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A ressurreição de Almeida

Ele foi expulso e depois já não e foi já regressado dos mortos que decidiu: num jogo muito difícil para o Benfica, em que o líder esteve a perder até quinze minutos do fim, André Almeida marcou aos 89’ e confirmou a reviravolta dos encarnados frente ao D. Aves

Lídia Paralta Gomes

PATRICIA DE MELO MOREIRA/Getty

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A chegada do VAR trouxe-nos, de repente, novas narrativas para o futebol. Todos nós já vimos um golo que era da vitória mas depois deixou de existir ou a grande penalidade que não foi marcada e que o vídeo mostrou que, afinal, tinha acontecido. Mas talvez nos faltasse esta história pouco mais sofisticada e que perderíamos caso o VAR não fosse uma realidade: esta história de, de repente, termos um jogador expulso que acaba a ser o herói do jogo, ao marcar o golo da vitória de um jogo bem sofrido.

Chama-se André Almeida o herói para uns, vilão para outros, claro está, que nisto do futebol é impossível ser-se só uma coisa para toda a gente. Aos 52’, e com o Benfica a perder desde os 20 minutos, o lateral entrou de pé alçado numa jogada com Ricardo Mangas. No momento, Carlos Xistra viu ali um pé alçado demais e foi ao bolso buscar o vermelho. Mas, ao ver as imagens, não entendeu a falta tão dura assim, revertendo uma expulsão para um menos castigador amarelo.

Fast foward para o minuto 89: Benfica já empatou mas continua em desespero, pontaria desafinada e Beunardeau a defender tudo o resto. E apareceu então o homem que morreu aos 52’ e ressuscitou no minuto seguinte, salvo pelo vídeo. Bola na área, Vinicuis amortece e André Almeida está lá para o remate forte que dá o 2-1 aos encarnados e 3 pontos que pareciam, a certa altura, uma improbabilidade, num jogo que parecia, a certa altura, encaminhar-se para um final com, certinho como o destino, uma daquelas flash interviews em que alguém diz “podíamos estar aqui a noite toda que ela não entrava”.

PATRICIA DE MELO MOREIRA/Getty

Porque depois de sofrer aos 20 minutos um golo de Mohammadi que foi só o concretizar das dificuldades na transição defensiva que teve durante toda a 1.ª parte, o Benfica desatou a bombardear a baliza do Aves. No total, foram 36 remates, um recorde nesta edição da Liga, que foram terminando ora a centímetros do poste, ora nas mãos e na coragem de Beunardeau - foram pelo menos cinco as intervenções decisivas do guarda-redes francês do último classificado.

Com uma equipa que começou com várias novidades, a começar pelo alemão Weigl, que já mostrou um par de pormenores de classe, passando por Jota nas alas e Seferovic na frente de ataque, a verdade é que a vitória suada do Benfica só se começou a desenhar com a entrada de Vinicius e, mais tarde, de Franco Cervi, dois habituais titulares.

No marcador, o brasileiro não fez esquecer a falta de eficácia de Seferovic. Mas não é só de golos que vivem os homens fundamentais: é ele que sofre a falta que dá origem à grande penalidade com que o Benfica empatou o jogo, aos 76’, e é ele que, a jogar de costas para a baliza, faz a assistência para o golo de André Almeida, o homem ressuscitado.

E, com isto, o Benfica mantém-se na frente da tabela, num daqueles jogos que, convencionou dizer-se, só quem tem estrelinha (e, não sejamos injustos, paciência e força de vontade) consegue ganhar.