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Pizzicato: a crónica de um jogo ao ritmo de uma goleada

O Benfica bateu o Marítimo por 4-0, com exibições notáveis de dois médios criativos (Taarabt e Pizzi) e do goleador em melhor forma (Carlos Vinicius)

Pedro Candeias

NurPhoto

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É possível que tenham ouvido por aí a palavra “proposta” saída da boca de analistas e treinadores de futebol. Normalmente, “proposta” vem seguida de “de jogo”, concluindo-se a expressão “proposta de jogo” que, julgo eu, é uma variação menos feliz de “ideia de jogo”. Porque, apesar de “ideia” ter alguns sinónimos, são, na generalidade, próximos uns dos outros, a saber, uma representação mental do que se quer fazer - e nenhuns são tão distantes como “projeto” e “oferecimento”, que podem ser usadas em vez de “proposta”. Simplificando: propomos ideias e idealizamos propostas. São coisas diferentes e é bastante normal associarmos o verbo “propôr” ao “dar”. Ou “entregar”. Do tipo: entregar um jogo.

Bom, e assim se chega à conferência de imprensa de José Gomes, o novo treinador do Marítimo, que usou algumas vezes a “proposta de jogo” para lançar o encontro na Luz, contra o Benfica, líder do campeonato que só havia sofrido golos do FC Porto no seu estádio. De resto, e como dizem os ingleses, os encarnados apresentavam folha limpa. Disse José Gomes que era natural que a “proposta” apresentada ainda não fosse a adequada, por haver pouco tempo de treino, mas esperava algumas mudanças. A primeira das quais, conhecendo o Rio Ave de José Gomes, seria jogar com a bola no pé e para frente e com coragem, numa equipa que apresentava os piores índices de posse do campeonato inteiro - e que ia defrontar um adversário num lugar de onde saíra com 0-6, 0-5, 0-3 e 0-6 (Taça de Portugal) nas últimas visitas.

Portanto, tudo somado, era provável que este fosse o cenário ideal (idílico?) para o Benfica reassumir os seus melhores contornos, depois de uma jornada em que deixou fugir a qualificação na Champions nos últimos instantes. Ora, o Marítimo entrou bem, a querer jogar com bola no pé e para a frente e corajoso, provocou dois lances complicados de gerir pelo Benfica – e sofreu o primeiro golo, por Pizzi, numa jogada notável, com um cruzamento de André Almeida e uma rotação bastante elegante de Vinicius que - lá está - deu ao médio goleador o seu 15.º golo na época.

Aconteceu ao minuto 8, bem cedo, pois, e a “proposta” vestiu a roupa da “entrega” menos de 10’ a seguir, quando Pizzi - lá está, outra vez - propôs o segundo golo do Benfica a Carlos Vinicius, retribuindo - lá está, finalmente - a oferta do avançado. Logo aí, o Benfica - Marítimo ficou sentenciado.

À vontade

Entre esses dois golos e os dois outros que se sucederam (31’ e 55’, ambos por Vinicius) - até à expulsão pateta de Gabriel por acumulação de amarelos (61’) perante o apoplético Bruno Lage -, o Benfica jogou quase sempre com espaços e corredores abertos.

Aproveitando o balanço ofensivo dos insulares, obrigados a tentar a sua sorte na Luz, os encarnados entraram tranquilamente no seu estilo predileto: o contra-ataque que, sem oposição à altura, é particularmente eficaz se na frente se encontra um avançado igualmente eficaz.

E Vinicius, neste momento, não tem concorrentes no plantel encarnado: 12 golos entre Taça de Portugal, Liga e Champions League em 16 jogos disputados, dos quais foi titular em apenas 6. Estatisticamente imbatível.

Então - e voltando à crónica - sem pressão, os criativos do SLB mostraram que estão vários níveis acima dos adversários diretos, sobretudo Taarabt e Pizzi, que encheram o novo relvado da Luz com truques, acelerações e passadas largas do marroquino, e com a inteligência, perspicácia e ocupação de espaços ofensivos do português. Que acabou o jogo com duas assistências e o tal golo inaugural, alimentando uma temporada potencialmente épica para este extremo transformado em médio interior que pôs o Benfica a jogar ao seu ritmo.

É por isto que ele dá o título a este texto: Pizzicato*

*Pizzicato: estilo instrumental em que o músico puxa ou belisca as cordas, produzindo um som ritmado, seco e certeiro. Tal como Pizzi.