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37, a temperatura média do corpo humano

Nisto do futebol é difícil ser-se paquiderme, manter o sangue estável, a pele dura. E no jogo do campeonato, o Benfica entrou nervoso, como que a sentir o peso do momento. Mas não durou muito, porque o Benfica de Lage também sempre foi uma equipa capaz de resolver problemas e capaz de manter a temperatura corporal a níveis normais: Seferovic marcou aos 16', os encarnados marcariam mais três vezes, o Santa Clara apenas uma e no final o Benfica festejou o título 37

Lídia Paralta Gomes

PATRICIA DE MELO MOREIRA/Getty

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Agarrar uma equipa em janeiro, estar a sete pontos, chegar a primeiro. Tudo isto parece mais complicado do que vestir o equipamento, beber o último gole de água e avançar para o campo, para o último jogo do campeonato, aquele que falta para se ser campeão depois de se agarrar uma equipa em janeiro, estar a sete pontos, chegar a primeiro.

Parece, mas às vezes não é. Nisto do futebol, é difícil ser-se paquiderme, manter o sangue estável, a pele dura. Aqueles primeiros minutos do Benfica, este sábado frente ao Santa Clara, foram nervosos, intranquilos, inconstantes. O 37 ali tão perto, o 37 que é a temperatura média do corpo humano, mas que nestas alturas parece andar para cima e para baixo incontrolavelmente.

O Benfica entrou assim, emperrado. Emperrado para o jogo que lhe podia valer o campeonato. Com dificuldade a sair a jogar, com dificuldade a pressionar, com o Santa Clara dono da bola, a mesma que queimava nos pés dos jogadores do Benfica, não é isso que se costuma dizer?

Porque nisto do futebol, é difícil ser-se paquiderme. É difícil manter a temperatura corporal aos normais 37 graus, ainda mais quando há um 37.º campeonato para ganhar.

Mas o Benfica de Lage, o tal que chegou a estar a sete pontos, não foi só uma equipa de bom futebol, também foi uma equipa que soube resolver problemas, que soube ser utilitária e eficaz nos dias em que a inspiração não apareceu, que teve aquele jogador que naquele dia desbloqueou o que parecia complicado.

Talvez aquele passe de Samaris aos 16 minutos, diretamente para Seferovic, que recebeu no meio da defesa do Santa Clara e rematou à meia-volta para a baliza, talvez tenha sido esse passe a desbloquear o que parecia ali, no meio daquela intranquilidade, complicado, ainda que o Benfica só tenha estabilizado com o sangue a 37 graus sete minutos depois, quando Rafa entrou na área e, num ressalto, a bola tenha ido parar aos pés mágicos de João Félix, que sentou César com o pé esquerdo e rematou com o pé direito para o 2-0.

PATRICIA DE MELO MOREIRA/Getty

E a partir daí o Benfica ficou livre, tranquilo, à espera apenas que os minutos passassem para festejar o 37, o tal da reconquista que às tantas ali pelo início do inverno até arrancava sorrisos jocosos de quem julgava os encarnados perdidos para este campeonato - e de facto estiveram, até deixarem de estar.

O resto do encontro conta-se com a imensa eficácia do Benfica, que ainda na 1.ª parte fez mais um golo, o terceiro golo em quatro remates, desta vez por Rafa, que aos 39’ e ao seu jogo 100 pelos encarnados, aproveitou uma bola que ficou perdida na área depois de um remate de cabeça mal calculado de Seferovic para fazer a emenda.

Na 2.ª parte, Seferovic bisou aos 56’, após um cruzamento de Grimaldo e três minutos depois César reduziria num lance esquisito, cheio de carambolas e ressaltos, com a bola a ir parar às pernas do central brasileiro e a seguir para a baliza - César pediu desculpas e sabemos que é por ter jogado no Benfica, mas poderia muito bem ter sido um daqueles pedidos de desculpas que os tenistas fazem quando ganham um ponto fortuito.

Depois de fazer o 4-1, o Santa Clara ainda deu algum trabalho a Vlachodimos, mas a história estava contada, os minutos passavam, o 37 era certo, tão certo como 37 ser o 12.º número primo, o número atómico do rubídio, a temperatura média de um corpo humano.