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Os seis argumentos de Luís Filipe Vieira para que os sócios do Benfica paguem €5 aos acionistas

A OPA do Benfica à SAD "é oportuna" e a contrapartida de 5 euros por ação "é justificada". São estas as palavras da administração da SAD sobre a oferta que os próprios lançam através do clube. Mas o documento publicado na segunda-feira à noite tem mais informação, desde logo, quais algumas das razões por trás da operação

Diogo Cavaleiro

TIAGO MIRANDA

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Permite aos acionistas que não percam muito dinheiro; dá oportunidade a que alguns acionistas até ganhem; evita que investidores externos tenham um peso significativo. Estes são alguns dos argumentos da administração da SAD do Benfica, liderada por Luís Filipe Vieira, para avaliar a oferta de compra lançada pelo clube do Benfica, através da Sport Lisboa e Benfica SGPS, a que Vieira também preside. A avaliação é positiva, a ponto de a administração da SAD aconselhar os investidores a aceitarem a proposta de €5 euros por ação - que a própria administração poderá receber quando já não estiver em funções.

Como em todas as ofertas pública de aquisição (OPA), como a feita pela SGPS do Benfica sobre a SAD, o conselho de administração da sociedade alvo dessa operação, neste caso a SAD, tem de se pronunciar sobre as suas condições e a sua oportunidade. Foi isso que aconteceu esta segunda-feira à noite. E, no documento divulgado através da Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM), a SAD começa logo por assumir que a OPA feita pela “holding” do clube faz todo o sentido.

“Entende o conselho de administração da Benfica SAD que a oportunidade de uma oferta constitui corolário da avaliação estratégica empresarial que o conselho de administração da sociedade visada faz sobre as condições objetivas da mesma”, assinala o comunicado.

São seis as razões que a equipa de Luís Filipe Vieira entende para considerar a operação “oportuna” e para dizer aos acionistas que há razões para aceitarem o valor pago. Ou seja, para que o clube, constituído por sócios, pague para ficar com o controlo quase exclusivo da SAD.

O que preço que ajuda acionistas

A primeira é que os 5 euros oferecidos são superiores aos 2,81 euros de cotação média ponderada (que faz um cálculo entre o valor e o volume de trocas) das ações na bolsa de Lisboa nos seis meses anteriores à oferta. Também são superiores à cotação máxima: nunca, nos mesmos seis meses, as ações superaram os 3,20 euros.

“A oferta permite aos acionistas que adquiriram ações da Benfica SAD no decurso da oferta pública de distribuição realizada em 2001 venderem ações de que são titulares a um preço semelhante ao preço nominal a que as mesmas foram então subscrita”, é a segunda explicação dada pela administração. Na verdade, os 5 euros à data não são iguais aos 5 euros atuais, tendo em conta a inflação, mas não há uma perda imediata de dinheiro, o que aconteceria caso estes acionistas tivessem vendido há duas semanas.

“Também os demais acionistas, que adquiriram ações da Benfica SAD em momento posterior, poderão, nos termos legais, vender ações na oferta ao mesmo preço”, indica também a equipa de Vieira. Na verdade, a OPA vai permitir a acionistas venderem as suas posições, mesmo aqueles que entraram depois de 2001, como é o caso dos grandes acionistas (o maior é o clube, com 67%, e esse não é alvo da oferta).

Entre os atuais acionistas, encontram-se José António dos Santos, do Grupo Valouro (das carnas Avibom), que poderá conseguir, vendendo toda a participação, 14,6 milhões de euros. O construtor civil José Guilherme - que deu 14 milhões a Ricardo Salgado - poderia fazer 4,3 milhões. Joaquim Oliveira, da Olivedesporto, faria 3 milhões. A empresa de cabazes de Natal Quinta dos Jugais ficar-se-ia com 2,3 milhões.

E o interesse externo?

Neste momento, o clube tem 67% e propõe-se adquirir mais 28%, pelo que só terá no máximo 95% do capital da SAD. A entrada de novos investidores com presença relevante estava, assim, limitada: no máximo, fora do clube e dos seus dirigentes só poderiam estar 33% do capital. Uma posição que não tiraria o controlo da SAD ao Benfica.

Mesmo assim, a administração vê a oferta como um reforço do clube como uma forma “obviar eventuais tomadas significativas de posições acionistas hostis”.

Tudo para manter igual

Outra das justificações para a continuação da SAD em bolsa (no máximo, os 5% que não serão adquiridos) é a “manutenção do atual modelo de financiamento da Benfica SAD, concretamente com recurso a ofertas públicas de subscrição de obrigações”. É através da emissão de obrigações colocadas em clientes que a empresa se tem financiado.

“A oferta coincide com um período em que a Benfica SAD apresenta capital próprio elevado (de aproximadamente €119,2 milhões em 30 de junho de 2019, superior ao seu capital social), resultante da recente recuperação económica da Benfica SAD e, consequentemente, do grupo formado pelo Sport Lisboa e Benfica e pelas entidades que consigo se encontram em relação de domínio ou de grupo”, avança ainda a administração da SAD.

De resto, nas considerações feitas pela administração, a conclusão é que a OPA parcial feita pelo clube nada vai alterar. A oferta “possibilita a continuidade do rumo estratégico”. Também não haverá “necessidades de modificar as condições de trabalho nem de relocalizar trabalhadores da sociedade visada”.

Nada sobre venda futura dos administradores

O documento não faz menção ao facto de também a administração da SAD, encabeçada por Luís Filipe Vieira, beneficiar da operação. Não da oferta em si, no momento atual, mas do rasto que deixa.

“Os membros do conselho de administração da Benfica SAD e do oferente que são simultaneamente acionistas da sociedade visada não poderão participar na oferta porque a oferta é parcial e, assim sendo, a lei não lhes permite fazê-lo”, explica a entidade – se todos os atuais administradores acionistas quiserem vender, terá de haver um rateio (corte proporcional), já que, se pudessem vender, estariam em concorrência com os restantes acionistas.

Só que, como se sabe desde o anúncio preliminar, Luís Filipe Vieira e outros seis elementos da administração, como Domingos Soares de Oliveira, vão poder vender as respetivas ações quando saírem dos cargos. No caso do presidente, poderá encaixar mesmo mais de 3,6 milhões de euros quando abandonar aquela função. Não há, na legislação relativa ao Código dos Valores Mobiliários, nada que limite essa possibilidade, pese embora, como relembra a SAD no comunicado, Vieira e outros sejam também dirigentes do clube.

Luís Filipe Vieira garante quase €4 milhões para quando sair do Benfica

O presidente do Benfica não pode vender as ações da SAD que detém na OPA agora anunciada pelo clube. Contudo, quando sair de funções, tem essa possibilidade. E a €5 por ação, o que lhe garante quase €4 milhões, no total