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Foi rápido, rápido, rápido - e isso já pode ser um começo

Entre todas as tentativas de fazer as mesmas e velhas coisas em campo, o Benfica goleou. Os quatro com que ganhou (4-0) ao Feirense apareceram na segunda parte, após uns primeiros 45 minutos lentos, lentos, lentos, como o presidente não queria ver. A equipa conseguiu uma goleada para reagir às turbulências da semana, mas não no futebol jogado em campo não se viram grandes mudanças

Diogo Pombo

NurPhoto

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Rui Vitória devia o prometido e ei-lo, composto e de peito feito, a pisar o relvado antes dos titulares e depois dos suplentes que, sentados, o veem a ficar de pé, diante do banco. O treinador aplaude, de cara fechada, bate as palmas uma contra a outra cinco ou seis vezes. Pára e mantém-se de pé, a posição inalterada, até os jogadores se alinharem com os árbitros e o aplausos da bancada já imperarem sobre os poucos assobios que se ouviram.

Cumpriu o que anunciou e esperado era que o fizesse, por mais encenado que o gesto tenha parecido, pelo cuidado com que o canal de clube se preparou. Feita ficou a primeira das coisas para a qual se esperou para ver, depois de vaivém de volte-faces que rodopiaram o futuro de Rui Vitória, que se manteve no sítio por uma decisão conjunta e um “abraço sentido”.

Da boca do homem que apertou nos braços, o ostentador de um bigode e do mais alto poder no clube, saiu a segunda coisa a ser vista, no fundo, a que interessa. Se o jogo “lento, lento, lento” que desgosta a Luís Filipe Vieira era trocado pelo vago conceito de “jogar à Benfica”, não explicado pelo presidente, apenas deixado assim, no ar, o mesmo ar que se encheu de assobios assim que chegou o intervalo do Benfica-Feirense.

Os silvos agudos foram contra um jogar previsível, mais expectável a cada minuto contado. Saía-se com a bola por fora, com os centrais a darem para os laterais, eles que inventem algo com o extremo do seu lado. Tentavam-se tabelas perto das linhas que se ligavam quando Jonas lá ia, os pés que mais sabem a ajudar, mas que roubavam à área a presença dessas chuteiras que mais acertam no que fazem.

Gedson corria para roubar bolas, Fejsa apenas existe perto dos centrais, até Pizzi, estranhamente, mal tocava no jogo e tentava associar-se com Jonas, parceria mais bem sucedida que a equipa teve nos últimos anos. As mudanças que Rui Vitória pediu, garantiu virem aí, embora sem as especificar, mas exigindo que fossem “primeiro, no interior”, fosse lá isso o quê, não se descortinavam.

Se a mensagem vaga e incerta era um prenúncio de vir aí mais jogo interior - com tabelas, apoios frontais, médios a receberem dos centrais, entre linhas, com posses de bola a tramarem a vida aos adversários e, no fundo, um jogo variado -, enganou-nos a todos. A equipa continuou a ser unidimensional, a fazer tudo por fora, a cruzar de longe ou rasteiro e para trás, quando ganhava a linha.

Como de costume.

E não é por tentar as mesmas coisas de sempre, mas mais rápido, que elas iriam funcionar.

Nem com as insistências, ao sprint, de Rafa, ou com o livre que previsivelmente seria cruzado, mas que Pizzi bateu na baliza (Caio Secco, a duas mãos, desviou). Ou com o remate de cabeça inofensivo de Jonas, o habitual abono de todas as salvações, que esteve 45 minutos sem atacar uma bola ao primeiro poste, até ao primeiro cruzamento de Grimaldo fez, na segunda parte, colado à linha de fundo

MANUEL DE ALMEIDA/LUSA

Nesse sítio, liberto, sem tempo para levantar cabeça, é tido e formatado que a bola vai sair rasteira e para trás, como é tradição. O brasileiro lá explorou o espaço à frente do central mais perto da bola, rodou com a receção sobre ele e rematou de pé esquerdo para o 1-0. Um velho movimento do Benfica tinha sucesso devido à sempre confiável habilidade do melhor indivíduo que tem na equipa.

Ele, sim, era um prenúncio não de mudanças ou frescas novas formas de agir em campo, como equipa, mas de maior rapidez.

Os jogadores aumentaram, cada um, a velocidade sobre a bola, forçaram-se a serem mais intensos. Não deixaram de tentar os mesmos movimentos, as mesmas tabelas por fora, a omnipresente dependência em o jogo estar de Grimaldo, e ele de frente para a baliza, para criar coisas ofensivamente. Mantiveram os procedimentos, apenas os tentaram fazer mais rápido.

Foi o espanhol, ainda na sua metade do campo, a rasgar um passe para encontrar a diagonal sónica de Rafa, que chegou à bola antes do guarda-redes e tentou cruzar a bola que Bruno Nascimento desviou para a própria baliza. E ao espanhol chegou a sobra de um cruzamento tenso de Gedson atravessou a área, que ele recruzou a bola rasteira, para Jonas abrir as pernas, deixá-la ir ter com o pé direito de Pizzi, que lançou no brasileiro para o avançado cruzar e Rafa rematar o seu oitavo golo da época (ajudado pelas mãos amanteigadas de Caio Secco).

Os três golos e um quarto, que não apareceu pela raridade de um falhanço de Jonas (após um passe de Rafa, que roubou um passe do guarda-redes para o central), surgiram por o Benfica acelerar ao máximo que pode os movimentos mais rotinados que tem. O Feirense que, na primeira parte, ainda alcançou a área contrário com a pausa de Tiago Silva a lançar a vertigem de Luís Machado, encolhia a cada golo sofrido.

Esse quarto golo apareceria, também, pela esquerda, de onde a chuteira canhota de Zivkovic deu um passe rasteiro para Seferovic, na área, onde o suíço, depois de um ressalto, fechou o resultado e uma confirmação: o Benfica responderia à semana de dúvidas com uma goleada, não jogando com mudanças, mas acelerando o jogar de sempre e sendo eficaz, na segunda parte, no ataque à baliza e no aprisionar do adversário com pressão imediata às bolas perdidas.

Mudancas? Nenhumas, ou muito pouco visíveis.

Mas “deliciado” ficou Rui Vitória por ver “cada jogador que se desmarcava” a receber a bola, como elogiou, no final. Pode ser um princípio para mudar as coisas para melhor (mesmo que as desmarcações respeitadas sejam as diagonais de Rafa e pouco mais), porque fazê-las, apenas, mais rápido, rápido, rápido, não chegará sempre para sufocar a outra equipa.