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Dois golos de Timo e pumba

O Benfica perdeu, em casa, com o RB Leipzig e complicou logo à partida esta nova aventura na Liga dos Campeões. Os alemães são melhores e foram sempre melhores do que os encarnados num encontro em que Lage mexeu bastante na equipa titular para tentar adiar o que foi parecendo inevitável

Pedro Candeias

NurPhoto

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O RB Leipzig, que não é Bull Leipzig mas sim RasenBallsport Leipzig, porque na Alemanha os patrocínios nominais não colam, é um clube nascido com o dinheiro, justamente, da Red Bul, em 2009.

O RasenBallsport Leipzig - "Desportivo de Bola na Relva de Leipzig” em tradução freestyle - começou, então, na última divisão alemã e foi subindo e subindo e subindo, e subindo um bocadinho mais, até à estreia na Liga dos Campeões em 2017 e à liderança à condição na Bundesliga, em 2019.

Passaram-se apenas 10 anos e vários milhões de euros para que esta história se cristalizasse numa equipa competitiva e jovem, com uma média de 23 anos e um treinador de 32 que se parece demasiado com um wunderkind do cinema para o levarmos a sério.

Acontece que é para levar: Julian Nagelsmann põe este RB Leipzig a jogar destemidamente à bola, com pressão alta e constante, variações táticas (muitas) e opções estratégicas que tendem a confundir o adversário. Uma busca rápida devolver-vos-á análises a 3x5x2, 3x4x2, 4x4x2, 4x2x4 - e este 4x2x3x1 que jogou ainda há pouco no Estádio da Luz.

Feitas as apresentações ao melhor estilo da Wikipedia, eis então o Benfica - RB Leipzig, que teve um padrão na primeira-parte e outro completamente diferente na segunda. Não sei porque assim foi, suspeito que os treinadores se preocuparam em anular um ao outro antes do intervalo, com esquemas bastante semelhantes, mas processos diferentes.

Foi claro que Nagelsmann quis sobretudo retirar Pizzi da equação, e daí que Forsberg e Demme estivessem muito atentos ao futebolista mais influente do SLB; e também se percebeu que o excelente Timo Werner descairia muitas vezes à esquerda para abrir buracos na defesa que o expedito Poulsen pudesse explorar.

Sucedeu algumas vezes, durante as quais Vlachodimos esteve atento e eficaz, mas nada de extraordinário saiu do RB Leipzig nos primeiros 45’.

Já o Benfica controlou o adversário com a concentração e a voz de xerife de Rúben Dias, a maturidade precoce de Tomás Tavares, o pára-brisas de Fejsa e a disponibilidade de Cervi. O pior era o resto: com Pizzi sem tempo e sem espaço, era ao imprevisível Taarabt que cabia organizar o ataque encarnado.

Quase sempre bem, porque quem arrisca como o marroquino pode naturalmente perder o norte e/ou a bola, mas com técnica, improviso, virtuosismo e, acima de tudo, para a frente. Jota, lançado para o papel de João Félix 2019-20, foi um fogaréu facilmente apagado pelo RB a jogar entrelinhas.

Ora, isto era manifestamente curto e quando Veríssimo (substituiu o castigado Lage no banco) pediu a Tavares para subir mais e a Pizzi para deixar a linha, o SLB elevou um poucochinho de nível, libertou-se aqui e ali da pressão, dividiu a espaços o jogo com os alemães e RDT até pôs Gulácsi em trabalhos. Instantes depois, chegou o intervalo e o empate aceitava-se, como dizem os antigos.

A seguir, veio a segunda-parte, que arrancou logo frenética com Vlachodimos a safar a equipa em três ocasiões consecutivas e RDT a chutar juntinho ao poste. Foram como que dois prenúncios para o que ali vinha: um RB Leipzig asfixiante e um Benfica desorientado a tentar responder como podia, aproveitando uma ou outra perda de bola e consequente contra-ataque; jogar em progressão apoiada não dava, jogar para o pé de RDT era improducente, pois o espanhol nunca foi suficiente para o portentoso Konaté.

Para tentar impedir o que parecia inevitável, Veríssimo fez entrar o médio estreante David Tavares para o lugar de Jota - e o Benfica sofreu o primeiro golo, segundos depois de Pizzi falhar o seu, numa combinação entre Poulsen e o goleador Timo Werner.

Provavelmente, o plano louvável de tentar segurar o meio-campo, quando Nagelsmann pôs os seus extremos por dentro, ruiu nesse momento. Então, o SLB fez logo entrar Rafa (saiu o anulado Pizzi) e Seferovic (saiu Cervi, quebrado e choroso, acabadinho de falhar um golo feito), recuperando o 4x4x2 clássico - e o RB marcou o seu segundo golo, outra vez por Werner.

Assim, entre duas substituições imediatamente sucedidas de dois golos, o que se pode chamar de azar, bruxedo, enguiço ou, vá, ineficácia, o Benfica encaminhou-se para a derrota na Liga dos Campeões. Que não foi tão acentuada, pois o caído em desgraça Seferovic reduziu após uma diagonal de Rafa, mandando calar os adeptos com o dedo na boca.

Há duas dúvidas que ficam e uma conclusão que se pode retirar: porque não jogaram Rafa e Seferovic de início e porque não se gastou algum dos 126 milhões de euros num substituto real de João Félix; Luís Filipe Vieira devia sorrateiramente arrumar o discurso delirante do campeão europeu da formação.