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Rui Vitória diz que “sempre disse” a João Félix que já não saía do onze quando lá entrasse. Mas saiu, várias vezes

O antigo treinador do Benfica, entrevistado por ser quem lançou o menino €126 milhões às feras, disse sempre ter dito a João Félix que não mais deixaria de ser titular assim que o conseguisse ser, pela primeira vez. Mas, na meia época em que coincidiram, Félix entrou e saiu do onze quatro vezes, entre 23 de setembro e 2 de janeiro, datas do primeiro e do último jogo que fez com Rui Vitória

Diogo Pombo

CARLOS COSTA/Getty

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Que João Félix jogou os primeiros minutos da sua vida numa primeira equipa, que foram uns meros 2', a 8 de agosto de 2018, por obra, graça e decisão de Rui Vitória, isso já ninguém lhe tira. Era a segunda jornada de um campeonato rocambolesco, o Benfica ganhou ao Boavista e o imberbe de acne na cara e aparelho nos dentes estreou-se.

Aí se iniciou a bela, também abrupta e repentina, viagem de João Félix, que agora segue em Madrid como o jogador por quem o Atlético pagou 126 milhões de euros ao Benfica. Com tais valores a serem pagos por um miúdo de 19 anos, nem com uma temporada completa como titular fixo na primeira divisão, em Espanha muito se diz, escreve e fala sobre ele.

E parte do trabalho de casa do diário “Marca” foi ir falar com o treinador que lançou João Félix, no caso Rui Vitória, que aceitou e deu uma entrevista, na qual disse:

“Treinávamos com vários jovens e o João estava nesse grupo, a trabalhar certos aspetos que tinha a melhorar. Depois subiu à equipa principal e ficou. Sempre lhe disse que tínhamos consciência da sua qualidade e que estivesse tranquilo, porque a sua oportunidade ia chegar. E quando entrasse no onze, não saía mais.”

Entre o dito e o feito há, contudo, a realidade. E o que realmente aconteceu contradiz o antigo treinador do Benfica, porque o que é factual e numérico mostra que João Félix entrou na equipa, saiu, entrou, saiu, entrou outra vez, saiu, entrou de novo e saiu até se fixar mesmo como titular - quando o homem que decidiu estas coisas já não era Rui Vitória.

O primeiro jogo a titular de João Félix, ou seja, quando entra no onze, é a 23 de setembro, à 5.ª jornada, quando marca um golo ao Desportivo das Aves. Lesiona-se sozinho e sai aos 53 minutos, a mazela no tornozelo deixa-o inconvocável nos três jogos seguintes, mas apto para os quatro que vêm depois. No total, fica sete partidas sem ser titular (entra contra o Sertanense, para a Taça de Portugal, e não sai do banco frente ao Ajax, na Liga dos Campeões).

João Félix

João Félix

Carlos Rodrigues

Volta a ser titular a 2 de novembro, contra o Moreirense, na 9.ª jornada do campeonato.

E tem de esperar pouco mais de um mês, mesmo imune a lesões, para pisar o onze: a 5 de dezembro, joga os 90 minutos e marca um golo ao Paços de Ferreira, na Taça da Liga. Pelo meio, é convocado para três de seis encontros e apenas tem minutos (oito) frente ao Arouca, para a Taça de Portugal.

Passa uma semana, não sai do banco frente ao Vitória de Setúbal, mas é titular, logo a seguir, na receção ao AEK, para a Champions. No jogo seguinte, tem um minuto em campo contra o Marítimo, é utilizado para queimar tempo. Depois, entra no onze e lá permanece 90 minutos contra o Montalegre, de novo para a Taça de Portugal.

Passa uma semana, não sai do banco frente ao Vitória de Setúbal, mas é titular, logo a seguir, na receção ao AEK, para a Champions. No jogo seguinte, tem um minuto em campo contra o Marítimo, é utilizado para queimar tempo. Depois, entra no onze e lá permanece 90 minutos contra o Montalegre, de novo para a Taça de Portugal.

E o João Félix que não sairia do onze depois de entrar, voltou a sair. Ficou sentado no banco de suplentes nos dois jogos seguintes. Apenas entrou para os últimos 10 minutos da derrota em Portimão, resultado que culminou na saída de Rui Vitória do Benfica, a 2 de janeiro.

Entre 23 de setembro e 2 de janeiro, o saldo de João Félix com a titularidade é que a ganha e a perde quatro vezes.

MIGUEL RIOPA

O miúdo que prospera entrelinhas, que é explosivo nos espaços curtos, que vive para se associar e tocar com jogadores que tenha perto, volta a entrar no onze a 6 de janeiro, na Luz, contra o Rio Ave - na estreia do treinador cujo primeiro pensamento, assim que passou a treinar o Benfica, foi “meter o miúdo a jogar”.

João Félix foi titular no limbo que passou a ser dele, atrás de Seferovic e à frente dos médios, e marcou dois golos. Nos 29 encontros com Bruno Lage, o imberbe talento entrou no onze ao primeiro jogo e só saiu contra o Dínamo de Zagreb, na segunda mão dos oitavos-de-final da Liga Europa.

A moral da frase de Rui Vitória é que, talvez, não se referisse a ele próprio. Ou que entrar no onze, por si só, não é vinculativo e nada significa. Um jogador entra no onze e não sai quando é aposta de um treinador e tem o rendimento pretendido em campo.