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Já houve uma série pior do Benfica? Sim, no pior Benfica de sempre, em 2000-01

Foi uma temporada em que o Benfica teve dois presidentes, três treinadores e venceu apenas dois dos últimos 13 jogos. No final, um 6.º lugar da tabela, o pior da história dos encarnados. Caso não vença o Marítimo na próxima jornada, o Benfica de Bruno Lage iguala esta série negra

Lídia Paralta Gomes

Getty Images

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A derrota por 4-3 frente ao Santa Clara para a 28.ª jornada do campeonato é mais um capítulo na crise do Benfica que não é de hoje, mas que parece ter adensado no regresso do futebol pós-pandemia. Nos últimos 12 jogos, a começar na derrota por 3-2 frente ao FC Porto, na jornada 20 da I Liga, os encarnados só venceram dois. Pelo caminho, desperdiçaram um por um os 7 pontos de vantagem que tinham para o FC Porto antes do dérbi, ainda deixaram a equipa de Sérgio Conceição ganhar-lhes mais três e caíram na Liga Europa frente ao Shakhtar Donetsk.

A série é negra, é certo, mas ainda assim há pior. Há pior e no pior Benfica de sempre, na época 2000/01, em que os encarnados viveram uma mudança de direção, duas trocas de treinador e uma reta final de campeonato que foi um verdadeiro descalabro: nos últimos 13 jogos da época, o Benfica só ganhou dois, com humilhantes derrotas pelo meio, como os 3-0 em casa do Gil Vicente ou a queda na Luz com o Alverca por 2-0.

No final, uma classificação que ainda hoje atormenta os benquistas: 6.º lugar.

O primeiro campeonato do novo milénio do Benfica é uma história de instabilidade na direção, de um plantel desequilibrado e de uma decisão administrativa que agora, à distância, pode muito bem ser considerado um dos maiores erros da história do clube.

Tudo começou com Jupp Heynckes no banco e Vale e Azevedo na presidência e um plantel onde jogadores como Pierre van Hooijdonk, avançado holandês contratado depois de representar o seu país no Euro 2000, o alemão Robert Enke, Carlos Marchena, futuro titular da seleção espanhola, ou Karel Poborsky, conviviam com reconhecidos flops encarnados, Abdel Sabry, Ivan Dudic, Roger, Alejandro Escalona ou Ricardo Rojas. A época arrancou com uma derrota frente ao FC Porto, nas Antas, por 2-0, com a contestação ao treinador alemão a aumentar de tom depois da derrota inesperada na 1.ª mão da Taça UEFA frente ao frágil Halmstads, da Suécia. Heynckes sairia à 4.ª jornada, depois de uma vitória arrancada a ferros com o Estrela da Amadora.

Em 12 jogos, o Benfica tem apenas duas vitórias

Em 12 jogos, o Benfica tem apenas duas vitórias

MANUEL DE ALMEIDA/POOL/EPA

Ao antigo treinador do Real Madrid sucedeu então um desconhecido, uma aposta de Vale e Azevedo, isto em plena campanha para as eleições do Benfica: um tal de José Mourinho, que os portugueses apenas se lembrariam como adjunto de Bobby Robson no Sporting, FC Porto e Barcelona, onde depois continuou com Louis van Gaal. Era a primeira experiência de Mourinho como técnico principal e logo num Benfica em crise, num clube em farrapos, fora da luta pelo título desde 1994.

A chegada de Mourinho não teve efeitos imediatos: na estreia perdeu com o futuro campeão Boavista e não conseguiu virar a eliminatória com o Halmstads para a Taça UEFA, mas a partir de novembro, já com Vale e Azevedo fora do Benfica, após a vitória de Manuel Vilarinho nas eleições, a equipa entrou numa das suas melhores fases, com quatro vitórias seguidas pela primeira vez na época, a última das quais frente ao Sporting por claros 3-0.

O que se seguiu a esse dérbi é uma das histórias mais contadas e revividas do futebol português: Vilarinho tinha prometido o regresso de Toni, os adeptos queriam Mourinho e Mourinho queria um voto de confiança e uma renovação de contrato da parte do presidente. Vilarinho foi pelo seu primeiro instinto, trouxe de novo Toni e sobre a carreira de José Mourinho nos anos seguintes não valerá a pena alongarmo-nos.

Toni começou bem, mas o encontro da 2.ª volta com o Boavista vira definitivamente o curso de uma estranha época para o Benfica. Uma vitória colocaria o Benfica na frente do campeonato mas no antigo Estádio da Luz acabou tudo a zeros. E daí até final foi o descalabro para os encarnados. Seguiram-se duas séries de três derrotas seguidas para o campeonato e um final anticlimático com dois empates, o último dos quais na última jornada, um atípico 4-4 com o Desp. Aves. E, contas feitas, apenas duas vitórias em 13 jogos e um 6.º lugar na tabela, atrás de Sp. Braga e U. Leiria.

Caso o Benfica não vença o Marítimo nos Barreiros na próxima jornada, esta série negra, num dos momentos mais complicados da história do clube, pode ser igualada. E no entretanto, o Benfica de Bruno Lage vai chegando a outros recordes negativos. A série de cinco jogos seguidos em casa sem vencer é, de acordo com dados do Zerozero, a segunda pior da história dos encarnados. Seca maior só em 1930/31, há quase 90 anos, quando o Benfica esteve sete jogos sem vencer em casa. Esta temporada, a última vitória na Luz aconteceu a 4 de fevereiro, para a Taça de Portugal, frente ao Famalicão, com o golo do triunfo a aparecer já bem para lá dos 90', por Gabriel.

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    Erros individuais e incapacidade de controlar com bola quando se vê a ganhar: é isto o Benfica do pós-pandemia. Depois de ter feito o mais complicado, virar um 1-2 para um 3-2, o Benfica mais uma vez não soube gerir uma vantagem e uma defesa em pânico deixou o Santa Clara partir a vitória (4-3) num jogo de loucos em que os encarnados somaram o 5.º jogo consecutivo sem vencer na Luz

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    Com a derrota do Benfica frente ao Santa Clara por 3-4, no Estádio da Luz, e a vitória do FC Porto, no Estádio do Dragão, contra o Boavista, por 4-0, a equipa dos "dragões" assegura o primeiro lugar do campeonato com uma vantagem de três pontos para as "águias". Numa análise aos dois jogos, António Ribeiro Cristóvão, comentador SIC, afirmou que a derrota dos encarnados "é perfeitamente aceitável" e "humilha o Benfica", acrescentando que as exibições da equipa mostram "alguma incapacidade de Bruno Lage". No que diz respeito ao FC Porto, Ribeiro Cristóvão considera que a vitória foi "justa" e que a equipa fica com uma vantagem importante para as jornadas que faltam disputar.