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Se há uns anos me dissessem que Weigl jogaria em Portugal, diria que era delírio vosso: eis o médio defensivo que constrói o ataque

O analista Tiago Teixeira escreve sobre Julian Weigl, o reforço de inverno sonante do Benfica que trará qualidade ao jogo da equipa de Bruno Lage, porque é, realmente, um futebolista diferenciado. Um perfil desportivo feito com a lupa de quem entende do ofício

Tiago Teixeira

PATRICIA DE MELO MOREIRA

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Se algures entre 2015 e 2018, alguém me dissesse que, em janeiro de 2020, ia estar a escrever um texto sobre a vinda de Julian Weigl para o Benfica, certamente iria achar que essa pessoa delirava. Mas no futebol, o que num momento parece completamente impossível, no outro torna-se realidade, e Julian Weigl é neste momento o mais recente reforço às ordens de Bruno Lage, depois do clube encarnado ter pagado €20 milhões.

É inesperado, sim, mas há um contexto: depois da saída de Thomas Tuchel do comando técnico do Dortmund, e também fruto de algumas lesões, o internacional alemão foi perdendo protagonismo no centro do terreno com os treinadores seguintes (as contratações de Witsel e Delaney também contribuíram para isso), acabando mesmo por ser adaptado, por Lucien Favre, a defesa central em muitos jogos no último ano e meio.

Mas é um bom jogador. Correção: um grande jogador

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Weigl é um médio-defensivo moderno, que se destaca essencialmente pelo que oferece em fases de construção. Elegante na maneira como se movimenta atrás da primeira linha de pressão adversária, e sempre de cabeça levantada para perceber o contexto – espaço para onde se deslocar, distância para os médios adversários, onde estão possíveis linhas de passe após receber a bola –, Weigl, sobressai, acima de tudo, pela excelência nas receções orientadas e no passe, revelando uma grande capacidade para ligar a fase de construção com a fase de criação.

À qualidade técnica com que executa, e à velocidade com que pensa o jogo, junta uma fantástica tomada de decisão, o que o torna num médio-defensivo muitíssimo completo no momento ofensivo.

A transição defensiva é, provavelmente, o momento do jogo onde apresenta mais dificuldades, uma vez que, e apesar de ser um médio-defensivo com um bom sentido posicional, não é particularmente rápido e denota alguma falta de agressividade em alguns momentos.

O encaixe no sistema de Bruno Lage

Apesar de no último ano e meio ter realizado vários jogos como defesa central, dificilmente será essa a sua principal posição no Benfica. É certo que o Benfica tem Florentino, Gabriel, Fejsa e Samaris como opções para a posição “6” (os dois últimos num patamar inferior no que diz respeito às preferências de Bruno Lage), mas Weigl é realmente diferenciado no momento ofensivo, pelo que não surpreenderá ninguém se for ele o escolhido para comandar o meio campo encarnado.

Com Weigl na posição “6”, a movimentar-se nas costas da primeira linha de pressão adversária - talvez a descair mais para o lado esquerdo para ser opção de passe a Ferro e Grimaldo, que são os dois defesas mais competentes na construção, - o Benfica ganha muita capacidade para ligar o seu processo ofensivo, através de passes verticais para o espaço entre a linha defensiva e a linha média adversária. Principalmente, diria eu, ganha mais critério em posse, dada a qualidade com que Weigl percebe e pauta os ritmos de jogo.

Apesar de Weigl ser um médio-defensivo que opta mais pelo passe curto e médio, tem também capacidade para variar o centro de jogo através de passes longos, como Bruno Lage gosta, de modo a que o Benfica possa encontrar mais espaço no corredor lateral para entrar em zonas próximas da grande área adversária.

A contratação de Julian Weigl, não só é excelente para o Benfica, como também o é para o campeonato português, que, com as saídas de jogadores como Jonas, Félix, William Carvalho, Brahimi, entre outros, se vê carenciado de jogadores que façam a diferença.