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Um problema de visão periférica

Foram dois erros, dois fracos golpes de vista que roubaram dois pontos a um Benfica que partiu muita pedra para conseguir marcar ao Belenenses, para depois deitar tudo a perder de forma quase bizarra. O 2-2 na Luz significa que a equipa de Bruno Lage deixa de estar sozinha na frente da tabela. Agora, ali ao lado, no ângulo morto, está o FC Porto, com os mesmos pontos

Lídia Paralta Gomes

PATRICIA DE MELO MOREIRA/Getty

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Há pontos que se perdem com inteira justiça, outros se perdem quando não se merecia. E depois também há os que se perdem de forma bizarra e esta segunda-feira o Benfica perdeu dois pontos de maneira um tanto quanto esotérica, com dois erros individuais que vão muito provavelmente tirar o sono a Vlachodimos e Rúben Dias.

Dois erros que deram dois golos a um Belenenses SAD desprovido de cruz de cristo, numa altura em que o Benfica parecia ter o jogo controlado, após 55 minutos a picar pedra na hiper-povoada área do adversário e dois golos que surgiram depois de muito por ali garimpar.

E eram dois golos que pareciam mais ou menos definitivos, não fosse a visão periférica do Benfica estar um tanto quanto embaciada.

Falhou o golpe de vista de Vlachodimos aos 68’, após um livre tenso de Diogo Viana ao qual o grego respondeu de mãos levantadas, como quem diz “esta vai fora”. Não foi, entrou rente ao poste direito e Vlachodimos voltou a levantar as mãos, mas para pedir desculpas.

E não mais que dois minutos depois falharam as contas de Rúben Dias, que ao atrasar para Vlachodimos permitiu uma ultrapassagem pela direita de Kikas, que só precisou de rematar fora do alcance do internacional helénico para fazer um empate inesperado, pela forma como foi entregue pelo Benfica que assim, em qualquer coisa como 120 segundos, deu cabo de uma vantagem que tanto esforço tinha dado a construir.

PATRICIA DE MELO MOREIRA/Getty

Porque o Belenenses SAD vinha de novo escudo na camisola, mas com a qualidade de sempre. A equipa de Silas, que está farta de roubar pontos aos primeiros esta época, joga bem: os seus jogadores sabem sair a jogar, sabem posicionar-se, sabem começar, construir e acabar uma jogada. Sabem também guardar a bola. E tentaram tudo isso nos momentos em que a pressão do Benfica falhava. E quando não dava, defenderam bem, com precisão cirúrgica, com Gonçalo Silva, Sasso e Eduardo sempre preparados para limpar aquele último passe que sempre faltou aos encarnados na 1.ª parte - em que também, diga-se, houve pouco Pizzi, ou melhor, Pizzi insuficiente, a perder bolas imperdíveis, a passar mal bolas que tinham todas as condições para serem bem passadas. E sem o seu pensador, como se viu em Zagreb, o Benfica não passa tão bem.

A 2.ª parte voltou a trazer um Benfica a jogar batalha naval no tabuleiro do adversário, mas foi apenas aos 55 minutos que o Belenenses deu meio espaço a Jonas. E com meio espaço, Jonas é capaz de construir um arranha-céus: o brasileiro recebeu o cruzamento de André Almeida com o peito e depois, naquele espacinho de nada, rematou para a baliza de Muriel.

PATRICIA DE MELO MOREIRA/Getty

Menos de 10 minutos depois, Samaris rematou à entrada da área após um canto, com a bola a bater em Nuno Coelho e talvez em André Almeida antes de enganar o mais velho dos irmãos Becker.

Ficou então 2-0, o Benfica jogava bem e o Belenenses SAD estava meio desaparecido.

Ninguém esperava então essa improbabilidade que são dois jogadores fazerem dois erros crassos de avaliação e que esses dois erros dessem dois golos. Mas deram e a partir daí, dos 70 minutos, o Benfica não conseguiu responder com objetividade. Teve bola, sim, mas raramente criou perigo, exceção para um remate de cabeça de Jonas aos 81’. O Belenenses voltou a ser organizado e certinho porque depois de sofrer aqueles dois e marcar aqueles dois, ninguém lhe ia tirar aquele ponto.

Depois da derrota em Zagreb, o Benfica voltou a tropeçar, agora num jogo importante, contra uma equipa difícil. E tudo de forma muito bizarra, com dois erros estranhos. É claro que nisto dos tropeções não há erros bonitos ou feios, há erros, e os problemas de visão periférica do Benfica fazem com que a equipa de Bruno Lage volte a não poder olhar em frente. Porque agora, ali ao lado, no ângulo morto, está o FC Porto, com os mesmos pontos na tabela.