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Só que não basta olhar para um fenómeno, é preciso compreendê-lo: este é Bruno Lage

É a grande figura de um Benfica de “chama imensa”, de volta à luta pelo título. Em poucas semanas, passou sucessivamente de nome na sombra de Rui Vitória – talvez por culpa do clarão anedótico visto por Luís Filipe Vieira durante a noite de reflexão no Seixal – a interino, primeiro, depois a “técnico principal até final da temporada” e agora, com a renovação, a treinador com a cláusula mais alta da história dos encarnados. Só que não basta olhar para um fenómeno, é preciso compreendê-lo: é o que Luís Mateus tenta fazer, com a ajuda de quem conhece Lage desde os primeiros pontapés numa bola

Luís Mateus

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“Participávamos num torneio internacional em Madrid. Como já estava há muitos anos no Benfica, eu tinha sempre muitos equipamentos, que nestas alturas levava para trocar com jogadores de outras equipas. Tento ficar com uma camisola do Real Madrid, mas não consigo. Então, o Raphael Guzzo vem ter comigo e diz-me para não me preocupar, que o Nélson recebeu uma do Barcelona e não se importa que fique para mim, dá-ma em Lisboa. Nos dias seguintes, o Bruno Lage vem ter comigo e pergunta: ‘Já viste a camisola?’. Respondo-lhe que não e mais tarde volta a perguntar o mesmo. Claro que quando chegámos não há camisola nenhuma, é tudo tanga, e o Bruno tinha feito parte da brincadeira’.

João Nunes conhece o atual treinador do Benfica há 20 anos, tinha o central, hoje convertido no melhor lateral direito da liga polaca, “apenas 5 ou 6”. Aprende na escola de Quinito, que compete com o nome 1º de Maio da Varzinha. Daí ao Benfica, onde Lage passa a treinar pouco depois, é um instante, porque “na altura era fisicamente mais desenvolvido e podia defrontar jogadores mais velhos”. Lage leva-o para as escolas de competição dos encarnados e cruzam-se em vários momentos da carreira de ambos. Esperem, há aqui outra história que o futebolista quer contar.

“No mesmo torneio surge um dia de folga. Apanhamos o metro. Puerta del Sol, centro, Plaza Central. Ali, no meio, está uma loja provisória da Nike, que tem um campo de três-para-três e um barbeiro. O Bruno quer fazer uma aposta com o [Gonçalo] Guedes: ele corta o cabelo como o Cristiano Ronaldo se ele fizer o corte do Balotelli. Ao início, o Guedes recusa, mas depois acaba por aceitar, embora mudando as regras: faz apenas a meio da cabeça, provavelmente a pensar que depois conseguiria disfarçar com o cabelo restante. Claro que ao fazer-se o penteado do Ronaldo a diferença não é muita, enquanto o do Balotelli já não é bem assim. É uma festa na barbearia, no hotel. No metro, todos olham para o Guedes, o Bruno senta-se ao seu lado, encolhe os ombros e diz ‘miúdos!’. O Guedes não tem outro remédio que não rapar a máquina zero.”

Nunes conta-nos estas histórias para que percebamos a forma como Lage interage no balneário, como mantém o equilíbrio. “Trabalhei com o Bruno em várias ocasiões, foi meu treinador nas escolas e nos juvenis do Benfica e posso dizer que o conheço bastante bem. Claro que não se pode comparar o relacionamento com miúdos de 5, 6 anos, mas nos juvenis já era muito a sério. Foi sempre muito organizado e sabia manter um relacionamento saudável no balneário. Toda a gente sabia quando era para brincar ou para trabalhar - e quando era para trabalhar era muito a sério. Os treinos eram sempre levados ao mais ínfimo pormenor. Cada jogo era preparado com um cuidado extremo.”

A obsessão pelo detalhe

Se Bruno Lage era obcecado pelo jogo seguinte, quer tal dizer que o adversário se sobrepõe ao processo? João Nunes assegura que não, é precisamente o contrário: “Sempre teve a sua filosofia, ideia de jogo. O adversário, as dificuldades que pode criar ou as fragilidades que tem e podem ser exploradas, eram sempre enquadradas dentro do modelo. Não mudava, ajustava”.

Uma imagem que liga um pouco com a forma como o técnico preparou a visita ao Desportivo das Aves, com um quadrado desenhado pelo paralelismo de Pizzi e Rafa, mais à frente, em relação ao duplo-pivot formado por Samaris e Gabriel. Já tinha anunciado na conferência de antevisão da véspera e cumpriu: sente ser preciso apresentar sempre nuances diferentes para impedir que os adversários se adaptem e também para explorar fraquezas rivais.

Lage gosta de estar preparado para tudo. Os exercícios do treino são extremamente variados e procuram colocar problemas que possam surgir durante as partidas. “Gosta de trabalhar e não quer, de maneira nenhuma, ser apanhado desprevenido. Chegávamos a treinar situações em que uma das equipas jogava com menos um, para que pudéssemos saber o que fazer se ficássemos com um jogador expulso ou lesionado e não houvesse já hipótese de substituição”, recorda, para sublinhar a qualidade das sessões orientadas pelo treinador: “Tinha exercícios muito diversificados, era um nível bastante elevado. Muitas vezes as pessoas do lado de fora não têm noção da forma em que se enquadra um determinado exercício, mas todos diziam respeito a vários momentos do jogo”.

O trabalho nas transições

Enquanto os adeptos destacam, em qualquer vox pop que se preze, uma atitude diferente dos jogadores em campo com o novo treinador, o que realmente se verifica é um aumento da intensidade, sobretudo no processo defensivo e especificamente na reação à perda. Um problema identificado durante praticamente toda a passagem de Rui Vitória pela Luz e nunca resolvido.
“O Bruno está sempre muito atento aos dois processos, seja o ofensivo ou o defensivo. Preocupa-se especialmente com as transições, seja defesa-ataque, com a capacidade de gerar contra-ataques e apanhar o adversário desprevenido, ou a defensiva. Gosta de ter preparado cada momento do jogo”, assegura João Nunes.

Se o treinador do Benfica é alguém preocupado com o detalhe, afasta-se do perfil do antecessor, que permitia mais liberdade aos jogadores. Será assim? “Dá liberdade, mas dentro do modelo de jogo. Com o Sporting, por exemplo, soube bloquear os pontos fortes do adversário, que eram a posse e o jogo entrelinhas. Isso faz-se com estratégia, embora depois os jogadores se sintam livres o suficiente para colocarem em campo a sua criatividade”, explica o defesa.

Todos preparados para a oportunidade

Ferro, Florentino, Yuri Ribeiro, Gedson, João Félix e Rúben Dias, todos made in Seixal, fizeram parte do 11 do Benfica em Istambul, uma decisão de risco de Bruno Lage, que não só mostrou manter a porta aberta para os mais jovens como lhe permitiu fazer a gestão física de alguns elementos mais desgastados. O triunfo por 2-1 sustenta a ideia de que há muito boa gente pronta para enfrentar desafios maiores e que o técnico também a tem sabido preparar psicologicamente.

“Na formação não há, obviamente, o nível de competição que há numa equipa A. No entanto, já na altura havia uma preocupação por parte do Bruno em ter-nos prontos para podermos entrar no lugar de um colega. Tocou-me a mim, por exemplo. Na equipa da geração de 94 estava com os mais velhos e era natural que jogasse menos. Havia o João Cancelo, o Fábio Cardoso. Mas o Pedro Torrado lesionou-se e tive a minha oportunidade. Houve sempre a preocupação do treinador de que todos os jogadores estivessem preparados. Isso nota-se também hoje em dia.”
A aposta vai manter-se, não há dúvidas. “O futebol português tem de continuar a direcionar-se nesse sentido”, assegura João Nunes, que lembra que “a situação financeira dos grandes obriga a vendas recorrentes de jovens”.

O gosto de discutir futebol, presente e futuro

Bruno Lage tem dado cartas também no contacto com a imprensa, mostrando-se disponível para discutir o jogo e um pouco as suas ideias. O defesa acredita que isso vem do gosto que tem pelo futebol no estado mais puro. “Na formação não há esse contacto frequente com a imprensa, mas sempre que existia uma conversa no balneário gostava de discutir o futebol pelo futebol, o futebol em si. Um pouco na linha do Luís Castro e do Renato Paiva. O Bruno é assim. Quando o assunto é futebol, é o jogo que o motiva. Não há motivo para não falar de táticas, de dinâmicas, não há que esconder alguma coisa. E não falava só de futebol connosco - falava da vida, preparava o lado humano. Não é fácil para os miúdos terem esse contexto.”

O atual lateral-direito do Lechia Gdansk sempre acreditou que o salto do técnico “seria uma questão de tempo”. O facto de Bruno Lage ter começado este ano na equipa B foi “um passo importante”, permitiu-lhe ajudar jovens, prepará-los para o salto, e desde que subiu à equipa principal “tem estado à altura”.

A pergunta não é fácil, mas quem o acompanhou vários anos deve ter a noção do que Lage ainda precisa de resolver para ser ainda melhor treinador. João Nunes não vê defeitos no antigo técnico: “Sinceramente, não vejo. Obviamente, todos evoluem com a experiência. Ficamos todos com melhor leitura de jogo e preparamos os encontros também melhor quantos mais jogos jogarmos ou orientarmos. Há esse processo e, tal como um jogador, também um treinador aprenderá a ler cada vez melhor um encontro”.

A preocupação constante com o equilíbrio da equipa, numa mistura perfeita entre estratégia e liberdade criativa. A riqueza do treino, com atenção ao detalhe e a mil situações que podem ocorrer durante o jogo. O trabalho exigente e a aposta nas transições e na reação à perda. O gosto de estar no meio de um balneário e de fazer parte do mesmo. De falar com os jogadores, sem perder a liderança e até o papel de formador. O contar com todos, premiando o trabalho, que lhe garante uma imagem salomónica que só pode manter o grupo unido. A confiança no processo. O prazer do jogo e de discuti-lo. Este é Bruno Lage, o treinador que revolucionou o Benfica e convence todos à sua volta. Um fenómeno de afirmação, apenas atrasado por uma luz e alguma falta de estratégia por parte da SAD encarnada.