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João Félix. A culpa é do miúdo com acne e aparelho

Os €120 milhões, ou €126 milhões de acordo com a proposta do Atlético de Madrid revelada nesta quarta-feira pelo Benfica, prestes a serem pagos por João Félix, “um dos maiores talentos mundiais” nascidos entre 1997 e 2000, farão dele o culpado de tudo no clube espanhol, o único a apresentar uma proposta ao Benfica

Diogo Pombo

PATRICIA DE MELO MOREIRA/Getty Images

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Há um vídeo a circular algures pelo Twitter, filmado não inocentemente no Seixal, lá posto de forma ainda menos inocente, dado o apoteótico negócio iminente. Vê-se o miúdo de cabelo cortado por uma tigela, dentes amarrados por um aparelho, despercebido, por estes dias, aos olhos de ninguém, a fazer um curto movimento de aceleração para se desmarcar de dois pinos, daqueles em forma de pessoa que se espetam na relva. É João Félix. Entra na área, embalando-se contra um guarda-redes que, na inevitabilidade do um contra um quase trágico devido ao alvo gigante que protege e à bola que não tem, se atira aos pés dele.

No mundo de hipóteses que um futebolista profissional enfrenta ali, a grande maioria optaria por rematar à baliza ou fintar o tombado homem das luvas. João Félix prendeu a bola nos pés, saltou com ela, levantou-a sobre ambos os corpos e foi buscá-la mais à frente, um pouco à Neymar, movimentando-se com uma naturalidade anormal para quem faz um malabarismo circense deste género.

Os badalados €120 milhões que o Atlético de Madrid pagará, já pagou ou está prestes a pagar terão sido, apurou o Expresso, a única proposta que chegou ao Benfica pelo novo craque fetiche. Mas essa quantia não se explica com uma acrobacia de craque feita num treino, onde é impossível replicar a pressão, os nervos e a demanda que há num jogo. Explica-se pelos “dados” que um clube tem, e “o grande público não possui”, quando “avança para a contratação de um jogador”.

José Boto é no Shakhtar Donetsk o que foi durante 11 anos no Benfica. É diretor do departamento de scouting e faz o que alguém fará em qualquer clube médio, grande ou estratosférico na Europa, onde se inclui, algures, o Atlético de Madrid. O português trabalha “com responsabilidades diretamente no futebol”, universo de gente a que se refere para falar de quem “reconhece o João como um dos maiores talentos nas gerações entre 1997 e 2000, as que já podem jogar no futebol sénior”.

Se o português, com décadas de scouting, estivesse envolvido na compra de um atleta que não tem nem 12 meses jogados na Primeira Divisão, saberia da proeza filmada no treino. E teria visto também a fotografia em que João Félix aparece à civil, a fazer um gesto de fixe, no Instagram. “Normalmente, numa situação em que estamos interessados ou num processo de contratação, tentamos controlar sempre todas as redes sociais do jogador, em que percebemos muita coisa sobre a personalidade dele”, diz-nos, para “as pessoas verem o pormenor” a que os clubes chegam.

Quando a vida do jogador é uma pista

Dizendo-se que pagará uma exorbitância por João Félix, valor “comandado pelo mercado” e bem para lá dos €100 milhões — inflação antes só provocada por Neymar, Coutinho, Mbappé, Dembelé e... Ronaldo —, o Atlético de Madrid não tomou essa decisão “cega e levianamente”. O português, não duvida José Boto, foi alvo de “uma profunda reflexão”.

Muito antes de pensar nos euros a gastar, o clube armou-se com scouts e gente para saber através de outras pessoas, conhecidas por rede de contactos, como João Félix terá reagido a coisas da vida. Aos 260 quilómetros que, entre os 5 e os 12 anos, percorreu quatro vezes por semana com os pais entre Viseu, onde moravam, e o Porto, onde ele jogava. À decisão de sair de um clube grande que não lhe dava muitos minutos e, aos 15 anos, ir sozinho para Lisboa, onde está o Benfica. Aos horários férreos e meticulosos de fazer a mala e os trabalhos de casa, escolher a roupa para vestir e outros afazeres para os quais, contou a mãe ao “MaisFutebol”, já dispensava ajuda parental nesses tempos. Porque as reações que se têm na vida podem dar pistas sobre a forma como se lidará com as dificuldades no futebol — que convergem para o que se chama pressão. Coisas que “podem ser pequenas mas que formatam a mentalidade e o carácter” de um jogador, defende José Boto, levando a que ele “esteja mais preparado para a dificuldade e a adversidade”.

Antes de fazer o trabalho de casa sobre João Félix, o Atlético de Madrid já contaria com a cadeia de ação/reação que implicaria avançar com este negócio: o Benfica exigiria a cláusula de rescisão, €120 milhões, que é muitíssimo dinheiro por se tratar de um jogador de 19 anos que vai substituir o craque (Antoine Griezmann) de uma equipa que, aos poucos, está a ver a sua hierarquia a desmoronar-se (Diego Godín, Lucas Hernández, Filipe Luís e Juanfran saíram ou estão prestes a sair). No que toca a números, o dinheiro e a idade mais a única temporada em que competiu na primeira equipa do Benfica terão feito hesitar clubes mais papões, como Manchester City e PSG, que chegaram a ser falados. “Se estivesse no City ou no PSG, não teria avançado neste momento, porque ele não seria um indiscutível. Acho que o João tem possibilidades muito maiores de ser já um titular de caras no Atlético. Será exposto a dificuldades que o farão crescer”, argumenta Boto.

Ficando sem Griezmann, avançado que ligava o jogo entre linhas, jogador com pés mais artísticos no meio do esforço inegociável que Diego Simeone exige sem bola, o Atlético de Madrid viu uma oportunidade. Antecipou-se, arriscou, aceitou a margem de erro “que existe sempre”. Jogou com o timing. Tudo resultará num peso invisível nas chuteiras e nos ombros de João Félix que se chama pressão. “Quando os centrais falharem ou a relva tiver um buraco, a culpa vai ser do João. Espera-se que um jogador de €120 milhões resolva todas as questões. Os €120 milhões vão estar sempre presentes, desde o primeiro minuto”, avisa José Boto, habituado a procurar, descobrir, analisar e depois falar de jogadores a treinadores, que não pensam como os adeptos: “Ninguém vai pensar que ele tem 19 anos e precisa de tempo para chegar a patamares de excelência.”

É por isso que é preciso saber mais sobre a família, de classe média-alta; conhecer os pais, ambos professores, com quem João Félix partilhava as viagens de carro; perguntar acerca das vezes em que viveu longe de casa, no Porto e em Lisboa; averiguar o percurso “estranhíssimo”, por tão curto, nas seleções jovens, onde teve quatro internacionalizações e nenhum Europeu, entre os sub-17 e os sub-19, até Rui Jorge o fazer pular escalões para os sub-21 (10 jogos). Tudo isto é uma forma de tentar farejar o rasto que mais interessa: como reagirá o jogador à pressão?

Sem o conhecer, José Boto acha que “o João tem estofo” para crescer com a pressão, emparelhando-lhe o percurso ao de outro jovem português cuja qualidade, ao início, também levou com anticorpos. “O Bernardo Silva, que já é uma certeza, e o João, que tem tudo para o ser, tiveram um percurso difícil ao longo de toda a formação. Não foram ajudados e houve algumas dúvidas”, argumenta, sentenciando que “ambos vão chegar a patamares elevados”.

A qualidade de João Félix em campo, no íman de jogo entre linhas que ele é a rodar, tocar e definir com um corpo são por, antes de tudo, obedecer a uma mente sã a pensar e a decidir (20 golos e 11 assistências em 42 jogos pelo Benfica), nunca chegaria, por si só, para o Atlético ter certezas. E por muito que, hoje, as estatísticas deem contexto a quase tudo o que acontece em campo, os clubes ainda só têm acesso ao que o jogador é no próprio jogo — nunca fora dele. Quando se contrata, é provável que ninguém conheça o futebolista em contexto de treino. Por isso, o Atlético terá procurado conhecer o que os espanhóis chamam de “entorno”. Porque um miúdo de 19 anos não decide uma mudança de vida sozinho, mas também não precisará que alguém lhe diga que, valendo €120 milhões, a ideia não será tê-lo no banco de suplentes.