Tribuna Expresso

Perfil

Benfica

Em teoria, a forma de Pizzi bater penáltis é a melhor. Mas “está a executá-la incorretamente”

Avançar para a bola e abrandar, repentinamente, no penúltimo passo, à espera que o guarda-redes se mexa antes do remate: assim faz Pizzi para marcar penáltis, assim falhou três dos últimos quatro (total de seis, no Benfica). Bartek Sylwestrzak, treinador de remates, reconhece um problema no capitão do Benfica

Diogo Pombo

Gualter Fatia

Partilhar

Pizzi corre para a bola num passo não muito acelerado. O ângulo de corrida é aberto. Mantém a velocidade constante até ao penúltimo passo e, quando prende o pé direito à relva, abranda a marcha, dá uma derradeira olhada ao guarda-redes, baixa a vista, focando-se na bola enquanto assenta o pé de apoio. Quando remata, tem o olhar na bola – não vê baliza.

O jogador do Benfica costuma bater penáltis de uma forma que, “potencialmente”, é a melhor, por “dar a quem remata o maior controlo possível sobre o resultado”.

Bartek Sylwestrzak é treinador de remates e reforça o “potencialmente”, pois, explica à Tribuna Expresso, é, também, “o método mais exigente de bater um penálti, tanto tecnicamente, como mentalmente”.

Em duas jornadas, Pizzi bateu quatro penáltis e falhou três. Não acertou na baliza em dois (um contra o Moreirense, outro frente ao Vitória) e os guarda-redes pararam os restantes. Contra o Gil Vicente, em setembro, também houve mãos a não deixarem entrar a bola num penálti.

Antes de plantar o penúltimo passo – a vulgar ‘paradinha’ –, Pizzi costuma dar entre cinco a sete passos. Varia, a abordagem não é certa. E o momento em que trava é o último vislumbre que tem da baliza e do guarda-redes.

O alvo nunca se moverá, mas, se o indivíduo das luvas se mexer, entretanto, Pizzi não perceberá. “Os elementos técnicos-chave estão a ser executados de forma incorreta”, resume o especialista polaco, que trabalha com o Gent, da Bélgica e o Midtjylland, da Dinamarca, que dá um exemplo de quem tem um fraquinho pela mesma técnica.

Agence Nice Presse

Mario Balotelli, em tempos, ficou 26 penáltis seguidos a marcar golo. Sempre aproximando-se lentamente da bola, a mesma abordagem: os braços imóveis, a desaceleração. Só que Balottelli travava apenas quando plantava o pé de apoio junto à bola, para rematar, sem a brusquidão de Pizzi, sem uma interrupção tão acentuada na abordagem à bola, sem dar tanto tempo à decisão do guarda-redes.

O destemperado italiano nunca desviava, ou desvia, o olhar do guarda-redes. Esconde o remate até à última e, quando o bate, está de cabeça levantada. Tem 37 penáltis convertidos, cinco falhados na carreira e nunca fixa a mira na bola. “Tornou-se popular ao mais alto nível no futebol. Contudo, muitos profissionais imitam essa forma de bater um penálti vendo-a de fora, sem entenderem os elementos que tem, no interior”, argumenta.

É o que Sylwestrzak suspeita em Pizzi: uma técnica de penálti para, supostamente, provocar movimento no guardião e forçá-lo a adivinhar, faz o português, entre o penúltimo e último passes, baixar o olhar e, assim, não reparar se, por acaso, quem está na baliza decidir esperar pelo exato momento do remate para decidir o que fazer. “O seu controlo do resultado é, aliás, muito limitado”, analisa.

PATRICIA DE MELO MOREIRA/Getty

Bartek entende, até, que “há muitos golos que se marcam, utilizando este método, que não são resultado de quem bate estar a controlar o que vai acontecer”, mas, antes, fruto de “aleatoriedade” - e, normalmente, “as pessoas nem se costumam aperceber”.

Eis o problema que atribui a Pizzi.

Reconhece-lhe problemas “que podem ser resolvidos”, precisam de “input técnico específico”. Pizzi “está a ter dificuldades em encontrar as soluções sozinho” com o momento em que o futebol se torna num duelo. “Os penáltis, apesar de toda a pesquisa, ainda são pouco compreendidos e os treinadores não possuem o conhecimento para ajudar os jogadores a trabalharem em problemas técnicos e mentais específicos”, lamenta Bartek Sylwestrzak.

Nem todos são, ou podem, ou querem ser, como um conterrâneo seu, Robert Lewandowski, que, durante a carreira, trabalhou na forma de bater penáltis e alterou-a. Com bom proveito.

  • É isto que faz um treinador de remates e livres: "Quero ajudar alguém a ser o equivalente ao Roger Federer no futebol"

    Entrevistas Tribuna

    Bartek Sylwestrzak é, pelas suas palavras, um ball striking coach. Trabalha com o Gent, da Bélgica e o Midtjylland, da Dinamarca, sempre com o mesmo objetivo: ensinar jogadores a bater a bola com várias técnicas, efeitos e gestos, e aprimorá-los. O polaco diz que Lionel Messi tem "uma técnica razoável, mas consistente", vê Cristiano Ronaldo a cometer "os mesmos erros e a ter dificuldades com os mesmos problemas há 15 anos", como "levantar a bola", e explica que Andrea Pirlo "demorou, talvez, quase uma década a aprender o que pode ser aprendido em meia época, ou num par de meses"