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Uma questão de nervos

O Benfica venceu o V. Setúbal por 1-0, voltou a agarrar os 3 pontos, mas os dias das goleadas e do futebol intenso parecem andar em paradeiro desconhecido. Foi mais um jogo de nervos para a equipa de Bruno Lage, que teve o condão de acertar nas alterações: Carlos Vinícius saiu do banco para fazer o único golo do jogo

Lídia Paralta Gomes

PATRICIA DE MELO MOREIRA/Getty

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É possível que isto já se possa dizer: o Benfica vive, por estes dias, uma pequena crise existencial. E digo pequena porque a nível de resultados, de números puros e duros, essa perda de identidade só notou verdadeiramente na Liga dos Campeões, com a derrota frente ao RB Leipzig, que torna, desde já, um pouco mais difícil um dos objetivos da época: chegar à fase a eliminar da Champions.

Cá dentro, o desvanecimento daquele Benfica dominador, máquina de fazer golos, com capacidade de controlar com bola um jogo do primeiro ao último minuto, ainda não se tornou um verdadeiro problema no que a pontos diz respeito. O Benfica vai ganhando, está lá em cima. Mas as dificuldades que os encarnados sentiram para há uma semana bater o Moreirense, com dois golos na reta final, não foram muito menores que aquelas que tiveram este sábado em casa frente ao V. Setúbal.

O 1-0, saído do malabarismo de Carlos Vinícius a meia-hora do fim, teve de ser defendido com o coração nos últimos minutos, depois da expulsão de Taarabt aos 80’. E não foi a isto, não foi a nervos e a ansiedade e a resultados raquíticos que o Benfica de Bruno Lage habituou os seus adeptos.

Tal como não habituou a experimentações. Como jogar com Gedson no apoio a Seferovic, face à lesão de Chiquinho e à pouca produção de Raul de Tomas. Mas o jovem médio português mal se viu, perdido em terrenos que não são seus, à procura de soluções para as quais não terá recursos.

Talvez por isso tenha sido preciso esperar mais de 20 minutos para o encontro ver um remate. Até lá, o V. Setúbal ia assustando o Benfica com algumas combinações interessantes em contra-ataque, normalmente com Hildeberto como protagonista, mas sem grandes danos, porque lá à frente faltava a definição. Contra-ataques esses que, diga-se, nasciam de bons posicionamentos defensivos, de uma organização compacta lá atrás, bem na abordagem aos jogadores encarnados, demasiados lentos na construção.

PATRICIA DE MELO MOREIRA/Getty

O primeiro remate do Benfica apareceu então aos 22 minutos, curiosamente em ataque rápido, numa bola lançada com a sageza habitual de Ferro quando o assunto é lançar jogo. A jogada seguiu então nos pés lestos de Rafa e depois para Gedson, feito homem de ataque, que permitiu que o seu remate fosse cortado por um carrinho de Artur Jorge.

Aos 35 minutos foi Pizzi a ver Makaridze a travar-lhe um remate feito já com pouco ângulo, mas ainda assim perigoso, mas até ao intervalo as idas do Benfica à área do V. Setúbal chegavam quase sempre atrapalhadas e pouco objetivas, com Seferovic meio perdido entre os sadinos.

A 2.ª parte começou com Gabriel em campo e um par de sustos na baliza de Vlachodimos. Aos 47’, Mansilla apareceu sozinho do lado esquerdo da área e rematou à malha lateral, num daqueles lances em que, como se diz na gíria, se gritou golo. Malha lateral que poucos minutos depois receberia novo remate em cheio, mas desta vez do marroquino Hachadi.

Os sustos, diga-se, não fizeram bem ao jogo, que se partiu e bagunçou, principalmente até à entrada de Vinicius, que teve pelo menos o condão de colocar mais massa humana na área e exigir organização às duas equipas. E foi com um V. Setúbal já bastante encostado à sua baliza que o Benfica marcou, numa jogada de insistência aos 63’, que começou num canto de Grimaldo. Ferro foi o primeiro a rematar, mas Makaridze defendeu bem, com a bola seguiu para Rafa, que cruzou para Carlos Vinicius, que mesmo quase sem espaço conseguiu naquele metro quadrado de grande área tirar o guardião sadino do lance com um chapéu, ficando depois com a baliza à mercê para o golo. Que aconteceu.

O golo pareceu por momentos dar vida ao Benfica, mas foi falso alarme. Sem conseguir controlar o jogo com bola, o Benfica foi permitindo que os nervos chegassem ao relvado da Luz e a entrada impetuosa de Taraabt a dez minutos do fim, que lhe valeu guia de marcha, é só resultado disso. A jogar com 10, o Benfica desconcentrou-se e os últimos minutos foram passados a conter o V. Setúbal, que pecou por, de facto, não ter lá grande destreza a atacar - por alguma razão tem apenas um golo marcado no campeonato.

Uma vitória é uma vitória e todas valem três pontos. Três pontos esses que o Benfica tem agarrado, é certo, mas os tempos das goleadas e do futebol rápido e intenso parecem uma por estes dias andar em paradeiro desconhecido.