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Piurso estava Makaridze, piurso está agora o Benfica

Um jogo voltou a dar dois penáltis a Pizzi, ele falhou o terceiro em cinco dias e a equipa empatou (1-1) com o V. Setúbal, mas não foi, de todo, só por isso: o rendimento do Benfica está a diminuir a cada jogo. Quem é como quem diz, a lentidão e previsibilidade com bola e os maus posicionamentos e reações sem ela são problemas que se parecem estar a agravar, não a corrigir. E um certo guarda-redes não perdeu contra quem não queria mesmo perder

Diogo Pombo

RODRIGO ANTUNES/Lusa

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Não que estivesse irritado, era mais piurso, sem pazes feitas com o que, em janeiro, se passou para uma certa transferência não se passar, Giorgi lá o saberá. De todos os jogos possíveis, foi este que pessoalizou, a duas jornadas de distância, dizendo preferir perder as outras partidas que faltavam, desde que não perdesse contra a equipa campeã e com mais adeptos no país, mediatizando assim a questão.

Bola ao meio, um passe para trás, outro a seguir e o terceiro tipo a tocá-la no jogo, mesmo tendo-se desculpado, é quem menos continuaria a querer perder contra o Benfica. Uma aversão pessoal no meio de um coletivo mandatado por um espanhol (Júlio Velázquez), por certo, esperto e astuto e prudente, para montar um Vitória assim.

Uma equipa a construir curto, apoiado e pacientemente, muito usando o visado Makaridze para provocar vantagens nos números, mas, sem bola, a recuar a equipa para o seu meio campo, fechando os espaços entre as linhas e que se mexa o Benfica, tenha ele a iniciativa, ele que tente e arrisque e arrisque, tentando. São uma bola e um território envenenados: o Benfica tem de fazer o que o jargão chama de ataque posicional.

Precisamente, o que a equipa de Bruno Lage de forma lenta, previsível e sem movimentos de rasgo, não agora, há muito, porque já se sabe as tabelas que Pizzi tenta nas costas dos médios, as tabelas que, havendo Cervi, se tentarão com Grimaldo, os passes verticais que Taarabt tentará ao centro, a espera plantada que Vinícius, apesar dos muitos golos, sempre faz na área, perto dos centrais.

E, recuando e esperando, o Vitória é paciente na espera por bolas que recupere e use para sair rápido, com poucos passes, contra-atacando rumo ao espaço nas costas e na frente dos quatro defesas do Benfica. É o momento a que toda uma equipa, em março, continua a reagir passivamente, sem pressas a correr para trás e sem os jogadores nos sítios certos para prevenir saídas como a que acaba com Mansilla a cruzar e Zequinha a rematar, na área.

É, com a bola correr, o mais perto que alguém a faz de se aninhar na baliza. A segundos do intervalo, um canto de Pizzi e um desvio na cabeça de Samaris dão a Makaridze a sua quota-parte no evitamento mais desejado pelo georgiano, que impede um golo com uma patada. É, tudo somado e mastigado, um pobre jogo no geral e um jogo paupérrimo do Benfica, uma máquina em lento movimento, incapaz de inventar ataques que despertem este sono de previsibilidade.

Uma forma de o fazer é ligar jogadas ao primeiro toque, fixar a atenção dos adversários, provocar uma tabela com alguém que esteja nas costas e forçar situações em que o rácio de defesas para atacantes, na área, seja um para um. É o caminho que a bola faz até chegar Carlinhos e o brasileiro rematar o 1-0, no primeiro minuto pós-intervalo, no tipo de jogada de que o Benfica padece.

Cinco minutos depois, um penálti vindo do cotovelo de Semeda na cara de Rúben Dias pára a bola para Pizzi, e a habitual paradinha, empatarem o jogo e tocarem o hipotético despertador. Seguem-se uns 10 minutos em que o Benfica acelera as ações, pressiona mais quando perde bolas e vira umas tostadeira que ensanduicha o Vitória contra a área. Há um golo anulado a Vinícius, um remate de Chiquinho às mãos do guarda-redes, e, como um espasmo, as coisas retornam ao estado anterior.

O Vitória volta a ter as saídas rápidas, com chegada à área, à boleia de Mansillo e Zequinha. O Benfica lento e previsível é, outra vez, só a melhorando na velocidade que dá aos passes e nos ligeiros arrepios na espinha que terá provocado, nos adversários, quando entram os pés de Weigl para o meio campo e se deixa Taarabt receber mais bolas perto da linha defensiva sadina.

De novo, nada, porque a vida de Pizzi na área é ruinosa. Há um cruzamento rasteiro de Dyego Sousa e ele, de pé esquerdo, remata a bola por cima da barra. Há uma bola na mão de Artur Jorge e o quarto penálti em dois jogos para ele avançar, lentamente, parando a meio, esperando que o guarda-redes se mexa, nunca olhando para o objeto de remate, que bate para fora da baliza.

É o terceiro teste a 11 metros que falha em cinco dias.

Contribuiu, naturalmente, para o terceiro empate seguido do Benfica. Mas, sendo um imbróglio, é muito de Pizzi, diz respeito à particular técnica que usa para bater penáltis, que muito depende do que lhe vai na cabeça e da forma como a executa. Não é um berbicacho coletivo, visto nos 15 minutos que lhe sucederam, em que uma equipa urgia em buscar de um golo e mais parecia estar em pleno exercício de ter a bola por ter, sem ideias e capacidade de chegar à baliza.

Não mais o Benfica inventou algo que deixasse alguém rematar, não aparentou, sequer, ser capaz de ter ideias, quanto mais coordená-las, para ter jogadas com princípio e meio criativos que originassem um fim, um golo, contra um Vitória organizado e estável, sim, mas falível, logo pela forma como os jogadores cortavam e limpavam a bola, quase sempre para o centro do campo.

E, numa baliza, um ruivo georgiano, mesmo que não o demonstrando, deixou de estar piurso com uma hipótese que se desvaneceu. Makaridze conseguiu não perder, perdeu o Benfica quatro pontos em duas jornadas do campeonato, podendo perder a possibilidade de ultrapassar o FC Porto caso uma escorregadela se conjugasse com uma vitória.