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“O que tem o voto de confiança do presidente a ver com Jesus? É normal o presidente ter relação com Jesus, por isso, pá, transparência”

Bruno Lage falou durante quase 35 minutos sobre o regresso da Liga, sobre o Tondela, sobre a sua continuidade no Benfica e também sobre o que aí vem. Defende as cinco substituições, deu moral a Jardel e a Florentino, garantiu que a equipa está com ritmo adequado para enfrentar o que falta, reconhecendo que no último mês, antes da paragem, os encarnados não estavam a jogar bem

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MIGUEL A. LOPES

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A paragem e o Tondela

“Ora boa tarde. É uma boa pergunta. Quer a paragem a meio do campeonato, o tempo de paragem... É muito maior do que aquilo que é normal entre uma época e outra. Depois, há o jogo, perspetivar o que o adversário pode fazer. E a questão de jogar na Luz sem os seus adeptos... Um estádio tão bonito sem os seus adeptos, falta a alma. Foram períodos de imenso trabalho, de todos, a preparar o regresso contra um adversário competente, que joga numa linha de cinco ou 4x3x3, com homens perigosos em transição. Nestes três meses, perspetivámos uma reentrada forte e fazer um grande jogo de acordo com a nossa qualidade e potencial.Simulámos, treinámos, fomos ao detalhe, para que os jogadores se sentissem preparados. Enquanto treinador, treinar uma equipa com esta massa humana e ir a jogo sem os adeptos... não há forma de nos preparar para isto. Falei com um senhor que me disse: ‘não vamos estar lá fisicamente, mas vamos estar lá de coração’”.

Foi benéfico?

“A paragem nunca poderia ser boa em nenhum aspecto. Sim, temos mais jogadores disponíveis, como o André Almeida e o Gabriel. Foi bom em termos pessoais, consegui privar diariamente com o meu filho durante dois meses, meses de contacto diário e aprendizagem. Foi o único ponto positivo. Agora, o resto... Quando pensámos que a doença não nos atingiria e de repente tens pessoas a morrer, países vizinhos com mais problemas do que nós. A paragem não foi boa para ninguém. Vínhamos de uma série de três jogos sem vencer e, depois do jogo com o Setúbal, senti que estávamos prontos para dar uma boa resposta. E depois, houve a paragem. Só posso falar do que aconteceu. É verdade que no último mês, antes da paragem, não estivemos ao nosso nível. Se foi benéfico ou não, não podemos ajuizar, só amanhã.”

Voto de confiança presidencial e Jesus

“O que é que uma coisa tem a ver com a outra? O voto de confiança do presidente com a renovação de Jorge Jesus com Flamengo? Você já dizia que o Jorge Jesus vinha substituir o Rui Vitória. Isso aconteceu? O que me interessa é ter o reconhecimento de quem trabalha comigo. A seguir, e quando vier outro depois de mim, tanto pode ser o Jorge Jesus como outro qualquer. Por isso é que não entendo a sua pergunta. Tenho um contrato de quatro anos. Vou contar-lhe uma pequena história: no Benfica, só não trabalhei nos infantis; a determinada altura, senti que, enquanto treinador, precisava de outro desafio para evoluir e fui falar com o presidente. Tinha contrato de mais três anos para cumprir, eu tinha pedido ao presidente para me ver como um jogador. ‘Tenho de sair, de viajar, quando entender que há um projeto para mim, eu volto para casa’. Acho normal o presidente ter esta relação com o Jorge Jesus, por isso, pá, transparência e normalidade.”

Dar passos atrás, não

“Não quero fazer o que alguns nos fazem a nós: dar opinião sobre coisas que não domino. Mas, pronto, não sei se o que vamos fazer é bom ou não [regressar à competição à porta fechada]. Mas imagine: voltamos com os jogos abertos ao público e depois temos de dar 10 passos atrás - quem é que toma essa decisão? Eu preferia jogar com público, com os nossos adeptos, mesmo apenas com um terço das pessoas lá. Mas isto é assim, é experimentar, dando passos seguros.”

As lesões e o tempo de paragem

“É uma pergunta interessante. Tentámos perspetivar isso fazendo jogos-treino. Fizemos jogos com dias muito curtos, tempos de descanso menores entre ambos, para testar. É que, depois de semanas de treino individualizado, se calhar era preciso mais um período de adaptação para o que é jogar futebol, jogando com chuteiras. Mas senti a equipa com ritmo muito interessante no último jogo-treino na Luz. Há 100 anos nem substituições havia, portanto esta discussão já vem de trás. De nenhuma para duas, de duas para três e agora fala-se em cinco. Eu acho que, tendo mais gente envolvida no banco, a tentar ter minutos, a dizer ‘estou presente e quero jogar’, seja um ala de 25 ou 26 anos ou um miúdo de 18 anos... Concordo com cinco substituições e ter três paragens.”

Os oito jovens da formação e Jardel

“É uma fórmula nossa: introduzir jovens que possam ser fortes na equipa principal. Têm feito um trabalho fantástico na equipa B, sub-23 e até juniores. São o presente e o futuro do Benfica, mas há algo que tem de ser transversal a todos eles - aquilo que define o jogador, o homem. Altos e baixos todos nós vamos ter. Quando cá cheguei há um ano, fiz essa reflexão e eu trouxe vários jogadores da equipa B. O nosso capitão, na altura, perdeu o lugar e o Jardel deve ser dos jogadores mais titulados do plantel - e perdeu o lugar por estar lesionado para um miúdo, mas nunca desistiu de trabalhar e treina com uma ambição enorme para ser titular e voltar a jogar. Essa é que é a mentalidade. O que aconteceu ao Renato Sanches e ao João Félix acontece, mas não acontece sempre. Se caímos, temos de nos levantar e é isso que nos define. Falo do Jardel como falo do Florentino, que esteve a jogar como titular, depois teve uma lesão e quando regressou não teve o mesmo rendimento - e contratámos um jogador para a sua posição. Mas ele continua a trabalhar como nunca.