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Em 1962, Eusébio fez um hat-trick histórico que Félix revisitou: este é o Benfica - Norrköping de uma feliz noite de novembro

Toda a gente está a falar do recorde de juventude de Eusébio que Félix bateu esta quinta-feira. Mas qual foi, realmente, o jogo em que o Pantera Negra fez o que ninguém antes fizera? Esta é uma viagem ao passado

Hugo Tavares da Silva

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As lágrimas de João Félix, poucos segundos depois do hat-trick ao Eintracht Frankfurt (crónica AQUI, contracrónica AQUI), limparam o pó de arquivos esquecidos: o miúdo-maravilha da Luz acabava de bater um recorde de Eusébio, a lenda maior do clube, e era agora o futebolista mais jovem a marcar três golos na Europa pelo Benfica. Com 19 anos e 153 dias.

Esse título pertenceu ao pantera negra desde 22 de novembro de 1962, quando os rapazes orientados pelo chileno Fernando Riera arrumaram o Norrköping por 5-1, no Estádio da Luz (primeira mão: 1-1).

“Bastou cerca de um terço dos 90 minutos regulamentares para confirmar, em definitivo, o incondicional favoritismo” do Benfica, escreveu no dia seguinte Fernando Soromenho no “Diário de Lisboa”.

Diário de Lisboa

Diário de Lisboa

Se esta quinta-feira, na Luz, Luka Jovic assustou a multidão logo no arranque do jogo, há quase 57 anos José Águas a afastou as reticências muito cedo. É que os encarnados ressacavam de uma derrota caseira contra o FC Porto (1-2). O que mudou, segundo Riera? “A bola entrou. Desta vez não estava o Américo nas balizas.”

Viajemos na pena de Soromenho: “O «team» português começou em grande estilo com aquele impulso entusiástico que não deixa ninguém na dúvida. Foi para o ataque… Assim, dentro do primeiro minuto, estava feito o 1.º golo e vislumbrada, na circunstância, a sorte dos suecos. No «corner», que foi a solução para anular a infiltração de Simões, a bola levava a medida ideal e Águas, com a cabeça, limitou-se a dizer sim”.

O Benfica era bicampeão europeu, depois de derrotar o Barcelona (3-2), em 61, e o Real Madrid (5-3), em maio de 62. Talvez por isso, ou então porque era a sua natureza (ou uma mistura de ambos), os campeões suecos investiram numa abordagem pouco meiga. “Apercebendo-se das intenções dos portugueses, os suecos, que marcavam, perseguindo, entrando ao desarme com rudeza, mesmo violência, trataram de tirar partido das constantes interrupções ditadas pelo critério do árbitro, extremamente meticuloso”, notava o cronista.

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O Benfica respondeu com bolas que fizeram dançar as redes da baliza de Bengt Nyholm. “Eusébio vingou-se do ‘mimo’ do defesa-direito, transformando o «livre» com um «tiro» digno da sua lavra. E Coluna, num golpe individual, a assinalar a sua subida de rendimento na emergência, «incendiou» o Estádio da Luz de alegria, culminando com um remate «à Benfica da Europa».

Esse “remate à Benfica da Europa” trouxe boas lembranças a Coluna. “Fiquei satisfeito [com o golo], tanto mais que há já bastantes jogos que não marcava tentos. Este fez-me lembrar o de Berna, pois foi quase do mesmo sítio.” Em Berna, na final da Taça dos Campeões Europeus, os lisboetas enganaram o Barcelona de Luis Suárez e Kubala. Coluna marcou o golo decisivo aos 55'.

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A goleada ganhou forma pouco depois. “O 4-0, aos 35’, cúpula que definia uma inegável superioridade, liquidando o jogo, provocou, porém, efeitos antagónicos: no Benfica agiu como um sedativo, que amoleceu energias, disposição e, principalmente, talento futebolístico.”

José Águas, outro dos heróis de Berna, reconheceria a postura no final. “A equipa fez uma boa exibição na primeira parte; na segunda descansou e os suecos subiram.”

Apesar dos muitos golos e massacre, o cronista torcia o nariz a algumas exibições, numa discussão que é muito dos nossos dias, sobre paciência excessiva e, quem sabe, falta de verticalidade. “(...) Todavia, o defeito de complicar os enlaces - Coluna e, agora, Cavém não dispõem de aptidão suficiente para a tarefa na região intermediária do rectângulo - avultou na medida em que se tornava indispensável uma penada, apenas, e não longos devaneios, na possessão de bola, e que afecta o estilo acutilante de Eusébio, compelido a ser um elemento ambulatório, a viajar para a esquerda, a viajar para a direita, e a recuar. Parece o Coluna dos tempos áureos (...)”

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Conclusão: “Fácil triunfo, sem a mínima sombra, mas exibição desigual, notoriamente diferenciada, por compreensível processo psicológico, mas que não ofuscou problemas latentes no «onze», tanto de ordem atlética como eficiência técnica. Um abrandamento momentâneo dentro do actual Benfica faz avultar, para além da descrença, uma sensação de dificuldade que, note-se, nenhuma equipa, em qualquer parte, pode evitar durante as ocorrências de um despique. Daí, a insatisfação exterior, que brota como a labareda em braseiro latente, e a complicação, que não desorientação, inoculada dentro do rectângulo”

Eusébio, com apenas 20 anos e 301 dias, foi a grande figura com um hat-trick. Até o árbitro Jean Tricot, que também teve direito a uma caixa no “Diário de Lisboa”, estava encantado: “Para mim o jogo foi muito bom e agradou-me imenso a correcção de todos os jogadores. Isso é que conta para o árbitro. O momento alto do jogo foi o golo de «livre» marcado por Eusébio. Formidável!”

O Benfica chegaria à terceira final consecutiva da Taça dos Campeões Europeus, em Wembley, mas desta vez perderia com o AC Milan de Gianni Rivera, José Altafini, Cesare Maldini e Giovanni Trapattoni. O golo de Eusebio foi insuficiente.

Fonte: (1962), "Diário de Lisboa", nº 14349, Ano 42, Sexta, 23 de Novembro de 1962, CasaComum.org, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_15981 (2019-4-12)