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Rúben, aquele lugar que já não existe

Mesmo com Pizzi e André Almeida em campo, Rúben Dias foi capitão do Benfica que ganhou ao Moreirense por 2-0, golos do português e de Seferovic, talvez uma recompensa pelo serviço prestado e um sinal de que o central irá mesmo embora - e com ele levará o último resquício do que, até há bem pouco tempo, era uma estratégia assumida no clube

Diogo Pombo

Carlos Rodrigues/Getty

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Rúben Dias não é uma instituição, os homens são apenas homens e ele é um forte e musculado, o cabelo curto, cortado nem com um fio fora do sítio, esqueçamos o alongamento e a bandolete com que saiu do confinamento, há uns meses, está igual a si próprio agora, o peito feito e a cara cerrada e a ocupar a posição de central do lado direito na linha defensiva onde está o seu lugar.

Talvez Rúben seja isso, um lugar, pelo menos representa um lugar, sendo esse lugar o centro de treinos do Seixal, ou simplesmente Seixal quando o assunto é o Benfica, onde ele chegou com 11 anos para escalou até este sábado outonal, em que é um lugar por ser o único português formado no Benfica a ser titular na equipa principal, da central da seleção nacional e de um suposto projeto seixalense não há muito falado como prioritário pelo presidente do clube.

Quando é canto, Rúben vai à área, salta nas costas de um adversário e, com a cabeça, remata o 1-0 para o Benfica contra o Moreirense, como fez grande parte dos outros 11 golos pelo clube, ele é a versão sorridente e rejubilante desse lugar que vai até ao banco de suplentes e dá um abraço a Rui Costa, sei lá eu porquê, mas saberão eles bem o motivo, que terá algo a ver com Rúben ter marcado, festejado e abraçado-o com a braçadeira posta quando Pizzi e André Almeida também estão em campo.

No Benfica que, até ao intervalo, só marca de canto, num dos vários em que sempre ganhou a bola na amorfa defesa à zona do Moreirense, ele é o central que mais passes filtra na saída de bola, quem mais a conduz na outra metade do campo para tentar atrair a pressão e abrir espaços, é quem menos erra na linha defensiva, sem bola, nas duas/três vezes em que o adversário se livra das tentativas do Benfica em recuperar rápido o que acabou de perder.

É, sobretudo, a partir dos 20’ em que o golo de Rúben entra, que o Benfica engata, com bola, uma forma de jogar muito de JJ, a juntar muitos jogadores perto de onde a bola rola, a fazê-los jogar a um dois toques, a tabelarem para encontrarem um terceiro jogador livre, a trocarem passes rápidos entre linhas com Waldschmidt a simplificar o que é complicado de fazer.

E Pizzi remata, Everton remata, Rafa remata, Darwin remata e marca sem valer e até Vertonghen o faz, por duas vezes, noutro canto. Não são bolas pontapeadas à força, são oportunidades criadas e chegadas até à área, onde eles as falham ou Mateus Pasinato as defende ou um meio termo.

O Benfica ataca rápido e vertiginosamente, se vai a 150 km/h faz por ir a 200 km/h e ainda chegar aos 250 km/h, aplica uma pressão mal perde a bola, onde a perde, mas que ainda é permeável e por isso há tipos como Pedro Nuno e Filipe Soares que vai libertando o Moreirense até à área, lugar onde está o lugar que Rúben Dias é: “imprescindível” para a equipa.

CARLOS COSTA/Gettys

Di-lo Jorge Jesus, antes deste jogo, antes de o central ficar com a braçadeira de capitão que é um símbolo quase como prémio, recompensa ou honra, seja o que for, por ter meia vida feita a jogar à bola no Benfica e agora estar prestes a ir, diz-se, para o Manchester City e fazer desta equipa do Benfica um lugar sem frutos colhidos no próprio quintal.

Aquele lugar que não existe, porque o Benfica desta forma de atacar dinâmica e veloz, com muita gente a associar-se dentro do bloco adversário, em que Rafa é dos mais intensos a reagir à perda e a recuperar a bola, já não é o Benfica que, há dois anos, Luís Filipe Vieira só via a ser campeão europeu se tivesse “jogadores da sua casa, com identidade própria, à Benfica e pela qualidade que têm”.

Indo Rúben embora, levará com ele o, quiçá, último resquício dessa estratégia, abandonada para se gastar milhões com e para Jesus, que montou no Benfica esta equipa que a atacar como o faz, afastou mais os jogadores entre eles na segunda parte, já não tão frescos e intensos a voltar às posições quando esses ataques os faziam perder bolas mais cedo.

A equipa continuou a criar jogadas com vida até à área, tanto por lançar jogadores atrás da última linha do Moreirense - Darwin passou para Waldschmidt, sem o guarda-redes na baliza, rematar com o pé direito e um adversário cortar às últimas -, como a procurar um jogador pelo centro, para servir de parede e devolver a bola - uma desses tricotados de passes rápido deixou Rafa, na área, a disparar um remate que rasou o poste esquerdo.

Foi da primeira maneira que o Benfica esperou até Darwin pedir um passe no espaço, apenas com o mais lento Steve Vitória a marcá-lo, sem vivalma a dar-lhe cobertura, que o uruguaio acelerou um sprint com a bola até a cruzar, tensa e rasteira, para Seferovic tocar o 2-0 na pequena área. A equipa já tinha dois avançados, tipo 9, em campo, e Chiquinho também já era experimentado como médio ao lado de Gabriel.

O sétimo golo feito no campeonato, a segunda vitória em dois jogos, as múltiplas oportunidades criadas para marcar são capítulos da história deste novo e apostador Benfica, um também novo lugar que recompensou quem se diz que vai sair e valer milhões (para recompensar os milhões) pelo serviço prestado, e eis Rúben Dias, outra vez sorridente e a trocar abraços no final, a braçadeira ainda ali, visível e premiadora, a sinalizar uma despedida.