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Luís Filipe Vieira: "Será o meu último mandato. Errei, porque quem decide não acerta sempre. Estou disponível para ouvir boas ideias"

Sem direito a perguntas de jornalistas, o presidente do Benfica apresentou a sua recandidatura à liderança do clube, num discurso no qual revelou que, a ser eleito, o sexto mandato será o último. Está disposto a acolher um membro de cada uma das outras candidaturas no seu conselho fiscal, para que "possam perceber o rigor e a transparência das contas" do clube e espera que os próximos 30 dias de campanha não sejam "apenas deitar abaixo e desvalorizar o trabalho feito". As eleições, ainda sem data marcada, deverão acontecer no final de outubro

Diogo Pombo

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O palco encheu-se, primeiro, com os passos de Simão Sabrosa, caminhante até ao microfone, onde no púlpito deixou umas palavras antes de apresentar Luís Filipe Vieira e o chamar. Trocaram um abraço pelo caminho, os holofotes iluminaram o presidente do Benfica, que explanou os papéis do discurso à sua frente, leu-o pausadamente e com várias pausas, as quais foram preenchidas por aplausos pelos presentes. Na plateia estavam jornalistas, que não tiveram oportunidade de colocar perguntas.

Luís Filipe Vieira com os olhos cheios, as lágrimas a quererem sair e ele a contê-las, voz embargada e todo um presidente emocionado por, ao terminar o discurso, recordar o pai e uma promessa que lhe fez: "recuperei a mística e a grandeza do Benfica e isso é a melhor recompensa que posso ter destes 17 anos".

O último mandato

"Quero agradecer a presença de todos aqui. Ao Luisão, ao Jorge [Jesus], ao Rui [Costa], à Telma [Monteiro] e ao Simãozinho, o capitão no primeiro título que conquistámos ao serviço do Benfica. Bem, mas deixem-me então começar. Dizer-vos que tenho 71 anos, tenho a 4.ª classe, não falo inglês e tenho orgulho no trabalho realizado nestes 17 anos e estou aqui para anunciar a minha recandidatura a presidente do Sport Lisboa e Benfica, mas que será o meu último mandato"

"Sempre trabalhei para unir os benfiquistas, porque acho que só assim podemos continuar a construir e a ter futuro. Esta candidatura tem um passado e uma história, mas, sobretudo, tem futuro. Nos próximos quatro anos continuaremos a crescer e a ser pioneiros em muitas áreas, mas serão quatro anos em que o principal foco será a vertente desportiva. O próximo mandato será o ponto de partida para superarmos o que fizemos nesta última década, que foi bastante extraordinário."

O trabalho feito

"Foi a segunda melhor década de sempre na história do futebol, a melhor década de sempre na história das modalidades e a melhor década de sempre no capítulo financeiro. Uma década em que reforçámos o nosso prestígio internacional, a nossa credibilidade, em que nos afirmámos como um dos melhores clubes a nível mundial. Uma década em que tivemos conta positivo em sete anos. É isto que quero que o Benfica supere na próxima década, é para isso que vou trabalhar no meu último mandato."

Os vários candidatos

"Pela primeira vez em muitos anos há vários candidatos. É algo que deve ser saudado, porque demonstra a vitalidade do Sport Lisboa e Benfica e as garantias em relação ao futuro do clube. Gostaria, no entanto, de expressar o meu desejo para que a campanha decorra de forma positiva, com propostas, de ideias, uma campanha construtiva. É esse o caminho que vou seguir. Espero que os restantes convidados também o sigam.

Não esqueço as críticas, elas fazem parte do percurso e porque, quando são sérias, devem ser ouvidas. Quem está à frente de uma instituição com a grandeza do Benfica também erra em algumas decisões e eu, de certeza, não sou exceção. Errei, porque sou humano. Errei, porque quem decide não acerta sempre. Aliás, só acerta sempre quem nada decide. Por isso, a primeira garantia que quero deixar é que estou disponível para ouvir e recolher boas ideias, venham elas de onde vierem."

As propostas dos outros

As boas propostas têm sempre porta aberta e cabem nos próximos quatro anos do Benfica, como couberam nos últimos 17. Já li e ouvi algumas propostas das outras candidaturas, mas não são novas, já foram implementadas, e há propostas novas que não são boas. Não podemos passar os próximos 30 dias apenas a deitar abaixo, a desvalorizar o trabalho feito, a menorizar os resultados e a criticar tudo e todos, porque aqueles que só criticam raramente conseguem construir."

As críticas

"Criticam as compras, as vendas, o equipamento, a falta de transparências nas contas, a democracia do clube, o voto eletrónico, a Benfica TV. Criticam, criticam, criticam. Não pode ser. Porque estas críticas não atingem, apenas, o presidente do Benfica. Atingem o Benfica enquanto instituição e todo o trabalho realizado nos últimos 20 anos e é por isso que não posso admitir. A nossa história é uma história de caráter, de resistência, é uma história de sucesso, é uma história que não admite fações, nem hipocrisia ou falsidades. Somos o clube português mais saudável do ponto de vista financeiro e mais preparado para enfrentar os próximos anos, que não vão ser fáceis.

Vão ser anos exigentes, mas já passei por situações bem mais complicadas e por anos mais exigentes quando aqui cheguei. As contas do Benfica são auditadas anualmente com relatórios detalhados e públicos, pelo que não percebo a crítica recorrente de alguns candidatos da oposição, mas estou disponível para acolher, na minha lista, para o conselho fiscal, um elemento de cada candidatura da oposição, para que possam perceber o rigor e a transparência das nossas contas. A porta está aberta. Não estejam apenas permanentemente a criticar."

Os recados

"Já ouvi, também, falar em fim de ciclo. Mas como compreender que alguém possa falar em fim de ciclo, quando o clube está hoje mais preparado, mais dinâmico, forte, estruturado, ambicioso e vencedor do que alguma vez foi? Não, não é o fim de um ciclo, é a continuação de um ciclo de sucesso. É essa a minha ambição e a minha promessa.

Já ouvi, igualmente, falar de que o Benfica não pode ser negócio. Pois bem, se o Benfica não for também negócio, não haverá sucesso desportivo, nem infraestruturas, nem formação, nem modalidades, nem medalhas olímpicas. O Benfica é alma, é paixão, o Benfica são os sócios, mas também tem de ser negócio. Quem diz o contrário está apenas a usar uma frase vazia de sentido e de puro oportunismo eleitoral."

As notas finais

"O dono do clube são os sócios e foi deles que recebi mandato para liderar o Benfica nos últimos 17 anos. Quando cheguei ao clube, o dono do Benfica eram os credores. Foi comigo que se devolveu o Benfica aos sócios. Estou aqui e conto continuar a estar, pelo voto dos benfiquistas;

Não festejo nem vendas nem contratações de jogadores. Se hoje há um projeto de formação conhecido e reconhecido a nível internacional é porque ele foi construído ao longo da última década, quando muitos não acreditavam nele. E esse projeto é para continuar;

Irei debater as minhas propostas com os sócios e é assim que deve ser. São os sócios que devem ser esclarecidos e todos os candidatos o podem e devem fazer. Irei nas próximas três semanas percorrer o país, falar com os sócios, debater com eles as minhas ideias para os próximos quatro anos;

O Benfica tem o sistema mais inovador a nível de voto. Mas, para calar insinuações que roçam o insulto, e para reforçar a possibilidade de todos os sócios do Benfica participarem nestas eleições, não só haverá, a par do voto eletrónico, o voto em papel, como os sócios do Benfica vão poder votar em todas as capitais de distrito de Portugal continental. Espero, e acredito, que o ruído à volta do processo eleitoral termine de vez;

O Benfica é hoje dos clubes com maior credibilidade a nível mundial e nunca se esqueçam que este é o principal título que o Benfica tem neste momento. Cumpre com os compromissos assumidos, não tem ordenados em atraso, nem modalidades em risco de desaparecer. E quanto a mim, tenho a consciência tranquila, porque as insinuações não são um facto e a justiça não se faz nos jornais, ou nas televisões.

O Benfica são as pessoas e essa sempre foi a minha prioridade. Por isso a minha aposta, desde que aqui cheguei, no crescimento e modernização das Casas do Benfica. Sempre foi claro para mim a importância destas na divulgação da nossa mística, dos nossos valores, da nossa história. A aposta é para continuar.

Haverá nos próximos quatro anos um Conselho Estratégico que nos vai ajudar a pensar em novos desafios e a auxiliar-nos nas dificuldades que possam surgir. Um Conselho Estratégico constituído por benfiquistas que representem uma inegável mais valia para o clube."

O apelo ao voto e as lágrimas pelo pai

"E, agora, um apelo a todos os sócios. O ato eleitoral é o momento em que se dá a palavra aos sócios, é fundamental que os sócios exerçam esse direito, porque representam a base fundadora e a essência deste clube. Os próximos anos devem ser de união e, por isso, depois das eleições, quem ganhar será presidente de todos os benfiquistas. O nosso futuro depende disso. Depois das eleições, não haverá vencedores ou vencidos, mas apenas benfiquistas.

O Benfica de hoje é um clube vanguardista, moderno, inovador, mas é ao mesmo tempo um clube com espírito crítico, em que nos orgulhamos do trabalho feito e da nossa história, mas pensamos sempre no futuro e no que ainda podemos fazer. Por isso, “a história com futuro” que assumi como lema da minha campanha. Tenho a certeza – e é assim que termino – de que o meu pai, esteja onde estiver, estará orgulhoso do filho.

Cumpri a promessa que lhe fiz quando assumi a liderança do Benfica. Recuperei a mística e a grandeza do Benfica e isso é a melhor recompensa que posso ter destes 17 anos. Viva o Benfica!"