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A Champions da canalhada fugiu, outra vez, à miudagem do Benfica

Os sub-19 do clube da Luz perderam (2-3) com o Real Madrid, na final da UEFA Youth League, em Nyon, onde falharam um penálti e até remataram uma bola à barra já nos descontos. É a terceira vez (2014 e 2017) que o Benfica é derrotado na decisão da Liga dos Campeões deste escalão

Diogo Pombo

Jonathan Moscrop/Getty

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A barba ainda não lhe passa dos flancos do queixo, feita rente, não vá a soltura denunciar o imberbe que é, nem o bigode, enfim, ainda não o ser, que Tomás Araújo, o central do lado direito, deixa de ser capaz, à primeira posse de bola calma, de trás, que o Benfica tem, de bater um passe tenso, rasteiro e na diagonal, ultrapassando duas linhas de adversários, para Umbaló receber a bola ao centro, longe da linha de onde fugiu e bem dentro do bloco dos outros.

É uma amostra, logo no arranque, da qualidade nos pés que executam e na cabeça que pensa - e quer jogar apoiado, curto e desde trás - da miudagem que, pela terceira vez esta década (2014 e 2017), estava na final da Liga dos Campeões dos pequeninos, um diminutivo cujo capuz serve apenas à idade de quem ali joga, porque em Tiago Dantas, Umbaló, Gonçalo Ramos ou Morato há potencial graúdo, por maturar.

Por crescer, por ser mais paciente, por ser mais apto a improvisar, a engenhar soluções para desembaraçar nós de problemas que sejam emaranhados pela estratégia do adversário, como o foram pela miudagem do Real Madrid, não menos talentosa, sim com mais peso simbólico na camisola branca que vestem, que pressionou alto a construção do Benfica e, se ultrapassados, juntou o extremo direito (Marvin Park) à linha defensiva.

Os cinco espanhóis lá atrás do encravaram os planos de todos os portugueses que jogavam de frente. Ao fim de 10 minutos, já poucas bolas úteis apanham o gadelhudo Tiago Araújo, sempre projetado na esquerda, e o Benfica não tinha os seus cruzamentos na área. Para ele esticar a sua posição, o algodão que não engana nos passes de Tiago Dantas ficava a pedir bola no espaço vagado pelo canhoto, na frente dos adversários, à vista, à mercê de ser controlado. Mais fácil de gerir.

E, nos gestos do pequeno capitão, que esbracejava, apontava e chamava os colegas, venham e apareçam e mexa-se e mostrem-se, viu-se como, por muita bola e passe trocado nos primeiros 70 metros de campo, o Benfica não conseguia, enquanto equipa, desmontar a organização e o plano do Real Madrid - porque o engenho individual não dava para os ultrapassar.

Cerrando bem os espaços na sua metade do campo, os espanhóis jogavam, sem bola, com o controlo dos espaços, pacientes e pacientados por Raúl González, um monstro no seu tempo de finais adultas de Champions, que parece ter treinado para esperarem pelas interceções certas e forçarem erros vindos da impaciência. Depois, contra-atacavam à boleia de Sergio Arribas, o provável mais diminuto dos jogadores em campo e o, por certo, mais desequilibrador.

No espanhol entregavam as jogadas, dele esperavam indicações para tabelarem e nele se criou o par de jogadas de quase golo antes de a ele, o melhor do Real Madrid, ser permitido que recebesse um lançamento lateral colado à área, com três do Benfica a assistirem, passivos como se isto fosse um jogo-treino com montanhas suíças no horizonte, enquanto Arribas se virava, cruzava e Pablo Fernández cabeceava o 1-0.

Depois, toda uma auto-estrada se deixou para ele correr até à área e o desespero de Henrique Jocú cortar para a própria baliza um passe do espanhol, errando após errar o passe que Marvin Park, o falso ala, adivinhou pela previsibilidade que, feito o intervalo, foi sacudida pelo 2-1, logo a abrir, quando Umbaló cruzou para Gonçalo Ramos, na recarga, esperançar a equipa por momentos.

Ou por um momento, porque, na jogada seguinte, Tiago Araújo amoleceu perante Marvin Park, que lhe bigodeou a bola, o ultrapassou com ela e a cruzou para Miguel Gutiérrez concluir o 3-1. Antes da hora de jogo, o jogo estava de esticões, transições rápidos que iam e vinham, a urgência dos novatos do Benfica a ser respondia pela pressa em aproveitá-la rapidamente pela sede dos do Real Madrid.

Os repelões no jogo aumentaram, os buracos de espaço surgiam mais vezes, as organizações estáveis das equipas eram afetadas. O Benfica ia com mais gente para a frente, aproximava mais jogadores à área, tentava e tentava e insistia, menos tino e mais verticalidade nas tentativas. Uma, vinda de um cruzamento rasteiro, fez um espanhol derrubar Henrique Araújo e um apito ouvir-se para penálti. Era a chance de ressuscitamento no pé direito de Tiago Dantas.

Mas ele falhou, como duas oportunidades logo nas jogadas seguintes foram falhadas, e o Benfica entrou numa série de falhanços contínuos, cada um mais longínquo da baliza que o anterior, cada investida a terminar antes do momento da finalização. Os jogadores eram atraiçoados pela pressa, Tiago Dantas já se colocava bem dentro do bloco do Real Madrid, já à espera de se desenvencilhar em espaços curtos, onde mais desequilibra. Mas já era tarde.

O Benfica já não era o conjunto aparentemente sem soluções, impotente, aquém de formas de superar o adversário em campo. Terminou o jogo como jogou na segunda parte: mais atrevido e arriscador, mais perigoso, a conseguir mover as peças do Real Madrid e a criar jogadas que fossem finalizadas, mesmo sem a organização pausada que quereria ter no jogo. Já nos descontos, Tiago Araújo ainda rematou uma bola à barra, à beira do fim do desespero que não lhes deu troco.

Pela terceira vez na década, uma geração de canalhada com menos de 19 anos do Benfica chegou à final da Liga dos Campeões da idade e perdeu. Foi a terceira fornada de talento e qualidade a chegar o mais longe possível e a ser derrotada na decisão da prova, que apenas teve sete edições.