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Diretor comercial do Benfica diz que ninguém sabe se prejuízo de divulgação de 'emails' foi de €20 ou €200 milhões 

Miguel Bento, diretor de 'marketing' do clube da Luz, garantiu no arranque do julgamento do caso dos 'e-mails' divulgados pelo Porto Canal que, em rigor, ninguém na sala de audiência poderá estimar o valor dos danos causados ao Benfica. SAD pede €17,8 milhões de indemnização

Isabel Paulo

Anadolu Agency

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O diretor comercial, de 'marketing' e 'merchandising' do Benfica assegurou, esta quinta-feira, no Tribunal Central Cível do Porto, que só uma “comissão de técnicos específica” poderá estimar as perdas causadas pela divulgação de centenas de 'e-mails' pelo Porto Canal ao longo de quase um ano. “É na ordem dos milhões ou dezenas de milhares?”, questionou o juiz-presidente Paulo Duarte Teixeira, respondendo Miguel Bento que são certamente milhões de euros de prejuízo.

O responsável comercial avançou que ninguém na sala de audiências do tribunal poderá avaliar os “ativos tangíveis e intangíveis” de uma marca centenária como a do Benfica, defendendo que 50% da população do país tem laços afetivos com os encarnados, enquanto “além fronteiras 50 milhões de pessoas que gostam de futebol têm interesse pelo Benfica”.

Pela sua formação, iniciada num empresa de distribuição, Miguel Bento recusou-se, contudo, a avançar se os danos da difusão de 'e-mails' que beliscaram a credibilidade dos dirigentes e a imagem do clube ascendeu a €20 ou a €200 milhões, embora assegure que a instituição Benfica tenha deixado de fazer negócios por causa do “bruá dos conteúdos dos 'e-mails'”. Em concreto, referiu que o clube perdeu um contrato de €1,5 milhões de uma empresa da área dos serviços, que não divulgou por uma questão de sigilo, além de não ter renegociado a venda de camarotes-empresa no valor de €750 mil euros por ano.

Além de um investimento de €40 mil em cibersegurança após a devassa do sistema informático do clube, o diretor comercial referiu ainda que o concorrente FC Porto ficou na posse de informação “da transformação digital do Benfica” pela qual o clube pagou a uma consultora €3 milhões, mais €1,5 milhões em 'software'. Mas, para Miguel Bento, os mais pesados prejuízos são aqueles que decorrem do atraso na evolução da expansão da marca Benfica para novos mercados, cuja internacionalização está a ser trabalhada há três anos na China e há um ano nos EUA.

Questionado sobre o valor da marca Benfica, avançou que, segundo um estudo independente da KPMG relativo a 2017, era de €340 milhões, mas “há quem diga que é muito mais”. Depois de um crescimento de 16% no ano do tetra, Miguel Bento referiu que houve um decréscimo do impacto da marca da ordem dos 3% “relacionado com o processo dos 'e-mails'”.

O juiz-titular do processo questionou, todavia, se a quebra de crescimento não estaria relacionada com o facto de a equipa não ter conquistado o título em 2017/18, ano em que os resultados líquidos caíram para €20,6 milhões, quando no exercício anterior foram de €44 milhões. A equipa de advogados de defesa do FC Porto, liderada por Jorge Cernadas, questionou ainda a testemunha sobre se a quebra de receitas não estaria relacionada com as várias buscas às instalações do Benfica decorrentes do caso 'e-toupeira' e às suspeita de fraude fiscal, corrupção desportiva e de um técnico judicial. O responsável comercial desvalorizou, contudo, a eventual mossa deste processo na credibilidade do Benfica, alegando que o clube não foi constituído arguido.

No primeiro dia do julgamento da ação em que o Benfica reclama €17,8 milhões de indemnização à FCP Média, a empresa detentora da estação do FC Porto, em que são ainda réus Pinto da Costa, o diretor de comunicação do clube Francisco J. Marques e os administradores da SAD Fernando Gomes e Adelino Caldeira, foram ainda ouvidos Renato Paiva, treinador da equipa B do Benfica, Luís Bernardo, diretor de comunicação do clube da Luz, e Joaquim Gomes, presidente da Dunas Capital - Sociedade de Gestão Activos.

Benfica vale €800 milhões? “Parece ficção científica”, comenta juiz

Luís Bernardo declarou que a estratégia montada pelo FC Porto visou degastar o Benfica de forma programada, ao tentar associar o clube “a um polvo como o Apito Dourado”, preconizando que a estratégia foi delineada pela estrutura dirigente dos dragões e executada pelo seu diretor de comunicação, Francisco J.Marques.

O técnico da equipa B avançou, por seu turno, que a divulgação dos 'e-mails' configurou um cenário “de concorrência desleal”, ao ser passada à concorrência, em particular ao FC Porto, informação sobre a Academia do Seixal, fichas técnicas e físicas individuais de jogadores, como João Félix, com um potencial de mercado de €25 milhões, planos de treino ou estratégias de jogo. Renato Paiva afirmou que toda esta circulação de informação fragilizou o balneário, embora não tenha acabado por confessar que a questão dos 'e-mails' não fosse tema de conversa entre os mais jovens e que nessa época, em que treinava os sub-17, a equipa sagrou-se campeã nacional.

Já o gestor da Dunas Capital adiantou que o valor de mercado do Benfica rondará os €800 milhões, um valor que o juiz-presidente Paulo Duarte Teixeira considerou que “parece ficção científica”, questionando se o “Benfica não tem capitais próprios negativos”.

A defesa do Benfica tentou desanexar do processo os 20 mega-bytes de informação vertida nos 'e-mails', tendo o titular do processo lembrado que foi o clube quem os pediu ao FC Porto e que retirá-los agora violaria o princípio do contraditório. O advogado dos encarnados tentou ainda que o depoimento do diretor comercial do Benfica fosse feito à porta fechada em nome da confidencialidade dos negócios do clube, pedido que foi recusado pelo juiz-titular por, além de violar a Constituição, não fazer sentido alegar agora sigilo depois de terem sido difundidos em 'sites' e plataformas digitais 20 mega-bytes de conteúdos reservados.

O julgamento prossegue esta sexta-feira