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Às voltas na Toumba

Uma parte das ambições do Benfica para a nova época morreu antes mesmo de começar. A derrota em Salónica por 2-1 deixa os encarnados fora da Liga dos Campeões, os cofres da Luz sem muitos milhões e com um projeto de um novo Benfica já coxo. Sentirá agora Jesus a pressão?

Lídia Paralta Gomes

Achilleas Chiras/EPA

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A pressão, a pressão. Jorge Jesus assegurou, umas horas antes da estreia oficial neste regresso ao Benfica, que ela não assiste às grandes equipas, aos grandes treinadores e aos grandes jogadores. Pressão, ouvimos tantas vezes desses mesmos treinadores e dos jogadores, principalmente quando estão encostados às cordas, é ter de trabalhar para meter comida na mesa, e talvez tenham razão, essa é a verdadeira pressão, mas isto é como as dores de cada um: não é por eu saber que há um terrível conflito no Iémen que não me angustio com as minhas falhas e os meus medos, que não perco o sono por inseguranças tolas e não me digam que um treinador a quem foi dada quase carta branca para gastar, para ser a cara de um novo Benfica, um Benfica que contrata em grande e tem ambições europeias, não me digam que esse treinador e esses jogadores não sentem agora pressão.

Sentirão, seguramente, e não há problema nenhum, eu também sentiria se de repente 90 minutos frente a um adversário menos forte significassem menos 40 milhões nos cofres do clube, sentiria essa pressão se de repente um dos objetivos da época morresse antes mesmo de existir. O Benfica não podia falhar frente ao PAOK, mesmo que tramadas fossem as circunstâncias (eliminatória a apenas um jogo, encontro fora, adversário já mais rodado...), mas falhou, tudo que o podia ter corrido mal correu, um auto-golo, um golo de um jogador que ainda há umas semanas treinava no Seixal, e agora não há mais espaço para falhar. Isto não é pressão?

O Benfica sai de cena da Liga dos Campeões por algum azar mas também por erros próprios, numa eliminatória que até poderia ter resolvido nos primeiros 45 minutos. O PAOK, diga-se, surpreendeu nos primeiros minutos, a pressionar os encarnados, a permitir pouco jogo à equipa de Jesus, um peito-feito que não durou mais que 10 minutos. Menos incomodado, o Benfica conseguiu a partir daí organizar-se, sair bem, construir, embora sempre com muitos problemas no último terço. E aqui esteve uma das chaves da eliminatória.

Achilleas Chiras/EPA

Aos 27', o cabeceamento frouxo de Seferovic após cruzamento de Everton era o sinal de alerta: com o suíço, o Benfica ia ter problemas em finalizar. A culpa do nulo na 1.ª parte não foi, naturalmente, apenas de Seferovic. Mesmo com Weigl em bom plano, Pedrinho a encontrar-se depois de uns primeiros minutos difíceis, e Taarabt a fluir o jogo, os maus passes no último terço foram uma constante e a verdade é que a bola raramente chegou com qualidade à área do PAOK - e aqui também por mérito da organização defensiva da equipa de Abel Ferreira, num bloco baixo em que os três centrais foram sempre bem apoiados pelos alas.

O perigo, esse, acabou por surgir verdadeiramente apenas de bola parada, com um livre direto de Pizzi ao poste, e de longe, num remate de Pedrinho nos derradeiros momentos da 1.ª parte.

A incapacidade do Benfica no último passe parecia, no entanto, apenas uma questão de momento, nada de extraordinariamente anormal numa equipa em início de época. Além disso, Rúben Dias e Vertonghen faziam um jogo seguro - e aqui sim, na 1.ª parte já se parecia notar algo de Jesus - e o PAOK parecia inofensivo.

Só que a 2.ª parte trouxe um PAOK diferente, para o qual o Benfica não pareceu de todo preparado - e não é que não estivesse avisado. Logo nos primeiros minutos, surgiram as primeiras tentativas do lado esquerdo, onde moravam as armas mais perigosas dos gregos, Giannoulis e o miúdo Tziolis. Aos 57', Everton Cebolinha esteve perto de marcar, após uma bela jogada entre Taarabt e Pedrinho, mas minutos depois chegou o primeiro golpe. Giannoulis conduziu o contra-ataque, desmarcou Akpom, a defesa do Benfica falhou a linha de fora de jogo e o lateral esquerdo foi à área receber o cruzamento do avançado inglês. O golo seria quase todo de Giannoulis não tivesse sido Vertonghen a colocar a bola na baliza do Benfica.

Como resposta imediata, Jesus retirou Pedrinho para fazer entrar Darwin e o Benfica perdeu um dos elos que fazia o ataque posicional mexer. Com Darwin e, mais tarde, Vinícius, pedia-se mais jogo exterior e o Benfica nunca se conseguiu adaptar às novas circunstâncias. Por seu turno, o PAOK, sem nunca perder o foco na defesa, parecia também à vontade no contra-ataque e aos 75', Giannoulis voltou a conduzir desde a esquerda, sem oposição e deu para Zivkovic, recém-entrado, que num movimento de fora para dentro deixou Grimaldo KO e rematou rente ao poste mais próximo. Um 2-0, por esta altura, era trágico. E um golo de um jogador a quem o Benfica pagou para sair há um par de dias é rodar a faca numa noite de terror em Salónica. O acerto defensivo que parecia ter cunho de Jorge Jesus e que se viu na 1.ª parte, esfumou-se em dois lances capitais.

O golo de Rafa, nos últimos segundos do jogo, foi apenas o canto do cisne, curiosamente numa das únicas ocasiões em que o jogo pelas alas que se pedia ao Benfica por esta altura resultou. Já foi tarde. O Benfica, este novo projeto de Benfica, andou às voltas na Toumba. Agora há muito para repensar. E a pressão, essa, vai estar lá sempre.