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Jorge Jesus: "Claro que quero o Cavani, quem não quer? Tem haver uma engenharia financeira e o presidente é muito forte nisso"

Na primeira entrevista enquanto treinador do Benfica (novamente), à BTV, Jorge Jesus falou sobre os reforços, sobre os rivais e sobre as aspirações da equipa para 2020/21

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ANTÓNIO COTRIM

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O plantel

"É com grande prazer e satisfação que vamos começar a época com um novo elenco [plantel]. Normalmente quando começo a pré-época não vou logo com o plantel determinado. Gosto de nas duas primeiras semanas conhecer melhor os jogadores, porque uma coisa é conheceres de fora e outra é conheceres por dentro. Há jogadores que vão começar a época e ainda não chegaram e há uns que vão começar a pré-época e depois não vão começar a época. Não tenho receio de assumir e falar com os jogadores."

Dispensas

"Há já alguns nomes, como é óbvio, que já tenho na cabeça, face às posições e à quantidade de jogadores e ao historial que tiveram durante a época no Benfica. Já tenho decisões tomadas mas ainda são jogadores do Benfica."

Dimensão do plantel

"No Brasil fiz 80 e poucos jogos. O número do plantel, não sendo exato, terá 25 jogadores, não contando com os três guarda-redes. Sãoo mais do que dois jogadores por posição porque tens varias competições e queres tentar ganhar todas. Não queremos baixar nem a intensidade nem a qualidade."

Polivalência

"Há lugares específicos que não dá, um keeper tem de ser sempre keeper. Mas há outros lugares em que tens de ser polivalente, acho que isso é o futuro do futebol, o jogador tem de conhecer mais do que uma posição."

Os sistemas de jogo

"Já fazia isso no Flamengo, usávamos diferentes sistemas dentro do próprio jogo. As cinco substituições também te vão permitir mudar mais. Mas, para mudar, a equipa já tem de estar trabalhada nisso."

Número de reforços

"Sim, serão 9 ou 10 reforços, não contando com Leite e Pedrinho, que já estavam contratados. O Gilberto já está, o Cebolinha não está ainda completamente certo. Serão mais uns 6, 7 reforços."

Menor qualidade dos jogadores estrangeiros em Portugal

"Portugal é um país vendedor de jogadores, por isso é que tem de continuar a formar jogadores. Nós equivocamo-nos às vezes na palavra formação. Podem pensar que é uma equipa competitiva só feita na formação do clube, isso não existe em lado nenhum no mundo. Podes formar jogadores que vêm de fora. João Félix não há muitos, Cristianos Ronaldos, da formação do rival, também não. O importante para mim é saber formar e o Benfica ter a prospeção, para fazermos uma junção entre formação e prospeção, para dar rentabilidade e poder à equipa. Se olhares para os nomes sonantes que tivemos, Aimar, Matic, David Luiz, Di Maria, tantos que até me esqueço. Olhamos para o nosso rival, sem rodeios de falar do que é o futebol, o Porto deixou de ter Hulk, James... Somos um país vendedor não só do que é nacional, mas também de quem não é nacional. Não são da formação mas crescem no Benfica. Esse é o caminho. O que é importante é a qualidade do jogador, não conta se tem 17 ou 37 anos. O Reinier, 17 anos, fui buscar à formação do Flamengo e foi vendido para o Real Madri por 30 milhões de euros."

A formação

"Vou-me repetir: todos os clubes têm de se preocupar com a formação porque é uma das formas de criar ativos. Mas isso não dá sustento desportivo dos objetivos que queres para uma grande equipa. Não existe nenhuma equipa do mundo que viva da sua formação. Se quisermos ser claros, quantos jogadores da formação são titulares? Um, o Rúben [Dias]. Agora, não deixa de haver miúdos com valor, que temos de trabalhar. Podem ser soluções futuras. O que os adeptos do Benfica querem é ganhar, seja com meninos, com não meninos, se é branco, se é preto, o que interessa é ter bons jogadores. Na equipa de onde vim só havia um estrangeiro, o resto era tudo brasileiros. Os jovens estão identificados, as pessoas responsáveis do Benfica conheciam-nos melhor do que eu."

Diogo Gonçalves

"É um jogador formado no Benfica, pedi para fazer a pré-época porque quero conhecê-lo melhor."

Helton Leite

"Não o conheço muito bem. O Odysseas conheço porque vi mais jogos do Benfica, davam no Brasil. O Boavista não dava. O que queremos é ter mais do que um bom goleiro [guarda-redes]."

Gilberto

"Tentei contratar para o Flamengo, não consegui, não chegaram a acordo. Tecnicamente é um jogador evoluído mas não é alguém que possa à primeira ideia ter qualidade técnica superior. É muito competitivo, sempre muito forte nos 90 minutos. É um jogador que faz golo, que é melhor ofensivamente. Ele e o André Almeida vão disputar a titularidade e vai haver espaço para todos jogarem."

Reforços para a defesa

"Procuramos mais dois jogadores para preencher a defesa. Achamos que o Benfica precisa de ter jogadores aí com algum peso e poder, não sá desportivo mas técnico, para poder ajudar os mais jovens, como o Tavares, o Rúben, o Ferro. No Flamengo tinha cinco titulares com mais de 30 anos e isso é fundamental nas decisões e na forma como os mais novos ganham valores."

Luisão como diretor

"Falei com o presidente e com o Rui [Costa] e com o Tiago [Pinto] e incorporámos o Luisão para passar valores a estes jogadores do Benfica, para perceberem que o Benfica é um grande clube. E não chega só perceberem, têm de demonstrá-lo."

A posição de Pizzi

"Os adeptos do Benfica sabem melhor do que eu mas o Pizzi se não foi o melhor jogador do Benfica esta época foi o segundo melhor. Para um jogador que joga naquela posição é um número muito significativo. Penso que ele pode fazer as duas posições. Ele este ano foi um goleador, normalmente é um jogador de último passe e estes jogadores são jogadores de corredor central. vamos ver o que é melhor para a equipa."

Pedrinho

"O que eu quis dizer sobre o Pedrinho foi que se contratasse um jogador para o imediato, havia outros jogadores com mais experiência, como o Cebolinha. O Pedrinho, joguei duas vezes contra ele, é um jogador jovem com talento, tem de ser trabalhado. Por exemplo, o Cebolinha ou o Dudu são jogadores que já não deixam dúvidas. O Pedrinho é um miúdo com muito talento e vamos ajudá-lo a ser melhor."

O telefonema de Jesus para Cebolinha, denunciado por Renato Gaúcho

"É verdade que liguei para o jogador, por ser um dos alvos importantes para o Benfica. Não só pela qualidade que tem, é um jogador titular na seleção do Brasil. Sabia que ele tinha também uma equipa alemã interessada, procurei falar com ele para convencê-lo a vir para o Benfica, porque o Benfica tem um projeto não só nacional mas europeu, para atacar não só a Champions mas todas as outras competições da calendarização europeia. Nunca disse para ele não jogar, ele é testemunha disso. Ainda fiquei muito mais satisfeito com a atitude dele, ele disse ao treinador que queria jogar a final. Isto já me aconteceu no Benfica e vou dizer quem foi. Quando há estas grandes transferências os clubes não querem que o jogador se lesione e defendem-no assim. Ele até fez um grande golo, foi o Matic, quando houve possibilidade de ele ir para o Chelsea. Foi o jogo 2-2 com o Porto, ele faz um grande golo. Havia medo das duas direções sobre ele jogar, para o negocio não abortar. Mas o Matic veio ter comigo e disse que queria jogar."

O treinador brasileiro Renato Gaúcho

"Claro que não morre de amores por mim. Em quatro jogos perdeu três. Faz parte da nossa vida como treinadores. O Grémio é uma das grandes equipas do Brasil. O Cebolinha vai valorizar-se ainda mais no campeonato português."

Aurelien Meunier - PSG

Cavani no Benfica?

"O Cavani é outra história, não precisa que o Jorge Jesus ligue para ele. Deve ter várias possibilidades de mercado e deve estar a pensar qual é a melhor opção para ele. Não pedi o Cavani, já se falava no Cavani. Agora, se me perguntares: claro que quero o Cavani, quem não quer? Em Portugal temos alguma dificuldade em competir com as equipas financeiramente. Nós só não ganhamos Champions em Portugal porque os nossos melhores jogadores são vendidos. Gostava de ter o Cavani. Quem é que não gostava? Financeiramente não é fácil, tem haver uma engenharia financeira e o presidente é muito forte nisso. o presidente está a fazer tudo para que isso possa acontecer. Tem de se dar mérito a direção pela saúde financeira. Claro que todos queríamos que o Benfica desportivamente não perdesse a hegemonia, porque ganhámos a hegemonia nos meus seis anos e queremos voltar a recuperá-la. E recuperar a identidade do Benfica na Europa."

João Félix

"Vai ser um dos melhores do mundo. O prazer de jogar tem de ser maior do que todos os outros prazeres que os jogadores possam ter. O Ronaldo é um símbolo nisso."

Os jogadores do Flamengo

"Sou um bocadinho tendencioso... onde é que colocas a equipa do Flamengo no mundo? Na América é a melhor de todas. No mundo, entre as três melhores equipas do mundo, onde estão Bayern, City, Liverpool... Fomos à final com o Liverpool, uma equipa que é a melhor do mundo atualmente e não vi diferença nenhuma no prolongamento, só o termos mais 40 jogos do que eles. O Flamengo tem grandes jogadores. Sou grato às pessoas que me amaram. Saí e não foi fácil para mim. Não quero mexer mais nisso. Não pedi nenhum jogador do Flamengo ao presidente do Benfica."

O Benfica vai jogar o triplo?

"Se o Benfica este ano não ganhou nenhuma competição, se queremos ganhar, temos de ser muito melhores. Portanto duplicar não chega, tem de ser a triplicar. O arrasar vem de uma certeza que vamos construir uma grande equipa para podermos arrasar. É uma equipa que joga para arrasar, com sentido de baliza, de golo, que pode arrasar o adversário."

Equipa preparada para começar a época na pré-eliminatória da Champions

"A voar não vai estar, com um mês de trabalho não dá, mas tens 4 ou 5 semanas para pôr a equipa a voar o máximo possível naquilo que são estas 4 semanas. O primeiro jogo é logo Champions. Devia haver cuidado na calendarização do futebol português, porque não há campeonato antes. Esta calendarização não foi pensada no interesse do futebol português. Por causa da pandemia? Mas qual pandemia? Férias de quê? Os jogadores já estiveram três meses sem treinar. O interesse aqui é dos clubes e do futebol português."

Poucas férias para os jogadores

"Não é problema. Estiveram muito tempo em casa e ficaram com a cabeça muito limpa. Todos estivemos em casa dois meses e tal sem treinar. O único problema na cabeça foi a covid. Neste momento já não é porque já sabemos que temos de viver com o vírus. O final da época foram 10 jogos, não foram 30. Foram 2 meses em casa e 10 jogos para acabar o campeonato. Qual é o problema de começar a trabalhar logo uma semana depois? Não tem problema nenhum. Tem a ver com os objetivos que temos. Não tínhamos outra hipótese. Penso que esse problema nem se coloca na cabeça dos jogadores. Vão entrar a partir de segunda-feira com uma força muito grande."

Pré-época em pandemia

"Tudo mudou no mundo, nas nossas vidas, até os jogos particulares são mais difíceis de realizar, tens de fazer testes de covid. Repara a engenharia logística para treinar isto. Mas o Benfica tem uma estrutura e capacidades muito boas para realizar os testes e os jogos."

Ganhar a Champions no Benfica?

"Já tive uma opinião diferente, achava que era difícil, porque os melhores jogadores saem, nunca consegues ter uma grande equipa para poder disputar. Este ano apareceu o Liverpool mas não difere muito, Barcelona, Real... Mas agora se calhar já não há aqui tantos tubarões. Até essas grandes equipas já não estão tão fortes, as equipas estão mais equilibradas."

Como vai conquistar os adeptos?

"Como conquistei quando vim para o Benfica: com resultados. Olham para mim como treinador e o que fizemos no Benfica acho que está marcado pela positiva. Não podem ter nenhum problema comigo porque mudei para o rival, para o Sporting. Isso faz parte da minha profissão. Amanhã vou sair do Benfica para outro clube, não sou treinador de um clube, sou treinador de futebol, é a vida de treinador."

'Guerra' entre Benfica e JJ quando saiu

"O futebol são ciclos. As pessoas na altura achavam que o meu ciclo tinha acabado, acabou. É normal, o futebol é isto. Cada um parte para um novo projeto. O presidente do Benfica agora achou que o ciclo acabou e o novo ciclo passa por me contratar. As pessoas não podem ficar melindradas por tomar decisões. Estava num clube que é cinco vezes mais do que Portugal, com 50 milhões de adeptos que me adoravam. Nunca estive num estádio com 70 mil pessoas todos os jogos a gritar pelo nome, nem vou estar mais, só se voltar para lá. A minha decisão não foi fácil. Só havia uma pessoa que me podia convencer: chama-se Filipe... Luís Filipe Vieira. Nunca tive nenhuma afirmação que pussesse em causa o que tive no Benfica. Fui para o rival porque tenho de fazer as minhas funções de treinador. Sempre tive uma aproximação muito grande do presidente. Nunca houve nenhum presidente que entrasse dentro da minha casa, só o presidente do Benfica. Depois da minha saída, defendeu os interesse do Benfica e eu defendi os do Sporting."

Arrepende-se de algo que tenha dito?

"Não, porque só tentei defender a minha entidade patronal e o Benfica a mesma coisa. Não queria falar muito disso."

Acabar a carreira no Benfica

"Dificilmente vou acabar a carreira no Benfica. Tenho muito mais anos para treinar. Não sei o dia de amanhã. Posso acabar a carreira no Benfica, isso ninguém sabe. O presidente quis oferecer quatro anos de contrato, ficaámos com dois. Eu até só queria um, porque eu aceitei este desafio, queria voltar ao Benfica e a Portugal e porque o mundo mudou."

Treinar no estrangeiro

"Acho que me valorizei muito como treinador. Hoje olho para as coisas de uma maneira diferente. Até a minha passagem na Arábia Saudita me ensinou que tens de saber passa valores, além de seres treinador. Sempre fui um treinador que não se cala fora de campo. Mas na Arábia Saudita tive lá um diálogo com o árbitro e eu fui chamado pelas autoridades e disseram-me que tinha de ser uma referência do futebol saudita, senão ia para casa. Comecei a pensar que eles tinham razão. Não vale tudo para ganhar. No Brasil aprendi o que é ter paixão pelo futebol, amor pelo futebol. Isso fez de mim mais compreensivo e mais treinador."

Sérgio Conceição e Rúben Amorim, ex-jogadores de JJ

"Sei o que o Rúben quis dizer, está preparado para a guerra verbal porque em Portugal há uma guerra verbal muito intensa em relação aos interesses do futebol. Nós às vezes tiramos valor ao produto que é o futebol. O que é importante é que todos possamos defender os interesses das nossas equipas, eu, o Rúben e o Sérgio. Não vou fazer mind games entre treinadores, porque isso não ajuda a ganhar jogos e não valoriza o futebol."

O Braga

"Penso que o Braga está cada ano a dar passos para estar mais perto dos três grandes. Só não considero que esteja lá porque não tem a matéria humana que os outros têm. Mas em termos de estruturas e de jogadores isso está a acontecer. Penso que este ano o Braga vai tentar juntar-se mais aos três grandes."

Benfica anuncia a chegada de dois reforços

Helton Leite, guarda-redes, e Gilberto, lateral, vão reforçar a nova equipa de Jorge Jesus