sensação mantém-se: não é bem Rui Vitória quem vence, mas sim os rivais, com sucessivos tiros nos pés, a permitirem que o faça. Continua instável, sobretudo na defesa. Continua a faltar trabalho, bagagem, que estanque situações recorrentes durante as partidas.

UMA QUESTÃO DE CONTEXTO

O futebol não existe sem contexto. O que muda no melhor treinador das ligas 2015/16 e 2016/17 para que agora volte a ter de provar tudo de novo? Talvez de forma até algo injusta, os adeptos não se reveem no que se passa no relvado. O futebol praticado, sobretudo em casa, é bem satisfatório quando comparado com Sporting e FC Porto. É na última temporada, em que não ganha nada, que o edifício de confiança desaba. Aos resultados soma-se agora a inexistência do vislumbre de melhorias.

As ligações tecidas por Jesus no grupo desgastam-se, a equipa soma eliminação atrás de eliminação, com a humilhante participação na Liga dos Campeões a dar o tom para o resto do ano. Se Vitória resiste inicialmente à mudança e até em dar cunho pessoal, acaba mesmo por abdicar do 4x4x2 por um 4x3x3 com Krovinovic, a tempo de ainda lutar pelo título que resta, o de campeão, mas depois perde o croata e também Jonas, e tomba com o golo de Herrera ao cair do pano. Deixa fugir o FC Porto na Luz quando pode assumir vantagem quase definitiva e salva a presença nas pré-eliminatórias da Champions na derradeira jornada, com a derrota do Sporting na Madeira, depois de segurar um pobre nulo em Alvalade. Mais uma vez, são os outros a fracassar e não ele a conquistar o segundo lugar.

FOTO MIGUEL A. LOPES / LUSA

Num jogo cada vez mais de assinatura, o futebol de “marca branca” de Rui Vitória, em que apenas há a mudança de sistema a assinalar – e que, por si só, não é responsável por nada –, deixa de convencer. É suportável enquanto os resultados aparecem, com alguma gratidão à mistura pelos dois campeonatos conquistados, mas torna-se tóxico com as derrotas e a falta de capacidade de superação em momentos decisivos.

Nenhum jogador melhora, e até alguns com grande potencial dão passos atrás. Zivkovic é caso de estudo, após uma época bem razoável a substituir Krovinovic. Não aproveitar o talento do sérvio é algo que sempre será apontado ao treinador, além da predisposição para escolher a vertigem em detrimento da definição e do controlo. E o não aproveitamento do crescimento de João Félix, quando aparecia na antecâmara da titularidade, também é estranho - tal como o apagão de Gedson.

Colada a estas ideias fica ainda uma outra, a que sai do dérbi com o Belenenses. A partir do banco, destroça as hipóteses de anular a desvantagem. Tira Salvio para juntar Jonas a Seferovic, mas encosta Pizzi à direita, quebrando uma ligação que tinha dado frutos no passado. Depois é o 21 quem sai para dar lugar a Castillo, perdendo-se toda a construção no meio-campo. A imagem volta: é um treinador ultrapassado, sem muito conteúdo.

FOTO MÁRIO CRUZ / LUSA

O DISCURSO QUE NÃO PERDE NEM GANHA JOGOS

Qualquer conferência pode ser trasladada de um momento para outro da mesma época. Poucos notariam. Não é um treinador de mind games. Não dá manchetes e mostra-se também pouco disposto a explicar decisões. Reage sempre com tranquilidade quando atacado e isso vale-lhe pontos nas duas primeiras épocas. Tudo somado, não perde jogos na sala de imprensa mas também não os ganha.

Todavia, nota-se uma ligeira mudança da última para a presente época. Tem necessidade de puxar dos galões, porque tem de recuperar dessa imagem de “não-treinador” que volta a colar-se à pele. Só que o faz da maneira errada. Não mostra conhecimento. Não explica ideias. O tema da palestra na Faculdade de Motricidade Humana é mal escolhido: porquê o PAOK e não os princípios gerais da própria equipa?

LUÍS FILIPE VIEIRA, O REGRESSO DE JESUS E O “NÃO-JESUS”

Agora, o Benfica. O clube também dá uma pálida imagem perante esta dicotomia entre Jesus e o seu oposto, que foi até aqui Rui Vitória. Os encarnados passam de um técnico que não aposta na formação, arrogante e que também falha títulos importantes – ideia que reforçam publicamente – para um cavalheiro que se mune de juventude à sua volta, contribuindo para o reforço dos cofres no clube com boas vendas. Vieira reforça, em entrevista à TVI, que é este o perfil que quer… ao mesmo tempo que não afasta um possível regresso de Jesus.

Parece contraditório. É contraditório.

FOTO MARCOS BORGA

Rui Vitória aproxima-se do fim do ciclo e o nome mais falado para substituí-lo é precisamente o do antecessor. Seria o regresso do “anticristo”, o abdicar da filosofia pelos resultados, o dito pelo dito e também a constatação de que os encarnados estão reféns de quem lhes devolveu os triunfos. Obviamente que num clube da grandeza do Benfica nem o próprio Fukuyama podia achar que Jesus fosse o fim da história.

Isto para não falar dos processos movidos entre as partes e as muitas acusações feias que as antecederam.

Face ao investimento feito no Seixal, com a qualidade que tem saído e está preparada para sair a curto e médio prazo da formação, abdicar de um perfil de treinador que dê continuidade a esse trabalho será hipotecar parte do futuro. Embora não possa fazê-lo sem títulos. Porque os ganhadores simplesmente vendem mais e melhor. Ganhar implica obviamente também dar uma outra imagem na Europa, onde estão os compradores. É esse equilíbrio que Vieira terá de procurar e dificilmente o conseguirá com Vitória. Ou com Jesus.

Falta dar outro passo. Integrar ainda mais a formação na equipa principal, uniformizando ideias, conceitos e até filosofias. Algo que torna muito importantes as próximas decisões do presidente dos encarnados.

Para já, o treinador que ninguém quer continua. Um homem só. Sem os adeptos à sua volta, aparentemente sem os jogadores e, depois de tudo o que o clube deixou sair na imprensa, com a confiança da direção presa por um fio – uma horrível gestão da comunicação.

É uma questão de tempo. O movimento já é impossível de travar.