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"O problema do Kulkov não era a noite, mas o que ele fazia na noite"

Toni era o treinador do Benfica no 4-4 em Leverkusen, a 15 de Março de 1994, jogo que fica para a história com uma exibição de gala de um médio russo que era disciplinado dentro do campo e indisciplinado fora dele. A Tribuna Expresso republica este trabalho no dia em que morreu Kulkov, aos 54 anos

Pedro Candeias

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O telefone toca e do outro lado dizem-nos para ligar para outro número. "E depois, para o quarto 403." Toni está no Dubai e lá são oito da noite. "Hora de jantar", portanto, e a conversa "tem de ser breve" (não será assim tanto, porque o interlocutor tem muito para contar). É que no dia seguinte o Tractor, do Irão, joga e o treinador tem de se concentrar para o trabalho que lhe espera. Mas há sempre tempo para um data que ele não esquece. "Quinze de março de 1994? Leverkusen-Benfica, 4-4 e há 20 anos. Eu era o treinador. Mas olhe que também me lembro de 14 de dezembro de 1986, quando levámos 7-1 do Sporting! Não são só histórias boas que ficam."

Mas esta é uma boa história. É a história da equipa portuguesa que ia à Alemanha só para preencher calendário, porque do outro lado estava um adversário rijo, cheiinho de estrelas como Bernd Schuster, Ulf Kirsten... e o indizível Franco Foda. Assim pensavam os alemães, "que são tipos arrogantes, flores que não se cheiram", garante Toni. Mas os portuguesinhos da formação vermelha vestida de branco fizeram o impensável - de uma primeira mão desvantajosa (1-1 na Luz) fizeram uma eliminatória histórica (4-4 em Leverkusen). "Estivemos fora, dentro, fora novamente e, finalmente, dentro da Taça das Taças. Mas esse também foi um ano de grandes jogos!" Inevitavelmente, Toni avança uns meses no ano de 1994. "O 6-3 também foi espetacular." Pois foi. Mas o 4-4 terá "outro sabor". Porque aconteceu na Europa.

Sem medo

Em Leverkusen, o Benfica jogou com Neno, Abel Xavier, Hélder, William e Schwarz; Kulkov, Vítor Paneira e Rui Costa; João Pinto, Iuran e Isaías. Façam as contas: quatro defesas, um médio defensivo e cinco tipos para atacar.

"Ah pois é! E eu é que era o treinador defensivo ah, ah, ah! Enfim, dava-me vontade de rir. Colou-se à pele desde 1988/89, ano em que ganhámos campeonato mas toda a gente dizia que era por 1-0 e no final. Está a ver como são as coisas? Nessa época marcámos 60 golos e sofremos apenas 15 - o melhor ataque e a melhor defesa."

Em Leverkusen, o Benfica chegou a estar a perder por 2-0; seguiu-se o 2-1, 2-2, 2-3, 3-3, 4-3 e o 4-4. "Fomos ao inferno e voltámos". Para contar a tal boa história. "Não lhes disse nada de especial, apenas que tínhamos de ganhar e íamos ganhar." Toni desmistifica o discurso xpto motivacional; troca-o por miúdos. "É vestir o papel de ator e encarnar a personagem que acredita. Ponto. Você se fosse comandante de um pelotão também não iria ali de voz murcha dizer: 'Ah e tal, acho que ainda podemos conseguir qualquer coisinha'. Não. Temos de ser assertivos e acreditar no que dizemos."

Um ano de extremos

A época 1993/94 tinha tudo para correr mal - ele era os meses de salário em atraso, ele era o verão quente que viu sair Paulo Sousa e Pacheco para Alvalade, ele era a indefinição na direção e no corpo técnico. Toni guiava o seu Renault 5 vermelho - "Vermelho, hã!", reforça - sem saber o que lhe ia acontecer. Era o caos, mas do caos nasceu uma ideia vencedora. Porquê? Porque o Benfica tinha muitos bons jogadores, "muitos portugueses" e porque esses "muitos portugueses tinham muitas qualidades". Dois deles acima dos outros.

"Se tínhamos conseguido passar sem o João Pinto e o Rui Costa? Podíamos, mas tinha sido diferente. Graças a Deus, o senhor Jorge de Brito [presidente] conseguiu ter dinheiro." O plantel era relativamente unido, porque lá viviam três russos que eram um ver se te avias para Toni. A liderança era contestada diariamente porque os jogadores sabiam tudo da vida uns dos outros e as regras tinham de ser iguais para todos; num balneário, não há segredos.

"O Kulkov, o Iuran, o Mostovoi! Olhe, dos três, o meu querido Eusébio dizia que o melhor era o Mostovoi. Eu achava que era o Kulkov, que era muito cerebral." Os dois golos ao Leverkusen foram a obra-prima daquele médio aparentemente calmo e tranquilo."O problema, fora de campo, eram as noitadas. Aliás, nem eram as noitadas, mas o que eles faziam nessas noitadas. Lembro-me do médico ter de ir a Santo António de Cavaleiros, onde eles moravam, buscar o Iuran. 'Tenho febre', dizia ele. Está bem, está bem. 'Se tens febre o doutor vai aí ver-te!' Sabia muito aquele. Há pouco tempo, ele reconheceu que, como treinador, nunca aturaria um jogador como ele. Pudera!", recorda Toni. "Não foi à toa que no FC Porto só os aguentaram um ano. Era muito difícil."

O António Oliveira que é Toni

Em 1993/94, o Benfica acaba por ser campeão com exibições memoráveis, mas Toni acabou corrido por Manuel Damásio, que já negociava com Artur Jorge meses antes do final da época.

"Eu achava que tinha o mundo nas mãos, a sério que achava. Julgava que as conquistas eram eternas, intemporais. Mas não são. Diluem-se! E eu já não me importo!" Eterno e intemporal, só o nome. "É engraçado, não é? Se eu ligar a alguém e disser que me chamo António Oliveira, ninguém sabe quem é. 'Do Benfica? Não conheço'. Mas se disser Toni... ah, Toni é outra coisa."