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Benfica. Chamavam-lhe “Capitão” e nunca deixaram de o tratar assim: Veríssimo, o rapaz “certinho” que não gostava de levar cuecas

Quem é, afinal, Nélson Veríssimo, escolhido por Luís Filipe Vieira para treinador do Benfica até ao final da temporada, depois da saída de Bruno Lage. A Tribuna Expresso foi ouvir quatro ex-colegas do homem que tem agora a missão de estancar a agonia dos adeptos encarnados. Todos eles elogiam o antigo central de quem “é impossível não gostar”

Hugo Tavares da Silva

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Parece que esteve sempre ali e, ao mesmo tempo, que sabemos tão pouco sobre ele. Nélson Veríssimo, que tem qualquer coisa como 15 anos de Benfica, é o homem que, após saída de Bruno Lage, vai manter a bola no ar até ao final da época, aliviando a tensão que se viveu nos últimos tempos e estancando o jorrar desenfreado da agonia que se adivinha.

A correção é inegociável; a exigência, idem. Pelo menos é isso, entre outras virtudes, que revelam as conversas da Tribuna Expresso com quatro ex-companheiros do atual treinador do Benfica. “É um capitão”, repetem-se.

Sousa, que jogava pela direita, cruzou-se com Veríssimo na formação dos encarnados. “Ele é um ano mais velho do que eu. Sempre foi um capitão de equipa. Tem uma capacidade de liderança interessante, até pela forma de estar”, começa a contar. “O Veríssimo sempre foi aquele tipo de jogador muito certinho, nunca fugia daquilo que era o correto e certo, por isso era um dos capitães. Ele era júnior de primeiro ano e era capitão de equipa dos juniores.” A postura seduzia: era dedicado, profissional, queria muito. Era sério. Os elogios não conhecem travão. “Grande capacidade de liderança, forte de caráter. É boa pessoa, uma pessoa excelente.”

José Calado, que começou a jogar com Veríssimo na Luz em 95/96, assina por baixo, definindo-o como alguém “muito humano”. O médio tinha 22 anos, o central tinha 19, estava já no segundo ano de futebol sénior. “Desde muito jovem sempre foi uma pessoa extremamente racional, super profissional e um indivíduo muito estudioso. Era muito ligado aos estudos. Interessava-se por todos os aspetos do jogo. Surpreendeu algumas pessoas com a maturidade que já tinha com tão tenra idade. Ele já era competente tão jovem e com um espírito tão aberto e profissional que não me surpreendeu que tenha chegado a treinador do Benfica”, admite o ex-futebolista, agora comentador de televisão.

Voltando à formação, Tiago Lemos cruzou-se com Veríssimo durante muitos anos, embora, tal como Sousa, contando com menos um ano no BI. “Ele era o típico capitão. Muito responsável, muito sério, muito regular. Era assim dentro e fora do campo. Isto descreve o Veríssimo. Parecia sempre o mais velho, sabes? (risos). A malta com brincadeiras e palhaçadas e ele, no canto dele, tranquilo. Era muito trabalhador e muito responsável.”

Se depois do Benfica Tiago Lemos seguiu para o Estoril Praia, ou para o seu “Estorilinho”, como diz carinhosamente, Veríssimo deu continuidade à carreira no Alverca, por empréstimo. Alguns anos depois regressou definitivamente àquele emblema, onde subiu e desceu de divisão, e aí partilhou balneário com Rui Júnior, um lateral canhoto. “Era o capitão. Temos de lhe chamar ‘o capitão’, sempre o tratámos assim”, resume Júnior. “Como pessoa é espetacular, não tenhas dúvidas. Só vão dizer coisas boas dele. Era o primeiro a chegar e o último a sair da cabine, isso era garantido. Era sempre atencioso, também com os novos, recebia-os muito bem. Era muito, muito importante na estrutura do Alverca.”

Júnior, que se ia perdendo encontrando qualidades e mais qualidades sobre o homem que “era mesmo maluco por treinar”, lembrou-se de uma história num treino do clube do Ribatejo e não segurou a gargalhada. “Nos treinos não se podia facilitar nem um bocadinho. Não sei se te lembras do Rodolfo Lima… Há um treino em que o Rodolfo, que vinha de outra realidade, chega, dá-lhe uma cuequinha e começa a rir. O Veríssimo agarrou-o pelo cotovelo, chamou-o à parte e disse: ‘É a última vez que fazes isso, a próxima vez que te rires vais ver o que te acontece’”. E Júnior gargalha.

Se era assim como capitão e homem feito, como era aos 19 anos. Bola nos pés de Calado: “Era muito tranquilo. Ao início era muito estudioso, muito ligado aos estudos, porque era o tipo de jogador que tinha noção que se no futebol não houvesse futuro ia agarrar-se aos estudos. Tinha muita maturidade. Soltou-se e ganhou confiança, toda a gente gostava dele. Era difícil não gostar dele. Trabalha bem, bom profissional, respeita os companheiros, é simpático, sabe estar, bem educado… É impossível não gostarem dele. Por isso os mais velhos gostavam dele."

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E lá dentro, como era este defesa? “Era regular. Não fazia aquelas exibições por aí além, mas era muito seguro, defendia bem. Como pessoa e como jogador era muito fiável”, resume Tiago Lemos. Sousa, o outro companheiro da formação do Benfica, dá uma ajuda: “Era muito certinho, raramente ou dificilmente cometia erros graves. Tinha a cabeça levantada, não complicava, jogava bem. Era rápido quanto baste. Pautava pela seriedade. Os treinadores confiavam nele, tinha personalidade forte. Não fazia grandes exibições e não fazia exibições fracas, a bitola era média-alta, o que lhe permitiu fazer carreira de primeira liga”.

Calado lembra alguém que não era muito duro e que sabia as suas limitações dentro de campo. “Gostava de jogar o jogo pelo jogo. Era rápido. Tinha a escola do Benfica, de sair a jogar, sempre muito leal com os adversários”. Já Júnior recorda a velocidade e a agressividade do antigo companheiro. “Quanto tinha indicações como ‘este jogador não joga hoje’, não jogava mesmo. O Veríssimo, além de dar aquilo que tem e mais, tinha uma coisa muito boa: respeitava sempre o adversário e isso levava-o a cometer menos erros do que os outros, mantinha o nível.”

O canhoto ex-Alverca conta ainda que há pouco tempo regressou ao clube e por lá viu fotografias do agora treinador do Benfica, até “no autocarro dos miúdos”. Ou seja, “é uma pessoa que ficou, deixou a marca dele”. E no futebol português também: 221 jogos na Primeira Divisão e 149 na Segunda Divisão, pode ler-se neste artigo do “Diário de Notícias” que conta a história do “sexto bombeiro de serviço da história do Benfica”. A estreia no futebol profissional, magicada por Mário Wilson, aconteceu num SLB-Chaves, a 9 de março de 96, numa defesa a quatro com Ricardo Gomes, Hélder e Kenedy. À frente estavam Bruno Caires, Iliev, Dimas, Valdo, Marcelo e João Pinto. Os dois últimos inventaram o 2-0.

E agora, o banco do Benfica. Depois da vitória com o Boavista na estreia, segue-se o Famalicão longe de casa (hoje, 21h30). Este treinador, natural de Vila Franca de Xira, começou a saber o que era competir com o FC Porto no futebol profissional em março de 96, na Luz, substituindo perto do fim José Calado. Quase 25 anos depois, quando se adivinha o título do FCP, Nélson Veríssimo tem a missão de apagar fogos, barrar com mel as ligações entre os homens e mulheres daquele clube e serenar a angústia dos adeptos. O objetivo é, portanto, fechar bem a temporada.

“É uma pessoa muito recta, muito séria”, garante Calado. “E ainda bem que está a ter esta oportunidade para mostrar o seu valor. Deve estar a cumprir um sonho ao estar a treinar a equipa principal do Benfica. Deve estar super satisfeito a aproveitar o momento.” Júnior diz que se cheirava à distância que era um líder a sério. "Ao fim de três dias, via-se logo que era um líder. Tinha muito boa ligação, no Alverca, com o treinador, jogadores e presidente. Não era um grupo fácil, mas ele conseguiu sempre gerir da melhor maneira."

Sousa vê a decisão de Luís Filipe Vieira, um ex-presidente do Alverca que partilhou esta vida e o metro quadrado com Veríssimo, com otimismo, mas deixa um aviso: “Ser bom treinador e boa pessoa são coisas distintas. Às vezes, um treinador não pode ser muito boa pessoa, no sentido de ser amigo, preocupado… tem de o fazer mas sempre com grande capacidade de liderança, para os jogadores saberem quem manda. O Veríssimo tem isso. Nunca assumiu o papel de treinador principal porque, julgo, se sente bem como adjunto. Se ele tiver de terminar a temporada, tem qualidade e conhecimento para o fazer. Acaba por ser um treinador que viveu o Benfica muito, muito tempo, durante todo o processo de formação. Tem muitos anos de Benfica, quer como jogador quer como treinador. Sabe o que é a mística, o que é o balneário…”