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O Benfica foi Ivan Drago, mas o Santa Clara não foi Rocky, foi Apollo Creed

Um erro garrafal aos 22 minutos (que deu golo) e uma expulsão no final da 1.ª parte deitaram os açorianos ao ringue. O Benfica venceu em São Miguel por 2-0 e pelo que fez no arranque da 2.ª parte até podia ter ganho por mais. Está de regresso à vice-liderança do campeonato e na expectativa pelo que vai acontecer no clássico de sábado

Lídia Paralta Gomes

EDUARDO COSTA/LUSA

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Já se sabe que nisto do futebol português, qualquer equipa que não se chame Benfica, Sporting ou FC Porto é mais Rocky Balboa que Ivan Drago. E que, e acho que nisto não estou a incorrer no crime de spoiler, no final do filme quem ganha é o grande herói americano.

Mas para quem se perdeu na metáfora de João Henriques, na conferência de imprensa que deu entre cebolas e ananases no Mercado da Graça, em Ponta Delgada, isto explica-se mais ou menos assim. Tal como Ivan Drago, lá na gélida - de temperatura e de coração - União Soviética, o Benfica tem todas as condições, as melhores tecnologias, um plantel vasto, um centro de estágios de ponta.

Enquanto isso, o obreiro Santa Clara tem incontáveis ausências e ainda se viu impedido num dos dias da semana de treinar no seu estádio, invadido por um corta-mato escolar.

Não é bem, bem correr no meio da neve, cortar árvores ou alombar com troncos de madeira, mas vocês percebem a figura de estilo.

Acontece que enquanto Rocky IV é uma estória de força de vontade e de vingança contra o todo poderoso império vermelho, no futebol as coisas não funcionam bem assim. O Benfica foi Ivan Drago, de facto, mas este Santa Clara não conseguiu ser Rocky Balboa. Para mal de João Henriques, foi Apollo Creed, fatalmente caído no ringue, derrotado para a eternidade pelos punhos de aço do soviético.

E o Santa Clara foi Creed não só pela diferença de poderio, condições, etc., mas também por erros próprios. Como o erro duplo dos dois centrais que abriu alas para que o Benfica se colocasse à frente do marcador logo aos 22 minutos, num jogo que, até aí, poucas ou nenhumas oportunidades (ou motivos de interesse em geral) havia logrado - honrosa exceção para uma bela jogada pela esquerda entre Grimaldo e Zivkovic, que terminou num remate torto de João Félix.

EDUARDO COSTA/LUSA

Mas voltando ao minuto 22: André Almeida lançou lá quase desde a sua área para a cavalgada de Seferovic, um lance que pareceria controlado, não fosse Fábio Cardoso escorregar e César não estar preparado para limpar o erro do colega. A consequência não é difícil de adivinhar: o helvético seguiu sozinho para a baliza e à saída de Serginho rematou para golo.

O jogo seguiu, mais ou menos dividido, nem sempre bem jogado, até o KO do Santa Clara ficar praticamente escrito perto do intervalo, numa falta de Fábio Cardoso a Pizzi que começou por ser grande penalidade e amarelo para o central dos açorianos e, depois de uma visitinha ao VAR, acabou com João Capela a emendar para livre direto mas vermelho para o defesa.

O livre de Grimaldo não deu em nada, mas a jogar com 10 o Santa Clara, naturalmente, ressentiu-se.

E ressentiu-se principalmente no início da 2.ª parte, quando o Benfica lançou uma verdadeira blitzkrieg à baliza de Serginho, com efeitos práticos logo aos 48’, quando Jardel respondeu com um cabeceamento para golo a um canto de Pizzi. O massacre seguiu, mas faltou então eficácia. Aos 50’ o Benfica viu um golo anulado por fora de jogo de Seferovic, que não acertou com a baliza depois aos 53’ e 57’, sempre bem servido por Pizzi.

Pizzi que também teve a sua oportunidade para falhar, aos 59’ e a partir daí o Santa Clara tentou ainda voltar ao ringue, com mais bola, aproveitando a baixa física do Benfica que, por momentos, pareceu não ter o jogo completamente controlado.

Mas as feridas já eram demasiado profundas, os murros demasiado em cheio. Apesar de Pineda e Guilherme terem dado algum ar ao Santa Clara, o Benfica acabou de novo por cima, num jogo em que, principalmente no início da 2.ª parte, mostrou coisas que há pouco mais de duas semanas não conseguia mostrar.