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Eu vi os Super Wings no Estádio da Luz

O Benfica bateu o Nacional por 10-0, um resultado impensável até para os padrões de um jogo de hóquei em patins. Porque o que se assistiu este domingo foi uma equipa a derrotar implacavelmente outra equipa, algo que só se vê, por exemplo, nos escalões de formação. Em jogos de crianças. O Benfica está agora a apenas um ponto do FC Porto

Pedro Candeias

PATRICIA DE MELO MOREIRA

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Um episódio dos Super Wings – um qualquer, não interessa qual, o guião é sempre o mesmo – começa da seguinte forma: Jimbo, controlador de tráfego aéreo, descobre que se perdeu uma prenda algures no planeta, há um rapaz naturalmente triste com o sumiço da encomenda, e Jett e os outros aviões falantes (ou helicópteros, avionetas ou hidroaviões, tudo o que voa tem lugar naquele aeroporto) são chamados para resolver o problema. Viajam para outro país, aprendem uma palavra nova, fazem feliz a criança e a moral da história é, segundo Bruno Lage, o trabalho de equipa é que é.

Convenientemente, como uma rápida verificação internética o comprovará, há 18 personagens na trama dos Super Wings, tantos quantos os jogadores numa qualquer convocatória de futebol; Jimbo, vá, pode ser Lage e nos dias que correm João Félix é Jett, ou seja, o aviãozinho principal. E, não menos conveniente para esta crónica, é claro que Félix marcou e assistiu no jogo deste domingo contra o Nacional (10-0), tal como Pizzi marcou mais do que uma vez e assistiu, e, como não poderia deixar de ser, Seferovic também marcou (dois) e assistiu. Os outros foram de Ferro, que se estreou na Liga com um golo, de Rúben Dias, do regressado Jonas, e de Grimaldo, que marcou logo aos 33 segundos, embora a literatura divirja neste ponto: terá sido aos 33, 34 ou 35? Não interessa, foi bastante rápido.

Ora, como é que Lage diz? Ah, sim, trabalho de equipa, força Super Wings, e por aí fora.

Esta goleada, robusta e histórica, é o resultado de uma exibição extraordinária do Benfica e de uma exibição miserável do Nacional; aos primeiros tudo correu anormalmente bem e aos segundos dificilmente poderia ter corrido pior.

A coisa começou logo a perceber-se desde o início, e não falo apenas do golo de Grimaldo, que nasceu após um passe vertical do influente Gabriel para Seferovic, que deu de calcanhar para o remate do espanhol. Não. O que aconteceu a seguir foi bem mais elucidativo: Seferovic somou dois falhanços antes de marcar aos 21’ e aos 27’ e durante esse período o Benfica foi absolutamente arrasador.

A equipa sempre subida, sempre pressionante, sempre em constantes triangulações à esquerda, com Grimaldo, Rafa e Gabriel a arruinarem quaisquer planos de contenção e, depois, de contingência do Ministro Costinha. O Nacional nunca conseguiu travar a marcha e o Benfica encontrou quase sempre o caminho para a baliza de Daniel Guimarães. Por dentro (como no primeiro golo de Seferovic, a passe de João Félix) ou por fora (no segundo golo do suíço, após cruzamento de André Almeida), com variações de flanco que confirmam a pinta de futebolista de Gabriel, a fazer lembrar aqueles médios dos anos 90 com as meias descaídas nas canelas. E também com as trocas posicionais entre Pizzi e Félix, cada vez mais frequentes e rotinadas, que normalmente deixam o puto maravilha colado à linha, solto para cruzar.

Os únicos momentos de (muito) relativo perigo do Nacional foram o cabeceamento frágil de Júlio César e o remate atabalhoado de Witi, mesmo antes dos 45’. O intervalo chegou, o marcador estava nos 3-0, mas ninguém achava que isto ia ficar por aqui.

Não ficou.

Logo aos cinco minutos da segunda-parte, Pizzi bateu um livre ao qual ninguém acorreu a não ser João Félix, especialista em fazer-se de esquecido ao segundo poste. 4-0. Depois, 5-0, num penálti batido por Pizzi por falta sofrida pelo próprio. Depois, 6-0, num canto de Pizzi que encontrou a cabeça de Ferro. Depois, 7-0, por Rúben Dias, a seguir a um livre de Pizzi. Depois, 8-0, por Jonas, que chutou de livre num lance em que a bola bateu num adversário. Depois, 9-0, por Rafa, após assistência de Pizzi, quando os jogadores do Nacional já se ameaçavam, prometendo conversas menos simpáticas no balneário uns aos outros. E, para acabar, o 10-0, um resultado raro até para os padrões de um jogo de hóquei em patins, por Jonas, quando a desconcentração, a descoordenação e as lágrimas de frustração eram tantas que qualquer posse de bola do Benfica se transformava imediatamente numa jogada de muito perigo.

Pelo meio, entraram Florentino (outra estreia e algumas recuperações de bola), Krovinovic (para somar minutos) e Jonas (para recuperar o ritmo e o gostinho pelos golos), já com Lage com a cabeça no jogo de quinta-feira, na Turquia, para a Liga Europa, e a de Costinha certamente cheia de dúvidas e angústias. Porque o que se assistiu este domingo foi uma equipa a derrotar implacavelmente outra equipa, algo que só se vê, por exemplo, nos escalões de formação. Em jogos de crianças.