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Domingos Soares Oliveira: "Este ano investimos cerca de €60 milhões, admito que haja uma redução no investimento"

O CEO do Benfica explicou, em entrevista à BTV, por que razão é que o clube lançou um novo empréstimo obrigacionista de €35 milhões e explicou o que devem os adeptos esperar do pós-pandemia, particularmente no que diz respeito ao mercado de transferências. Domingos Soares Oliveira não falou, contudo, do chumbo do orçamento da nova época, por parte dos sócios

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João Lima

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Porquê um empréstimo obrigacionista agora?

"É uma das principais fontes de financiamento. É o 10º empréstimo obrigacionista que lançamos desde 2004. Reembolsámos sempre nas datas previstas. Este ano reembolsámos quase €75 milhões. Lançámos agora novo empréstimo de €35 milhões. Reduzimos o nosso endividamento mas vamos a mercado sempre que vejamos vantagens nesse processo."

Quais as motivações para o timing?

"Houve uma quebra de receitas, como é evidente. Conseguimos manter, como é público, todos os nossos compromissos, mas ainda havendo alguma incerteza para o futuro e querendo a Benfica SAD manter uma robustez significativa para honrar os compromissos, entendemos lançar o empréstimo. Não significa que haja problema de tesouraria, continuamos com uma posição sã. Não queremos é ter qualquer surpresa até ao final do ano. É muito mais preventivo. Temos uma situação de caixa muito mais forte do que há um ano ou dois. Em condições normais nem precisaríamos de ir ao mercado. Esta é a primeira emissão de obrigações após a paragem de atividades pela pandemia e é um sinal de confiança por parte dos bancos no Benfica."

O regresso das competições europeias na nova época

"Provavelmente as notícias que teremos serão positivas, já há uma abertura de fronteiras quase generalizada. Acho que não vamos regredir desse ponto de vista. Não diria que as competições europeias serão uma certeza, mas as reuniões apontam para isso. Mas tenho algumas dúvidas do ponto de vista da retoma dos estádios. Este ano perdemos €5 milhões por não ter público. É cerca de €1 milhão por jogo, se isto se mantiver para o ano. Do ponto de vista do mercado, o Transfermarkt aponta que o valor dos plantéis pode baixar 15 a 20%. Não conheço muitos clubes que tenham a situção que nós temos neste momento. 15 a 20% recupera-se rapidamente. O facto de termos conseguido retomar o campeonato foi bom para os parceiros televisivos, no nosso caso da NOS, já cobrámos a primeira prestação da época 2020/21 e essas são as boas notícias. Há algumas dúvidas e diria que a principal é quando teremos pessoas de volta ao estádio."

Resposta ao empréstimo obrigacionista

"Temos tido sempre procuras muito elevadas. A última emissão em maio de 2019 teve uma procura de quase três vezes mais. É natural que as pessoas agora tenham uma postura mais conservadora, mas efetivamente o dinheiro no banco não rende, portanto as pessoas têm de aplicar o seu dinheiro. É uma taxa de juro interessante, de 4% brutos. É atrativa para os investidores. Não há nenhuma emissão isenta de risco mas o Benfica nunca falhou e isso transmite confiança ao investidor."

Endividamento do grupo

"Vamos terminar o nosso exercício daqui a três dias, a 30 de junho. O exercício vai ser bom, porque tivemos uma venda absolutamente extraordinária, que foi a do João Félix, que não é expectável que se repita. As pessoas têm de entender que serão resultados excecionais, influenciados por isso. O endividamento será inferior a €100 milhões, é a primeira vez que acontece. Como grupo, faturamos cerca de €300 milhões. Temos um endividamento que é cerca de um terço da nossa faturação. Os números são esses e não há forma de escamoteá-los."

Pagamento da NOS

"Quando assinámos contrato com a NOS, nunca alguám imaginava que seria possível assinar um contrato por €400 milhões. Não utilizamos o contrato para pagar despesa corrente, foi para reduzir a dívida. Se eu mantiver os recibimentos que tenho no contrato e o endividamento, estou a pagar juros. É simples fazer as contas. Fizemos um desconto de cerca de €160 milhões. As pessoas falaram, um advogado e um jornalista, um professor universitário... As pessoas que são benfiquistas têm uma análise que tem de ser mais rigorosa. As que não são, têm uma análise... Não vou dizer mais tendenciosa, mas... Tenho um amigo que é escritor e comentador do FC Porto e já o confrontei com "isto que está escrito não é verdade". E ele dizia-me: "Eu sou independente mas não sou isento". Compreendo que as pessoas possam ter uma análise menos clara à situação mas insisto que isto é só para reduzir endividamento."

Mercado do futebol após a pandemia

"Há muita atividade que ainda está muito impactada. Tudo o que tenha a ver com merchandising. Na quotização estamos estáveis, foi uma agradável surpresa e foi importante. O que se passa do ponto de vista de bilhética é muito impactante. E tem mais impacto para o Benfica do que para os rivais, devido ao tamanho do palco. O impacto de transações será moderado, haverá transações por montantes mais baixos, mas haverá transações. Obviamente todos vão ter de contrair algumas coisas mas não antevejo uma crise irrecuperável. O primeiro grande sinal era o retomar as competições. França, Bélgica e Holanda já não retomaram a competição e o impacto foi muito grande, porque os operadores não pagaram. Em Espanha, Itália, Alemanha há um certo respirar."

Maior valor para os operadores por só se poder ver os jogos na televisão

"Os operadores tomaram uma decisão de elevado risco e responsabilidade, pela positiva, que foi zerar o valor das subscrições na pandemia. Quanto muito teriam receitas de publicidade mas não vivem disso. Lancei o desafio aos operadores e disse que o maior problema que existe em Portugal é a pirataria. Os níveis de pirataria em Portugal são anormais, muito mais altos do que em Espanha. Os operadores poderiam ter regressado a um valor mais baixo de subscrição. Porque é que €9,90 é o valor da BTV? Porque é um valor em que não é preciso pensar muito. Mas vários valores juntos... Se o valor baixasse, poderia haver um aumento de subscrições. É apenas a minha teoria. Mas não foi isso que foi seguido. A subscrição em Espanha é muito mais barata do que em Portugal. Acho que foi uma oportunidade perdida em Portugal."

A época 2020/21

"Não temos expectativas de grandes encaixes com jogadores, nem é o nosso principal objetivo. Queremos reter os melhores jogadores. Não há necessidade de andar a vender os nossos jogadores, muito menos por preços que não sejam de mercado. Provavelmente haverá uma travagem em termos de investimento, admito que haja uma redução, este ano investimos cerca de €60 milhões. É verdade que hoje em dia os jogadores podem estar mais baratos até. Queremos continuar a investir mas de forma ligeiramente adaptada, com segurança e com a certeza de que teremos uma equipa bastante competitiva."

Orçamento do Benfica chumbado em Assembleia Geral

Em Assembleia Geral realizada esta sexta-feira à noite, os sócios do Benfica chumbaram o orçamento apresentado: 48,28% dos votos foram contra, 47,79% a favor e 3,93% abstiveram-se