Tribuna Expresso

Perfil

Benfica

Quando a definição do problema é a definição

O Benfica está nas meias-finais da Taça de Portugal, mesmo que só pareça ter estado em campo durante os primeiros 15 minutos do jogo. Foi aí que João Félix fez o único golo em Guimarães e a partir daí que o Vitória pegou na bola, criou jogo, deu cabo do meio-campo dos encarnados, mas sem nunca conseguir engatar o último passe, sem nunca tomar a derradeira boa decisão para criar perigo, sem nunca atirar a punch line necessária quando se quer ganhar

Lídia Paralta Gomes

OCTÁVIO PASSOS/LUSA

Partilhar

É uma daquelas palavras que irrompeu pelo léxico dos treinadores, quase com o mesmo atrevimento que “transição”, “sistema”, “variação” ou “profundidade”. Falo do “definição”. E por “definição” leia-se aquele último toque de um lance, a boa decisão que leva a que exista perigo, talvez um golo. “Definir bem” como quem diz colocar a bola no local para onde ela deve ir numa jogada de ataque.

E é bem possível que o segredo, a definição da ida do Benfica às meias-finais da Taça de Portugal se deva, precisamente, à definição. Ou à falta dela por parte de um V. Guimarães que só não foi superior nos primeiros 15 minutos de jogo, que é como quem diz, até ao momento em que Rúben Dias decidiu que era hora de queimar etapas e fazer um passe de rutura desde o meio-campo até ao pé de João Félix, que mesmo rodeado de adversários recebeu e lançou a bola em direção à baliza à saída de Miguel Silva.

Um golo made in Seixal, que premiava o que havia sido de facto uma entrada forte do Benfica no jogo, um Benfica pressionante, a jogar em linhas mais adiantadas, naquilo que já se vê que é trabalho de treinador. E se não trabalho - porque em duas semanas não se fazem milagres - pelo menos efeito de novo treinador.

Só que a seguir ao golo do miúdo Félix, a jogar no centro como sempre deve jogar, o Benfica perdeu a luta do meio-campo, deixou-se manietar pela pressão do Vitória e o que se seguiu foram 75 minutos de problemas de definição.

Problemas de definição quando, por exemplo, Davidson, cheio de linhas de passe, optou por rematar de longe e para longe da baliza do Benfica, aos 39'. Ou quando, logo a seguir, Rafa Soares recebeu uma abertura primorosa de Joseph Amoah e, com um ror de cabeças e pés vitorianos na área, cruzou direitinho para as mãos de Svilar. Ou quando, já na 2.ª parte, Davidson voltou a optar por um difícil remate em arco quando o que não faltavam eram camisolas brancas na sempre congestionada área do Benfica.

OCTAVIO PASSOS/EPA

Fora estes lances, digamos, mais flagrantes, o Vitória tentou pelas alas, tentou pelo jogo interior, jogou em 4x3x3, mudou depois para 4x4x2, criou espaços, linhas de passe, movimentações de ataque, mas faltou sempre a definição, o laçarote em cima da jogada, a punch line, a pièce de résistance. Ou seja, tudo aquilo que não faltou contra o Sporting de Keizer, caído no rinque de patinagem artística de Guimarães.

Às vezes, não ganha quem manda o maior número de piadas, mas sim quem manda a melhor piada. E João Félix tem muita graça.

O V. Guimarães é uma equipa diferente, porque joga como equipa grande, num ambiente de equipa grande, com um treinador que tem a grandeza de o assumir, mesmo quando as coisas não correm bem. Esta terça-feira à noite, talvez merecesse mais. E para este Benfica de Bruno Lage fica o aviso, enquanto espera pelo vencedor do Feirense-Sporting: aos meios-campos não se pede que desapareçam aos 15 minutos de jogo, mesmo que em 15 minutos de jogo tenham mostrado mais do que em muitos jogos completos na anterior era.