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Era tudo uma questão de espaço, espaço para melhorar

Frente a um Famalicão ainda a precisar de tempo, mas que pressionou com um bloco médio e tentou, sempre, sair curto e rasteiro de trás, o Benfica teve o espaço que não viu em Salónica, pressionou alto e reagiu mais cedo às perdas de bola. O contexto mudou, goleou por 1-5, teve Lucas Waldschmidt a dar nas vistas entre linhas (o alemão bisou) e Taarabt a ser o "8" controlador de jogo e recuperador de bolas

Diogo Pombo

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Ao certo, o que Jorge Jesus quis dizer, pela negativa, com o “saiba ganhar espaço”, quando falou da qualidade que a equipa não teve em Salónica, por não a reconhecer em qualquer dos avançados do Benfica? Podia estar a falar de corridas entre lateral e central, ou entre centrais, apontadas à profundidade, para comprometer a linha defensiva e obrigá-la a esticar, atacando-lhes o espaço nas costas para que mais haja na frente deles, onde outros possam jogar.

Com essa curta frase pode, também, ter querido dizer que nem Seferovic, Vinícius ou Darwin se posicionam onde ele quer, e como quer, seja colados na frente de um lateral, com os apoios virados para dentro, fixando-o em si e não no extremo desse lado ou, divagando ainda mais, outras tantas variantes, como a que o uruguaio de expetativas-mil por causa dos milhões-mil fez, logo aos 8’.

O uruguaio partiu numa agressiva diagonal da esquerda para dentro, sem bola, num três-para-três com a bola em Waldschimdt, a novidade canhota alemã a quem criou espaço para correr área dentro e rematar à rede lateral da baliza. Onze minutos depois, Darwin Núñez tocou, de primeira, uma bola para as costas dos centrais para a classe do germânico a apanhar e picar um golo por cima do guarda-redes.

Duas ações, um espaço aberto, outro lançado com bola e, à terceira ação, esta na área e com poucos metros quadrados de relva para decidir, em que fez um pique em contra-movimento ao passe que pediu à qualidade de Taarabt, mas que apenas rematou de raspão, já em esforço. Aí já Everton tinha feito o segundo golo, quase um passe para a baliza à entrada da área para onde todos os médios do Famalicão recolheram, para defender um cruzamento rasteiro de André Almeida.

Em 21 minutos, o Benfica já ganhava por 0-2 porque algumas das coisas que o emagreceram em Salónica tinham-no, em Famalicão, mais gordo e a empanturrar-se com o tempo a avançar.

Porque jogou contra um equipa a defender-se em bloco médio, sem mirrar em 30 metros de campo, mas a ter a primeira linha de pressão ainda na metade do Benfica. Houve mais espaço que, misturado com passes a circularem mais rápido, e com as variações longas e pelo ar Gabriel por troca com o mais rasteiro e contido Weigl, fizeram a equipa ter mais gente a receber entre linhas, sobretudo Taarabt e Waldschmidt.

Com mais jogo a passar-lhes nos pés, mais jogadores se aproximavam da bola para combinar. As uvas de um cacho que se foi partindo, em Salónica, viraram as bagas de uma amora, juntas no mesmo fruto. A equipa estava compacta. E este Famalicão, que o ousado João Pedro Sousa mantém arrojado na intenção de sair de trás, sempre, pela relva e com passes curtos, para atrair a pressão e provocar espaço nas costas de quem pressiona, também lhe serviu.

O Benfica encostou muito alto nas tentativas de construir da área, apertou logo os adversários e, até ao intervalo, só permitiu umas duas, três saídas ao Famalicão. Recuperou muitas bolas em campo alheio e beneficiou das cavalitas de Taarabt, muito mais intenso a roubar adversários, mais reativo a recuperar a posição ao lado de Gabriel, outro que ataca rápido o seu raio de ação quando a equipa perde a posse - diferente quando a sua linha é ultrapassada e obrigado é a cobrir metros para compensar. Antes do intervalo, um livre de Grimaldo ainda curvou o terceiro golo.

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A qualidade per capita do Benfica continuou a notar-se em cada ação com bola, cada jogada em que aceleravam com poucos toques por metro de relva. Foram, de novo, castigadores na saída de bola do Famalicão, que originou o quarto golo feito descascado por Rafa, após algumas camadas de ressaltos e indefinições na área.

A equipa da casa, dilacerada do que era na época passada por entradas e saídas, só por volta da hora de jogo deixou de ser tão cercada - e tantas vezes caída nas armadilhas do Benfica - pela pressão do Benfica. A quebra física de Gabriel notou-se, o brasileiro já se precipitava mais a aproximar-se dos adversários e as tentativas do Famalicão já iam chegando a Guga ou Rúben Lameiras, os carregadores da alma transata da equipa.

O segundo, num baile privado com Grimaldo sem jogadores perto a darem-lhe cobertura, quebrou o espanhol e cruzou rasteiro para o primeiro, único não marcado na área - Vertonghen fechara um ataque ao primeiro poste e Gabriel centrou as atenções onde estava a bola. Ao grito do Famalicão ainda se somaria um berro de Lameiras, aventurado da direita para o meio até rematar a bola contra o poste.

O Benfica ainda teve várias jogadas com fim na área, só falíveis no último passe, mas a prosperarem na construção e criação com tanto espaço e segundos de atraso que os adversários regalavam. O quinto golo veio começou em Taarabt, perto da própria área, onde o marroquino simulou e driblou para rodar sobre a pressão, conduziu até soltar em Waldschimdt, que deu seguimento à linhagem de receção-passe para soltar em Darwin, corrido para a direita, e correr para a área onde foi apanhar o cruzamento do uruguaio.

Jogada simples, rápida, a tocar no pé e com fregueses a mostrarem-se para receber por dentro enquanto outros se mexiam para atacar um espaço, como muitas houve antes e se viram, também, frente ao PAOK, gregos que se agregaram em 30/25 metros junto à sua baliza, cimentando um bloco baixo, sem se avançarem o seu bloco para tentarem ativar a pressão onde os médios do Benfica recebiam as primeiras bola, como sempre o fez o Famalicão.

João Pedro Sousa avisara que a equipa não estava ainda no ponto, precisa de tempo e tê-lo-á, mas fê-la jogar como costuma, a proteger-se longe da baliza e a levar a bola num passeio controlado desde que sai do pé do guarda-redes. Nunca o fez o PAOK, há dias, e raramente o Benfica teve espaço - ou conseguiu provocá-lo. Em Famalicão teve-o pelo contexto, logrou criá-lo quando o teve a menos, aproveitou-o assim que apareceu e melhorou, no todo, com ele.