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Benfica

A Arca de Lage

O Benfica marcou antes do dilúvio, sobreviveu à bátega e resolveu já depois da chuva amainar. No final, 6-0 no marcador, numa 2.ª parte demolidora da equipa de Bruno Lage, e o regresso à liderança do campeonato, perante um Marítimo que se afogou no caudal ofensivo dos encarnados

Lídia Paralta Gomes

PATRICIA DE MELO MOREIRA/Getty

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Os telemóveis espertos, sabemos nós, só não fazem tostas mistas. De resto, até nos dão, por exemplo, a probabilidade de a dada hora haver precipitação. À hora do Benfica - Marítimo, o meu telemóvel esperto falava-me de perspectivas de “chuva fraca” para Lisboa. Mas chuva fraca foi coisa que não se viu na capital. Às tantas, ali pelas 20h30, mais minuto, menos minuto, era dilúvio mesmo, carregado, bíblico. Não durou 40 dias e 40 noites, mas lá agradável não foi.

Não sei se Bruno Lage tem um telemóvel esperto mais esperto que o meu, mas o certo é que o treinador do Benfica parece ter previsto qualquer coisa. Preparou a arca com espécimes vários, uns mais jovens, outros mais experientes, e ainda antes do céu desabar em cima das cabeças de todos nós, já o Benfica tinha meio trabalho feito frente ao Marítimo.

Foi uma daquelas jogadas estudadas, um canto que Pizzi lançou para a entrada da área. Sítio onde apareceu João Félix, ele e o seu peito do pé que às vezes parece uma mira telescópica. O remate saiu seco, forte, colocado. E aos 3 minutos já o Benfica vencia, antes sequer do Marítimo fazer qualquer declaração de intenções.

Todos os golos são importantes, mas este golo de João Félix poderá ter sido um pouquinho mais importante que os outros, apesar de ter sido apenas um em seis, os seis com que o Benfica terminou o jogo. Porque logo a seguir ao 1-0 começou o dilúvio e aguentar um dilúvio com um golo no regaço é melhor do que sem nenhum. E o certo é que foi durante os longos minutos em que a chuva caiu sem parar, e apenas durante esses minutos, que a Arca de Lage abanou um pouquinho mais. O Marítimo experimentou então alguns contra-ataques bem urdidos, Barrera quase marcava num remate forte num ataque rápido, há um golo anulado aos madeirenses, o Benfica perdeu alguma objetividade. Mas quando o sol (metaforicamente, claro) voltou a brilhar, a Arca estava de pé.

MANUEL DE ALMEIDA/EPA

De tal forma que, na 2.ª parte, a Arca de Lage tornou-se numa espécie de Bulldozer de Lage. Já com apenas chuviscos a cair do céu, o Benfica arrasou nos últimos 45 minutos. Começou aos 49’, com um remate de Pizzi após abertura de André Almeida que ainda bateu num jogador do Marítimo. Continuou aos 65’, com João Félix a responder com classe a um cruzamento de André Almeida.

João Félix que, salomónico, não se limitou a marcar, também ofereceu e aos 71’ fez a assistência para o 4-0, de Cervi, que faria também o 5-0 num remate cruzado de pé esquerdo. O 6-0 sairia da cabeça de Salvio, após cruzamento de Grimaldo.

Tudo isto perante a total passividade do Marítimo, que não existiu na 2.ª parte. Talvez seja isto que acontece às equipas que forçam amarelos para poupar jogadores: ainda nem se entrou e já se está derrotado. E tudo isto pintalgado com uma série de falhanços de Seferovic, com o suíço involuntariamente a evitar que números como o 10-0 ao Nacional se aproximassem ou repetissem.

Não foram duas mãos cheias de golos, mas foi meia-dúzia e depois de uma 1.ª parte tão molhada quanto média, o Benfica ligou o turbo, fez esquecer a eliminação da Liga Europa e está de volta à liderança do campeonato, uma semana antes de ir a Braga. Com dilúvio ou sem ele.