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O que é a OPA sobre o Benfica e quem pode ganhar com ela?

A Olivedesportos, de Joaquim Oliveira, e José Guilherme, o construtor civil conhecido por ter oferecido 14 milhões de euros a Ricardo Salgado, são dois dos acionistas que podem vender as ações da SAD ao Benfica. Mas correm o risco de, se quiserem, não conseguirem vender todas. Esta é uma operação em que o clube paga 5 euros por título, quando, na segunda-feira, estes valiam 2,76 euros. Estas são algumas das conclusões que se podem retirar da OPA do Benfica à sua SAD

Diogo Cavaleiro

Mike Hewitt/Getty Images

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Anos depois, as OPA voltaram à vida do Benfica. Agora, não é um nome de fora que quer comprar a SAD encarnada. São as próprias águias que querem ferrar ainda mais as suas garras naquela sociedade. Como?

A oferta

O Benfica controla, direta e indiretamente, quase 67% da sua sociedade anónima desportiva (SAD). Contudo, pretende ganhar ainda mais domínio sobre aquela empresa, que, por ter outros acionistas, está mais exposta a investidas externas.

Para isso, o clube presidido por Luís Filipe Vieira decidiu lançar uma oferta pública de aquisição (OPA) sobre a SAD – daí que tenha feito o anúncio preliminar com um comunicado à Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM).

A Sport Lisboa e Benfica SGPS SA (uma "holding" do clube) está disposta a comprar mais 28% do capital da SAD. Cada ação será comprada por 5 euros. Se todos os outros acionistas vendessem, ficava com cerca de 95% da sociedade nas suas mãos. Daí que a oferta seja considerada "parcial", porque não ficará com 100%. Também é "voluntária" - é lançada por livre vontade, sem que haja nenhuma regra de mercado a obrigá-la.

Quem pode vender

José António dos Santos, um dos nomes do Grupo Valouro (das carnes da Avibom), com 12,7%; José Guilherme, o construtor civil que ofereceu 14 milhões de euros a Ricardo Salgado, com 3,7%; Joaquim Oliveira, o dono da insolvente Controlinveste e da Olivedesportos, com 2,7%; e a Quinta de Jugais, empresa de cabazes de Natal, com 2%: estes são os quatro maiores acionistas da SAD do Benfica, e são eles que mais podem encaixar dinheiro com a oferta que foi feita pelo clube da Luz. Mas há outros acionistas, desde logo benfiquistas que compraram ações em 2001 mas também outros investidores que foram comprando títulos desde então.

Com Luís Filipe Vieira à cabeça, os administradores do Benfica, por estarem do seu lado, têm ações da SAD, mas não as podem vender nesta operação. Contudo, fica salvaguardado que, quando deixarem os cargos, o Benfica lhes poderá comprar as suas ações. Aos 5 euros agora oferecidos.

O preço

A Benfica SGPS SA faz a oferta a um preço de 5 euros por cada ação da SAD. “O preço oferecido por ação visa assegurar que os acionistas que adquiriram as suas ações” em 2001, quando a empresa foi aberta a terceiros, possam agora vender sensivelmente ao mesmo preço. Na prática, esses investidores não perdem dinheiro (tirando o efeito da inflação). Noutra perspetiva, esta pode ser uma oportunidade para quem comprou posteriormente, a preços mais baixos, com a oportunidade de agora alienar os títulos a 5 euros e, assim, fazer mais-valias.

O Benfica pode ter de gastar 32,2 milhões de euros na oferta. Ainda assim, a fatura poderá aumentar, já que o Benfica se comprometeu a comprar as ações atualmente nas mãos dos administradores, quando estes saírem de funções. E só Luís Filipe Vieira custará, caso este vier a aceitar, 3,7 milhões de euros.

Embora alinhado com o preço de 2001 (quando houve a distribuição de ações da SAD por terceiros que não o Benfica), a verdade é que os 5 euros estão 81% acima dos 2,76 euros a que as ações fecharam na passada segunda-feira e acima do que que têm negociado quase sempre.

Por comparação, em 2007, quando o empresário Joe Berardo anunciou uma oferta de aquisição sobre a SAD, avançou com um preço de 3,50 euros.

Continuar em bolsa

Propondo-se o Benfica a adquirir apenas até 95% do capital da SAD, ficará sempre uma parcela de capital nas mãos de terceiros investidores. Aliás, se houver mais interessados em vender as ações do que aquelas que podem ser adquiridas pelo Benfica, terá de haver um rateio (uma espécie de sorteio): os pormenores só deverão ser definidos em breve, numa fase mais avançada do processo.

Certo é que, segundo o anúncio preliminar, o Benfica continuará em bolsa. Aliás, aí está também para realizar as emissões de obrigações que são vendidas aos balcões dos bancos, com que o grupo se tem financiado. Por isso, não vai requerer a chamada perda da qualidade de sociedade aberta. O Benfica pretende manter tudo igual: “é intenção do oferente dar continuidade à atividade empresarial”, “mantendo a sua equipa de gestão e prosseguido a estratégia definida”.

Mas a SAD que está cotada em bolsa é hoje uma empresa mais reduzida do que até aqui. Porque há parcelas que até aqui lhe pertenciam e que foram, este ano, vendidas à Benfica SGPS, casos da Benfica Estádio e da Benfica TV. O clube tem justificado com o facto de, agora que a SAD está em melhor posição financeira, poder transferir o controlo desse património para o clube.

O ajudante

Esta operação da SAD encarnada conta com um ajudante: o Haitong Bank. É ele o intermediário financeiro que assiste esta oferta. O que mostra que a economia portuguesa evoluiu, os protagonistas mudaram, mas não na sua totalidade.

O BES Investimentos tinha sido o assessor da primeira operação, em 2001 (e o BES chegou aliás a ser acionista da SAD). Foi também em 2007 que o BESI ajudou a SAD a ir para a bolsa. Agora, é a mesma entidade, mas sob um novo nome, herdado do seu acionista chinês, que assume essa função.

Pormenores

Mais pormenores, ainda não há. E o Benfica não dá mais informações para além daquelas que constam no documento. Haverá, sim, no prospeto, quando forem divulgados mais detalhes sobre a operação, que só avança se houver luz verde da CMVM. Só depois é que as compras e vendas das ações se podem concretizar.

(Notícia atualizada para retificar valor de fecho da SAD na segunda-feira)