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Se és alemão, espanhol, argentino, português, jovem, menos jovem, desempregado ou a trabalhar, é provável que sejas “apontado” ao Benfica

Sampaoli, antigo selecionador da Argentina, é o último nome a ter sido contactado por Luís Filipe Vieira para substituir Bruno Lage que até terá saído do Benfica empurrado pelo presidente. Nesta lista, cabem também Pochettino, outro argentino, o espanhol Emery, o alemão Nagelsmann, e os portugueses Marco Silva, Leonardo Jardim e - o preferido do presidente - Jorge Jesus. Os critérios para a escolha parecem extraordinariamente largos, mas normalmente é assim mesmo

Pedro Candeias

Carlos Rodrigues

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Dizem os jornais, e o Benfica não os desmentiu, que Bruno Lage soube estar despedido pelas notificações do seu smartphone quando já estava no aeroporto. Sentiu-se enganado: do lugar onde estava, pareceu-lhe que a conversa com Luís Filipe Vieira tinha começado com o empregado a colocar o lugar à disposição e acabado com o patrão a pedir um tempinho de reflexão. Certamente, e por mais desgastado que estivesse, Lage não teria inventado este diálogo na sua cabeça e verdade seja dita o presidente nunca afirmou que estava demitido na conferência de imprensa.

Lage foi então empurrado com uma pancadinha nas costas certamente mais vigorosa do a que recebeu de Vieira a caminho do autocarro, após o jogo da Madeira, quando o Estado-Maior encarnado, em peso e em passo de marcha, nos quis fazer crer que as partes tinham racionalmente chegado à mesma conclusão. Não foi assim que sucedeu e por isso as negociações para a rescisão complicaram: Vieira, que foi esperando que Lage saísse pelo próprio pé até não o aguentar mais, vai continuar a pagar-lhe o salário enquanto não arranjar clube – e se o próximo empregador for menos generoso, o Benfica cobrirá a diferença.

Desfeito o casamento com o treinador certo, no lugar certo e no projeto ideal (o segundo, depois de Rui Vitória), Luís Filipe Vieira quis resgatar imediatamente Jorge Jesus, o seu relacionamento mais longo. Só que o português radicado no Brasil deu-lhe nega, pouco interessado em assumir uma equipa deprimida, num final de campeonato também ele deprimente; por outro lado, Jesus argumentou que devia lealdade ao Flamengo e a um par de jogadores que se recusaram a sair do clube apenas e só por causa dele.

E depois disto veio o dilúvio de presumíveis candidatos ao lugar de Bruno Lage, que por agora é do seu ex-adjunto Veríssimo. Os nomes de Marco Silva (desempregado) e Leonardo Jardim (desempregado) foram os primeiros a ser lançados, seguindo-se Unai Emery (sem clube) e Pochettino (idem); também Nagelsmann (RB Leipizig) e Sampaoli (Atlético Mineiro) foram, vá, “apontados” ao Benfica, compondo-se assim uma das listas mais diversificadas e inclusivas de que há memória. Cabem lá todos, alemães, espanhóis, argentinos, portugueses, jovens, menos jovens, desempregados ou em funções. Um por um, estes treinadores foram alvos de – outra expressão futebolística – “contactos exploratórios” que rejeitaram ou receberam com agrado ou ainda se está por saber o que vão achar de tudo isto. Do futebol português e do suposto projeto europeu do Benfica.

Ora, se por um lado o Benfica tem toda a legitimidade para atirar alto, por outro lado não é certo que todos estes senhores tenham sido realmente abordados ou até abordados com interesse real. Sabe-se que Vieira, entre estrangeiros e portugueses, prefere estes últimos e é possível que esteja apenas a ganhar tempo para ver o que acontece com Jorge Jesus do outro lado do Atlântico antes da decisão final. Mas os péssimos resultados desportivos, a agonia dos jogadores, o fantasma de uma oposição crescente e credível a pairar-lhe sobre a cabeça - e a provável acusação na “Operação Lex” por recebimento indevido de vantagem - estão a deixá-lo desassossegado. E, quando isto acontece, e já aconteceu antes, Vieira costuma responder despejando dinheiro para assim chegar ao coração dos sócios.