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Para quê gastar dinheiro quando se tem Zivkovic?

A pouca química entre Seferovic e Raúl de Tomás e a lesão grave de Chiquinho fizeram soar os alarmes que ecoaram ainda mais alto pela derrota com o FC Porto: o SL Benfica perdeu Félix e com ele aquela ligação entre os médios e os avançados. Falta um daqueles jogadores raros, dotado tecnicamente, inteligente e capaz em espaços curtos. Com qualidade, mas jovem. Falta Zivkovic

João Almeida Rosa

Gualter Fatia

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Com o mercado a fechar, cada vez menos tempo para tomar decisões e as opções a escassear, muitos clubes podem ter vida difícil para dotar os seus plantéis dos jogadores certos. Há, no entanto, mais um problema muitas vezes deixado ao esquecimento: várias vezes uma coisa é o jogador que o treinador quer, outra é o jogador de que o treinador precisa.

Ao falar em mercado, Bruno Lage é, em Portugal, porventura o mais privilegiado de todos os treinadores. O plantel ao seu dispor é o mais completo e valioso do país, ainda que parte desse valor tenha de lhe ser atribuído pela forma como o exponenciou, apostando sem medo em jovens como Ferro, Florentino ou um outro que já lá não mora – João Félix. A substituição deste último constitui, precisamente, um dos maiores desafios do treinador encarnado. E pode ser operada de duas formas diferentes.

A mais fácil, claro, seria encontrar uma fotocópia do antigo jogador, mas essa é simultaneamente a mais difícil porque, se já não é simples encontrar ‘clones’ de jogadores comuns, ainda menos o é quando falamos de alguém como Félix. Defesas centrais seguros, laterais que combinam capacidade defensiva e ofensiva, médios capazes de pautar o ritmo de jogo com qualidade ou avançados com faro de golo – todos são relativamente comuns. Já craques com a habilidade de jogar onde o adversário menos quer que alguém jogue, que tenham tanto de inteligentes como de irreverentes, dotados daquela magia que os faz receber, passar, driblar e finalizar tudo com a mesma facilidade… esses são verdadeiramente raros. E é desses que falamos.

No Benfica discute-se RDT + Seferovic + Vinícius = 1 golo

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A outra opção, que julgo ter sido aquela que Bruno Lage está a seguir, é introduzir um jogador de características diferentes e atribuir-lhe funções também elas distintas, readaptando parte do seu modelo. Raúl de Tomás foi o escolhido e a decisão fez sentido. Tem qualidade, é completo. Foi caro, mas tem potencial para dar retorno desportivo e financeiro. E nem a teoria das incompatibilidades faz sentido, porque o que não faltam são exemplos de duplas de ataque de sucesso com ‘dois Seferovic’ e nenhum Félix. Se não quiserem ir longe, olhe-se àquela que derrotou o próprio SL Benfica na 3.ª jornada, composta por Marega e Zé Luís.

O problema, perguntam com propriedade, é que mexer na rotina, nomeadamente na de quem ganha, nem sempre é fácil. Uma equipa de futebol é um sistema complexo onde trocar uma peça pode ser o suficiente para duas ou três deixarem de carburar como até então. Seferovic, o melhor marcador da Liga NOS 18/19, é o que mais se ressente com a mudança. A bola deixou de chegar com peso, conta e medida, as movimentações não têm fluído da mesma forma e as imagens como estas parecem difíceis de se repetir.

Perante a aparente desconexão dos dois avançados, Bruno Lage tinha um plano B, já testado na pré-época e sobre o qual havia cada vez maior burburinho: a inclusão de Chiquinho no onze. O antigo jogador do Moreirense não é Félix, mas tem um perfil bastante mais próximo dele. Pisa os mesmos terrenos e, mais importante, pensa da mesma maneira. Mas, além da perda dos três pontos, o clássico com os dragões trouxe a lesão do encarnado e empurrou para o próximo ano a alternativa que Lage tinha na manga.

A contrastar com o azar de Chiquinho, a boa notícia é que ainda estamos em agosto e o mercado está aberto. A melhor, no entanto, é que o clube não precisa realmente de lhe recorrer. Depois de falhar a quase certa contratação de Mattia Perin e ver Odysseas aparecer em grande, mostrando que o provérbio que fala em janelas que se abrem após portas se fecharem é mesmo verdade, Bruno Lage tem em Zivkovic mais uma opção de recurso de luxo.

O sérvio, mais utilizado como extremo nos encarnados, curiosamente a posição em que Félix também actuava até à entrada de Lage, tem tudo aquilo que o SL Benfica procuraria ao olhar para o mercado: qualidade técnica acima da média, conforto em espaços curtos e boa capacidade de definição no último terço. É jovem, pelo que pode facilmente valer muito dinheiro, e tem uma vantagem em relação a um possível reforço: para ver assistências dele para Seferovic não é preciso recorrer à imaginação, basta regressar ao período em que jogava.

O período de adaptação, um dos maiores obstáculos dos jogadores que chegam após a pré-temporada e com as competições oficiais já a decorrer, também não se colocaria, pelo que aquilo que fica a faltar é mesmo a vontade do seu treinador em contar com ele. Talvez Zivkovic não seja o jogador que o Benfica quer, mas parece ser aquele de que precisa.