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Jonas, o início de tudo

No Benfica ficam 137 dos 298 golos que Jonas Gonçalves Oliveira marcou no futebol. O brasileiro passou as últimas cinco épocas da carreira a jogar muito mais do que marcou, a ser uma espécie rara em qualquer equipa do mundo: um avançado que se farta de produzir golos e, mesmo assim, fabrica ainda mais jogo do que aquele que finaliza

Diogo Pombo

PATRICIA DE MELO MOREIRA/Getty

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Toda a gente vê que dali sairá um cruzamento pelo ar, para evitar os adversários que há entre Ola John, a correr com a bola à esquerda da área, e ele, que corre para dentro da área. A bola é levantada e quem é suposto rematá-la percebe que vai bater na relva mesmo à sua frente.

Exige um pontapé quase em drop. Meio segundo antes, Jonas salta e parece que está a pular sobre uma barreira de atletismo: a perna esquerda vai à frente, a direita fica atrás e ganha balanço dar um toque chapado na bola.

É o 4-0 para o Benfica em outubro de 2015, contra o Arouca. É o primeiro golo de Jonas.

Uma bola é recuperada perto da área própria e cabe a Jonas dar-lhe saída. Está bem atrás da linha do meio campo, arranca e dá um passe rasteiro, vertical e com força para Rafa, acelerando a jogada tanto quanto dá corda às pernas.

De Rafa a bola segue para André Almeida, na direita, e o brasileiro continua a sprintar em direção à baliza. Ele dá dois passos para o lado antes de o cruzamento sair, afasta-se do defesa, salta e remata de cabeça, à beira da pequena área.

É o 5-1 para o Benfica em maio de 2019, contra o Portimonense. É o último golo de Jonas.

Entre uma e outra bola que entraram na baliza houve mais 135 que lá acabaram dentro. Fosse um remate em suspensão para a sua única intervenção na jogada ser um toque, ou uma fuga temporária do habitat natural - a grande área dos outros - para tocar, pensar, construir e depois ir acabar o que começou lá mais à frente, a pegada que Jonas deixa cravada no Benfica é difícil de traçar.

Porque é enorme, profunda e provocou sulcos em muitos pedaços da terra do Benfica.

O melhor é começar pelas cento e trinta e sete bolas que mudaram de nome para golo por culpa de Jonas. Alcançou esse número em 187 jogos, dando-lhe uma média de 0.75 golos por jogo. A aritmética factual elevou-o à 13.ª posição dos melhores marcadores da história do Benfica, só atrás de Óscar Cardozo (172 golos em 293 jogos, média de 0.59) se conversa ficar pelos jogadores estrangeiros.

Descontando o paraguaio, que tem duas épocas e para lá de 100 encontros a mais, Jonas é, de longe, o melhor marcador do Benfica este século.

É quase batota compará-lo a outros avançados quando o tipo que lhe segue na lista é Simão Sabrosa, o extremo dos muitos remates, livres e penáltis, com 94 golos em 230 partidas. Só depois há Lima (70 golos em 144 jogos), Salvio (62/262) e Mitroglou (52/88). Poderíamos alongar-nos até Pizzi (46/230), mas parece injustificado quando Luisão (47/538) ainda surge antes na lista.

PATRICIA DE MELO MOREIRA/Getty

Mas Jonas Gonçalves Oliveira não é contabilidade nem aritmética, nem o que ele fatualmente representa no futebol se define por isso.

Jonas foi para o Benfica para dar ao Benfica o que é muito raro uma equipa ter. O jogador-alvo de tudo, senhor de uns pés imaculadamente alinhados com o que lhe vai na cabeça - porque ser técnico e ter técnica, muitos são e a têm, mas não é comum pensar genialmente no jogo e ter capacidade para o executar no campo. Jonas marcava golos com o direito, o esquerdo, a cabeça e outras formas mais.

Mesmo com a catrefada de bolas na baliza e jogos salvos, porém, Jonas jogava mais do que marcava.

O brasileiro fugia aos centrais para mostrar uma referência de passe à equipa. Era capaz de receber e amansar na relva boladas desesperadas para a frente.

Tinha uma resistência anormal à pressão, segurava a bola e deixava os companheiros respirarem. Em ataque organizado, era ele quem desorganizava os adversários com uma tabela, uma receção orientada, um passe em rutura. Jonas via, imaginava e executava coisas que outros falhavam ou nem sequer visualizavam.

Jonas explodiu na última época com Jorge Jesus, imperializou-se nos anos de Rui Vitória, (em que foi a réstia de esperança de haver uma jogada ligada com a baliza e de jogo interior, em muitos jogos) e eclipsou-se, aos poucos, nos meses de Bruno Lage, forçado pelas crónicas dores nas costas e a aposta em João Félix.

No meio de tantos golos marcou apenas um ao FC Porto (abril de 2017), de penálti, e outro ao Sporting (janeiro de 2018). Esteve em 12 jogos contra um destes dois adversários, os grandes e os maiores, e a parca influência em termos de golos sempre foi um dedo apontado a Jonas. Não o impediu de terminar como melhor marcador do campeonato em duas (2015/16 e 2017/18) das cinco temporadas em Portugal.

Fê-lo a jogar com um tipo ao lado, na área, e sozinho entre dois extremos, enquanto discutíamos o que era melhor para um brasileiro associativo, de toque, tabelas e jogadas curtas. Jonas foi marcando golos de encostar ou de fabrico próprio, com remates à distância que são proeza individual e com jogadas coletivas, mas que era detonadas por inspiração inicial de um certo alguém.

Alcunharam-no de Pistolas pela analogia aos golos que vinham e continuavam a vir. Mas, pensando no gatilho que há numa arma e no simples que é, apenas, pressioná-lo, Jonas era o pistoleiro-mor. A genialidade do brasileiro estava na simplicidade com que tudo lhe saía, sem fintas espalhafatosas, quais remates mirabolantes, nenhum laivo de estrela. Durante cinco anos, Jonas foi o fim mais fácil, simples e coerente do Benfica.

Porque foi, também, o início de quase tudo o que de bom a equipa produziu.