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Este é o João que vê aquilo que alguns jogadores não veem

Num jogo morno, como são demasiados jogos da Taça da Liga, o Benfica bateu o Paços de Ferreira na 2.ª jornada do Grupo A por 2-0 e ficou a um passo da final four da competição, num encontro em que João Félix fez a águia mais feliz

Lídia Paralta Gomes

Carlos Rodrigues/Getty

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Ali na ressaca da grave lesão de Krovinovic, em janeiro deste ano, Rui Vitória abriu as portas do laboratório da Luz e foi testando alternativas àquele que era então o mais influente dos jogadores benfiquistas. E semanas houve em que o nome de João Carvalho surgiu como the next big thing, o rapaz que ia salvar o nacional benfiquismo da falta que o croata fazia. A expectativa, essa, tinha sido alimentada pelo próprio Rui Vitória. “O João vê coisas onde os outros não vêem”, disse o técnico encarnado.

João Carvalho ainda é um jovem, tem 21 anos e mais que tempo para se impor, mas a verdade é que depois de algumas semanas de entusiasmo, o médio foi-se evaporando das escolhas de Rui Vitória e no final da temporada viu-se vendido ao Nottingham Forest do Championship inglês por genéricos 15 milhões de euros, valor-bitola de todos os jovens que saem de Portugal sem mostrar totalmente todas as suas potencialidades.

Com sorte (que é só jeito de dizer, porque não é sorte, é talento e capacidade de formar), o Benfica tem outro João capaz de sacar os elogios mais rasgados. E neste caso, todos os elogios têm ar de, daqui a um ano, não virem a parecer exagerados. Porque há de facto um João que vê aquilo que outros jogadores não vêem, mas chama-se Félix, o João que faz o Benfica mais feliz.

A Taça da Liga, já se sabe, não fomenta grandes paixões. As bancadas estão mais despidas, os jogadores mais adormecidos, é uma espécie de prima afastada de todas as competições ao ponto de o próprio Paços, absolutamente focado em subir de divisão, ter chegado à Luz com um onze alternativo, com mais mudanças até que o Benfica - Rui Vitória não abdicou de Ruben Dias, Jardel, André Almeida ou Gedson.

Assim que a história deste jogo da 2.ª jornada do Grupo A da Taça da Liga, que o Benfica venceu por 2-0, colocando-se assim a um ponto da final four, faz-se de talentos individuais, de exibições positivas.

Gualter Fatia/Getty

E aí quem alegrou mais a vista de um adepto de futebol nesta fresca noite de quarta-feira foi o miúdo João Félix. Ele seria o destaque só pela jogada do 2.º golo dos encarnados, mesmo antes do intervalo, numa altura em que o Paços até crescia. Só por aquele calcanhar que foi encontrar Zivkovic, num lance que seguiu para Seferovic e foi novamente parar aos pés de João Félix, como se os deuses do futebol estivessem a escrever direito por linhas tortas, dizendo a Félix: “tu é que mereces este golo”. E como com os deuses não se brinca, Félix viu a bola que vinha cortada da pequena área e encheu o pé, para um remate ao canto esquerdo da baliza de Carlos Henriques.

Mas a questão é que João Félix não fez só isso. Logo aos 8 minutos, viu um passe para Seferovic quando toda a gente poderia jurar que a melhor opção era colocar a bola em Zivkovic. Não era, Félix tinha razão, só que o suíço rematou ao lado.

Seferovic, que se redimiria logo de seguida, aos 12’, respondendo com golo a uma boa combinação entre Alfa e Zivkovic na ala direita, falharia na 2.ª parte mais uma bola com olhos que saiu dos pés de Félix, o único que mexeu com uns segundos 45 minutos em que ninguém parecia interessado em estar em campo. A certa altura, João era o único que tentava cortes, era o único que batia palmas a animar os colegas.

Aos 19 anos, recém-feitos, todos os jogos são os últimos jogos da vida. Este não era o mais importante de todos, mas Félix fez dele um bocadinho melhor.