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Sem conseguir empréstimo de adeptos, Benfica usou 28 milhões do Novo Banco

Pandemia obrigou SAD do Benfica a acionar linha de crédito aberta pelo Novo Banco em 2017

Diogo Cavaleiro e Pedro Candeias

Armando Franca

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No semestre em que arrancou a pandemia de covid-19, e em que tinha de reembolsar 48 milhões de euros aos detentores de obrigações, a SAD do Benfica teve de voltar a utilizar dinheiro da banca, de que se tem tentado afastar (e vice-versa). Com uma linha de crédito aberta em 2017, foi nos primeiros seis meses de 2020 que a sociedade presidida por Luís Filipe Vieira utilizou 28 milhões de euros emprestados pelo Novo Banco.

Entre janeiro e junho, em data não identificada, o Benfica obteve um empréstimo pedido ao Novo Banco de 28 milhões de euros, informação que consta do relatório e contas de julho de 2019 a junho de 2020, apresentado esta semana à Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM). Esse dado não constava de relatórios anteriores. Na época anterior estava referido que a Benfica SAD tinha “contratualizada uma linha de financiamento junto do Novo Banco no montante máximo de 30 milhões de euros”, mas que não tinha sido utilizada até àquela data.

À Tribuna Expresso, fonte oficial do SLB esclarece que este é o “único contrato de financiamento bancário atualmente existente entre o Novo Banco e esta sociedade” e que “foi contratado em Junho de 2017, decorrendo o mesmo da reestruturação e liquidação de contratos anteriores celebrados desde o exercício de 2008-09”.

Cobrir “necessidades de tesouraria”

Questionado sobre qual o motivo para acionar uma linha que existe há três anos, o Benfica não especifica: “Esta linha de financiamento é utilizada em função das necessidades de tesouraria de curto prazo da Benfica SAD. Ao longo dos exercícios a sua utilização tem variado desde zero até ao limite máximo utilizável, dependendo das necessidades pontuais existentes”.

A utilização ocorre nos primeiros meses de 2020, quando o novo coronavírus chegou a Portugal e obrigou a parar o país, prejudicando a obtenção de receitas de várias empresas, como as SAD dos clubes de futebol. E isto num momento em que a sociedade tinha dinheiro a devolver aos seus adeptos.

Em janeiro, ainda não se imaginava o impacto da covid-19, e a Benfica SAD decidiu reembolsar antecipadamente obrigações vendidas em 2018 a investidores, sobretudo adeptos, no montante de 25 milhões de euros (passando a ter apenas de devolver 20 milhões no próximo ano, a data de vencimento). Só que, em abril, havia mais dinheiro para dar aos investidores que tinham emprestado em 2017 através da subscrição destes produtos financeiros: 48 milhões de euros.

Covid mudou planos

No relatório e contas, a SAD admite que a covid-19 mudou os planos. Aquando do reembolso do empréstimo obrigacionista ‘Benfica SAD 2017-2020’ em abril de 2020, a sociedade pretendia emitir um novo empréstimo com algumas características diferentes dos que tinha emitido no passado e sempre com o objetivo de diminuir a sua exposição do mercado. Contudo, os efeitos da pandemia associada à covid-19, que nos meses de março e abril de 2020 ‘paralisaram’ o país e a sua economia, não permitiram que a Benfica SAD prosseguisse com a sua estratégia de financiamento”, inscreve o documento.

Mesmo assim, sem “a mínima possibilidade de emitir um novo empréstimo obrigacionista”, o Benfica conseguiu “cumprir com os seus compromissos perante os obrigacionistas que tinham confiado os seus investimentos na Benfica SAD, reembolsando-lhes os seus 48,4 milhões de euros”. À Tribuna Expresso, a fonte autorizada da SAD recusa que o dinheiro emprestado pelo Benfica tenha servido em parte para ajudar a saldar esta dívida: “a utilização da linha apenas depende das necessidades pontuais de tesouraria de curto prazo”.

O que é certo é que, neste contexto de pandemia, o Benfica teve de pedir dinheiro à banca, usando a tal linha de financiamento do banco detido pelos americanos da Lone Star, aumentando a exposição ao sector financeiro, que tem vindo a reduzir nos últimos anos (também porque muitos bancos quiseram – ou viram-se obrigados – a fechar a torneira ao futebol). O Benfica tem crédito da CGD e do Montepio, mas em montantes muito inferiores (1,2 e 5,9 milhões, respetivamente).

Só em julho o Benfica conseguiu ultrapassar a situação de tesouraria e emitiu uma nova emissão de obrigações, obtendo 50 milhões emprestados pelos adeptos e investidores que subscreveram o produto financeiro.

O Benfica não revela nem a taxa de juro nem a data em que tem de devolver este dinheiro emprestado pelo Novo Banco – que foi acionista da SAD até 2017, quando vendeu a sua posição ao sócio de Luís Filipe Vieira, José António dos Santos, conhecido por rei dos frangos. Este dinheiro surge na rubrica de empréstimos obtidos correntes, que normalmente tem um prazo inferior a 12 meses. A mesma fonte oficial do Benfica diz que “não está previsto contrair qualquer novo financiamento bancário” para conseguir reembolsar o montante.

Outras SAD com dificuldades

A SAD liderada por Luís Filipe Vieira não foi a única a sofrer na tesouraria o impacto da covid-19. O FCP teve de adiar por um ano o reembolso de uma emissão de obrigações de 35 milhões de euros, sendo que fica com 70 milhões para devolver em 2021.

No próximo ano, as três principais SAD ficam com 116 milhões para reembolsar no próximo ano: a do Benfica é de 20 milhões de euros, enquanto a Sporting SAD, que teve de recorrer ao lay-off simplificado (poupando 3 milhões de euros, praticamente o custo que teve de pagar pela rescisão do ex-treinador Mihajlovic), também tem outros 26 milhões por pagar.

Tudo isto num cenário de incerteza, em que a quebra de receitas é cenário central, sem adeptos nos estádios e sem proveitos de bilheteira. Na última temporada, a SAD do Benfica teve lucros de 42 milhões, enquanto a do Sporting conseguiu resultado líquido positivo de 12,5 milhões.