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O Benfica e as noites brancas na Europa

Continua difícil a vida do Benfica, que depois da derrota em casa na estreia, voltou a perder na Liga dos Campeões, em casa do Zenit por 3-1. Se nas Noites Brancas de Dostoiévski, o jovem e sonhador narrador se apaixonava por Nastenka, o Benfica parece ter-se apaixonado por um discurso vão sobre uma tal de “dimensão europeia”. Só que esta demora a chegar

Lídia Paralta Gomes

DIMITAR DILKOFF/Getty

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É possível que São Petersburgo seja um dos mais bonitos locais do planeta para observar certo fenómeno astronómico. Aquele que faz com que nos meses de verão raramente se veja a escuridão. Que permite que um jantar se prolongue até à meia-noite e que mesmo assim ainda haja claridade a acompanhar-nos até casa. Que castiga aqueles que querem dormir e não o conseguem fazer sem o breu da noite alta e que maravilha aqueles que, pelo contrário, encontram magia em acordar a meio da noite, abrirem a cortina e tudo estar resplandecente.

Sei que pouco interessa, mas sou deste último campeonato.

Por esta altura já há menos luz em São Petersburgo do que nos meses de junho e julho mas, no que à Europa diz respeito, as noites continuam brancas, ou em branco, para o Benfica, que depois da derrota em casa na estreia, voltou a perder na Liga dos Campeões, em casa do Zenit por 3-1. Se nas Noites Brancas de Dostoiévski, o jovem e sonhador narrador se apaixonava por Nastenka, o Benfica parece ter-se apaixonado por um discurso vão sobre uma tal de “dimensão europeia” que demora a chegar. No Estádio Krestovsky, o Benfica foi quase sempre uma equipa de baixo perfil, subjugada e dominada, muito longe da equipa “mandona” que Bruno Lage quis assumir na antevisão ao segundo jogo dos encarnados nesta edição da Liga dos Campeões. E a anos-luz daquilo que nos gabinetes da Luz se sonha.

São Petersburgo, que os locais gostam de tratar por “janela para a Europa”, talvez por ser a mais ocidental das cidades russas, pode muito bem ter sido a janela para fora da Europa deste Benfica, a atravessar uma crise de identidade, a maior desde que Bruno Lage chegou ao comando técnico da equipa.

Benfica que começou cedo a transpirar intranquilidade: logo aos 2’, o Zenit apareceu na área dos encarnados com três homens, depois de Azmoun ultrapassar Jardel com a maior das facilidades. O brasileiro foi titular para fazer frente ao grandalhão Dzyuba, mas o ataque dos russos não é só Dzyuba, apesar de até ter sido dele o primeiro golo da equipa da casa. Aos 22’, um erro na saída de bola de Fejsa permitiu a Ozdoev seguir para o ataque e deixar a jogada para internacional russo que, sozinho, rematou fora do alcance de Vlachodimos.

Peter Kovalev/Getty

A reação não apareceu. Durante toda a 1.ª parte o Benfica lutou contra uma saída de bola sempre atabalhoada, com muitas bolas perdidas e uma permanente desorganização a meio-campo. O Zenit ia aproveitando a deficiente ocupação de espaços dos encarnados para cavalgar para a área do Benfica, ainda que nem sempre com perigo. No final dos primeiros 45 minutos, a diferença de remates nem era assim tão grande, nove para o Zenit e sete para o Benfica, mas este é um daqueles casos em que a estatística diz muito pouco sobre o que realmente se passou em campo.

O início da 2.ª parte como que exacerbou as dificuldades que o Benfica vinha a sentir e logo na primeira jogada Vlachodimos salvou o 2-0, ao afastar um remate perigoso de Azmoun, após uma jogada rápida do Zenit.

Até aos 60 minutos, só existiu Zenit e para isso muito contribuiu o eclipse de Pizzi e um Gabriel que, apesar da qualidade, ainda luta por chegar a um ritmo que lhe permita uma corridinha de vez em quando.

A entrada de Vinicius e Caio Lucas vieram em boa altura e Benfica entrou então no seu melhor momento, ainda que o melhor momento, na verdade, não tenha sido assim tão bom, ficando na retina o remate perigoso de Caio Lucas aos 69 minutos. Acontece que logo a seguir, o Zenit fez o 2-0, um auto-golo de Rúben Dias, azarado no corte a uma bola que seguia direitinha para Azmoun. E se não foi ali que o iraniano colocou o seu nome na lista de marcadores, seria oito minutos depois, numa jogada em que a defesa do Benfica foi completamente ludibriada por um livre marcado de forma rápida, seguido de uma simulação de Dzyuba, que permitiu que Azmoun ficasse isolado. Foi só contornar Vlachodimos e estava feito o 3-0.

Com o resultado já mais que feito, com a 2.ª derrota em outros tantos jogos na Champions só à espera de acontecer, o Benfica ainda conseguiu reduzir, aos 85’, num fantástico remate de Raul de Tomas, que em boa hora parece ter abdicado do RDT na camisola. O golo do espanhol alavancou os encarnados para o ataque, mas era tarde demais.

A noite, essa, será em branco para quem não dorme bem após desilusões. A Champions continua a magoar o Benfica como Nastenka magoava o narrador. Porque na Liga dos Campeões não chega sonhar, é preciso saber de bater de frente com os melhores da Europa. E este apático Benfica nem sequer está em condições de sonhar acordado.