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O improvável destino de Adel Taarabt

Depois de uns 45 minutos equilibrados, o Benfica entrou de rompante na 2.ª parte perante um Sp. Braga que foi quebrando a cada golo dos encarnados, num jogo em que para lá da vitória por 4-0, ganhou um novo Gabriel: Adel Taarabt, o homem que fintou o destino, foi titular e o pêndulo do jogo do Benfica

Lídia Paralta Gomes

HUGO DELGADO/EPA

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Há uns anos valentes tive um gato que deixou marca lá em casa. Era um paz-de-alma, daqueles gatos que às tantas parecem ter desistido de ser gatos para se assumirem apenas como sacos de mimos, a quem podíamos fazer tudo. Mas a verdade é que o Cantona (sim, era esse o nome dele) era mesmo um gato, com tudo aquilo que os gatos mais independentes têm lá dentro, ainda para mais sendo ele um gato do campo.

O Cantona desaparecia longas temporadas, talvez procurando amores em casas vizinhas, e reaparecia sempre de surpresa, quando lhe dava na gana, não sei se por ter fome ou por os amores não lhe estarem a correr bem. Até que um dia se deixou ficar, talvez já cansado de andar a cirandar, aceitando, talvez, que o mimo daqueles humanos era bom e que devia aproveitá-lo.

Longe de mim querer comparar Cantona, o gato, a Adel Taarabt, mas a verdade é que tal como o felídeo, também o marroquino parece ter algures na sua vida ter metido na cabeça que as suas capacidades eram boas demais para andarem a ser desperdiçadas por aí, entre comportamentos pouco profissionais e empréstimos mais ou menos inconsequentes. Taarabt quis voltar, que nem filho pródigo, e agarrou o seu destino.

É certo que já desde a época passada que Bruno Lage paulatinamente começou a integrar o marroquino na equipa principal, dando-lhe uns minutos aqui, outros ali e algumas, poucas, titularidades. E Taarabt nunca desiludiu, embora também não tenha brilhado intensamente.

Até este domingo.

Se formos à ficha de jogo, não vamos ver Adel Taarabt, de 30 anos, demasiados deles desperdiçados, a fazer assistências ou golos, mas há coisas que não entram nas estatísticas mais imediatas, aquelas que dão pontos nas ligas de fantasia que tantos de nós gostamos de fazer. Não entram, por exemplo, as boas decisões, as bolas recuperadas que dão origem a ataques perigosos, a solidez defensiva, a capacidade de fazer jogar entre linhas, os passes de ruptura - Taarabt deu tudo isso ao Benfica frente ao Sp. Braga e enquanto Gabriel estiver no estaleiro, Bruno Lage terá aqui o seu homem do meio-campo.

HUGO DELGADO/LUSA

Tudo isto num jogo que começou equilibrado, mas enfadonho, com o Benfica a colocar-se na frente através de uma grande penalidade marcada por Pizzi aos 23’, após uma falta imprudente e desnecessária de Hassan sobre Florentino. Mesmo sem jogar particularmente bem e demasiado lento nos processos, o Benfica até podia ter marcado mais, não fosse o festival de desperdício de Seferovic nos últimos minutos antes do intervalo.

O Sp. Braga viu-se pouco, mas quando se viu foi com perigo: aos 37’, Ricardo Horta rematou ao poste após um belo cruzamento de Esgaio, ao qual Horta respondeu com uma receção fantástica e um remate não mau, mas com demasiada pontaria.

Foi depois do intervalo que apareceu a melhor versão do Benfica, sempre sobre o controlo circunspecto, mas terrivelmente eficiente, de Taarabt. Dois golos ditaram logo a sorte do jogo: aos 47’ André Almeida cruzou e Pizzi entrou de rompante pelo espaço vazio na área para rematar sem hipóteses para Matheus. Três minutos depois, infelicidade para Bruno Viana, que ao tentar evitar o golo de RDT, colocou a bola na própria baliza.

O Sp. Braga, mesmo visivelmente atordoado pelos dois golos encarnados, demorou uns minutos a reagir: o remate de Murillo aos 55’, para grande defesa de Vlachodimos, terá sido a melhor oportunidade, numa altura em que o Benfica baixou a intensidade de jogo.

A reação da equipa da casa seria, no entanto, travada por mais um auto-golo, desta vez de Esgaio, aos 72 minutos, na sequência de um cruzamento de Rafa para Seferovic.

A partir daí o Benfica controlou quase sempre com bola, voltando a aparecer o bom senso de Taarabt, como um pêndulo a decidir a melhor forma de manter tudo equilibrado em toda a extensão do campo.

O Benfica ganhou três pontos e três pontos num campo difícil. Mas também ganhou um titular, um homem de improvável destino, que decidiu finalmente assentar em casa.