Tribuna Expresso

Perfil

Benfica

Vieira: “Já me viraram ao contrário dez vezes e eu continuo aqui de pé. Há quem tenha inveja de um indivíduo com a quarta classe”

O presidente e recandidato à liderança do Benfica apareceu no programa Trio d'Ataque, da "RTP3", na noite deste domingo, para conceder a primeira entrevista desde que confirmou a corrida a um sexto mandato. Luís Filipe Vieira revelou que decidiu contratar Jorge Jesus quando Bruno Lage ainda treinava o Benfica (em "março ou abril"), garantiu que a aposta no Seixal "ainda é prioritária" e disse que há preconceito no país em relação à sua pessoa: "ninguém vai perdoar que um indivíduo com a 4.ª classe faça esta obra e revolucione o futebol português"

Tribuna Expresso

NUNO FOX/LUSA

Partilhar

Antes da primeira pergunta

"É mais importante o que eu quero dizer. Quero mandar uma palavra de solidariedade ao presidente da Casa do Benfica em Braga. Já foi vandalizada mais de 20 vezes. O que é de lamentar. A outra palavra é para o André Almeida, tenho a certeza que vai recuperar rapidamente para voltar a jogar pelo Benfica.

Contratou JJ para ganhar as eleições?

"Não. Até porque o Jorge Jesus era muito controverso na família benfiquista. Aqui há um ano também diz determinadas afirmações e quando decidiu contratar o Jorge Jesus foi após uma conversa em casa dele. Falei com ele em março ou abril. Acho que o Jorge foi muito claro quando regressou, na apresentação. É o nosso treinador e é com ele que temos de estar."

A prioridade ainda é o Seixal?

"Vai continuar a ser prioritário. Basta ver que hoje entrou o Nuno Tavares. O que se passa é que o Benfica queria fazer outra abordagem no campeonato e na Europa, então tinha que se reforçar. Agora, o Seixal faz parte da estratégia do Benfica e não faz parte da estratégia de nenhum treinador. É prioritária e vai continuar a ser.

O Florentino foi ele quem pretendeu ir rodar. O Jota igual. O Gedson também, e ainda poderá regressar.

O Tiago Dantas faz-me uma confusão muito grande. Tem 15 anos do Benfica, sei das conversas que tive e dos relatórios que recebi e, quando já não jogava na equipa B, o Benfica recebeu uma proposta que não podia recusar."

Melhorou o clube?

"A abordagem que fiz ao Benfica, há 20 anos, foi ver uma floresta que não existia. O Benfica foi refundado, o que é uma diferença muito grande. Naquela altura, vi desaparecer quem hoje se diz ser da oposição. Era preciso arriscar muito. Outros fugiram, outros ficaram ressabiados. Não falo em nomes. Hoje existe um Benfica que é admirado por toda a gente em termos internacionais e é invejado em termos nacionais. Julgava que a folha de vaidades já tinha desaparecido do Benfica, mas hoje há tentativas em aparecer.

O caminho já está traçado, não haverá rutura com o passado, este projeto tem de continuar e vai continuar."

Vaidades?

"Não represento nenhum notável. Sou bairrista, vim do Bairro das Furnas, os notáveis para mim são quem faz 500 quilómetros à chuva para ver jogos do Benfica, ou os presidentes das Casas do Benfica. É bom que exista oposição, é sinal de vitalidade, mas com projetos concretos. Se estiverem atentos, só se ouviu que o Benfica precisava de um diretor desportivo. Das propostas que vi, é curiosamente com pessoas do Movimento Servir o Benfica que poderei discutir quando ganhar as eleições."

O dinheiro e as aquisições

"Sempre disse que o primeiro título que o Benfica adquiriu foi o da credibilidade. Nunca o Benfica comprava por €20 milhões. Comprou agora. O Darwin, o que nos custou mais dinheiro, achamos que será uma referência no futuro do futebol mundial. Iremos ter retorno financeiro. No tempo que vivemos hoje, com a incerteza que vivemos, logicamente que qualquer empresa vai atravessar dificuldades. O Benfica vai enfrentá-las. Não descontámos vencimento de nenhum trabalhador.

Posso dizer que há jogadores que foram comprados a cinco anos sem juros. E não digo mais nada. Volto a dizer: quando se tem credibilidade, conseguem-se fazer coisas diabólicas. É em alturas de crise que se deve investir nessa credibilidade. Quando cheguei ao Benfica era penoso, hoje, será fácil recuperar €50 milhões.

O Jorge Jesus não me disse 'que não venha o Otamendi'. O que Jesus disse foi que gostava de ter um certo jogador. O Jorge Jesus tem uma grande relação com a administração da SAD e comigo tem uma relação fantástica. Só andámos chateados até ao jogo de Alvalade [2015] e ele já disse que sou o único no futebol que vai a casa dele almoçar. O Jorge é a cara do Benfica e toda a gente sabe que ele, às vezes, tem aquelas repelões. Ele é um grande treinador.

O Vinícius saiu e o Jorge não quis mais nenhum avançado. Foi buscar o miúdo [Gonçalo Ramos] à formação."

E Cavani?

"Logicamente, não me vou expor a qualquer pessoa. Foram os advogados que andaram a tratar disso. O Benfica fez uma proposta sensata, a que podia fazer. Nunca houve um papel escrito. Até que ele vai para Ibiza e, quando recebi a proposta por escrito, vi que o valor era quase o dobro. Então nada feito. Mas houve esse interesse. Se me tenho encontrado com ele, tínhamos assinado se calhar. Cara a cara."

Diz que mandato será virado para o lado desportivo

"Ouvi dizer que com a formação não se ganhava tudo. Agora ouço o contrário. Há um ano, recordo-me de alguns que criticaram muito, disseram que eu é que fazia as equipas, que obrigava o treinador a pôr os jovens. Nunca me intrometi em plantéis. O Benfica fez a segunda melhor década de sempre do futebol. Entendi que devíamos começar a nova década a pensar na vertente desportiva, para tentar melhorar em relação à década anterior. Tivemos oportunidade de fazer grandes contratações, mesmo nos jogadores acima dos 30 anos."

Porque não aceitou debates com outro candidatos?

"Apreciei muito os debates que houve no Sporting. Mas não quero aquilo para o meu clube. Não podemos ter aquela palhaçada. Aquilo era o riso nacional. Aquele candidato que apareceu agora, dos grupos de WhatsApp, até nem era este candidato que eles queriam. Se for fazer um debate que nem vai ser para discutir ideias, mas para se ofender, é porque acho que, depois de dia 30, temos de ter um Benfica unido.

Sou presidente do Benfica há 16 anos e nunca fiz um debate com ninguém. Há canais de televisão e podem lá ir apresentar medidas. Eu não me presto a isso. Ainda não ouvi nenhum candidato dizer o que vai fazer de novo no Benfica. A "BTV" tem 12 anos, salvo erro, e nunca interferiu num programa eleitoral. Tem de ser imparcial e não tem de ser envolver."

António Costa na comissão de honra

"Vou tratá-lo como o trato. O António foi meu apoiante em 2016, como cidadão e sócio do Benfica, e agora foi na mesma condição. O que se passou, que é o que me está a intrigar, é que criticaram o cidadão que já me tinha apoiado. Nunca o mencionei como primeiro-ministro, mas houve um jornal que mencionou, claramente, que era o primeiro-ministro e que, curiosamente, apoio a candidatura de Noronha Lopes. Entendi por bem tirá-los a todos de lá.

A minha campanha vai ser limpa, não vou atacar ou escrutinar ninguém. Tenho resposta para toda a gente, a minha vida é completamente limpa."

Será mesmo o último mandato?

"Tenho a certeza que vai ser o meu último mandato. Quem me conhece, sabe que não."

Nem para ganhar o penta?

"Isso era outra coisa... Ouça, há um tempo para tudo na vida. Vamos lá ser claros. Eu tenho família. Sei quantos dias tive de férias no Benfica. Fazer o que se fez nos últimos 20 anos não está ao alcance de qualquer empresa.

Mas, dentro do Benfica, há gente qualificada para continuar o projeto. Quem vota são os sócios do Benfica. Disse que eu sou o presente e o Rui Costa é o futuro, mas quem vai votar são os sócios. O Rui tem 12 anos de trabalho comigo e vai-se preparando. Vai entrar nos órgãos sociais do Benfica e vai abdicar de vencimento."

As prestações europeias: 14 pontos em 54 possíveis nos últimos três anos

"O Bruno Lage e o Rui Vitória fizeram trabalhos extraordinários. E temos aquele golo do penta do Herrera, aos 89 minutos, em que bastava só empatar o jogo para ficarmos com a mesma pontuação. Não foi por falta de investimento, como se fala. O Lage foi campeão e recuperou pontos ao FC Porto sem investimento.

Vamos ser claros. Imaginemos que o Benfica tinha sido apurado e chegava aos oitavos-de-final. A partir dali é uma lotaria. Quem jogou à bola sabe que é assim. Com a formação que o Benfica tem, se os sócios esperarem quatro ou cinco anos e não sair ninguém, garanto-lhe que o Benfica tem equipa para disputar a Liga dos Campeões. Mas eu não jogo à bola. Mas que ninguém se iluda: hoje, não há clube português que não tenha que vender jogadores. Se queremos ganhar, temos de investir, mas também temos de vender."

Qual é o objetivo?

"A prioridade é entrarmos em todos os jogos para ganhar e no fim fazemos contas. Mas é uma aposta firma minha ganhar um título europeu. É uma jura que eu fiz, é a única coisa que falta cumprir com o meu pai. É uma promessa para os próximos quatro anos.

Era muito mau sair do Benfica neste momento. Sou a pessoa mais bem preparada, pelo menos, para estabilizar o Benfica. Quando lá cheguei, nem as pedras da calçada eram do Benfica."

As críticas

"Ninguém me vê a jantar em lado nenhum. Recentemente, por causa destas coisas todas do Lex, perguntam se não montei um lóbi. Mas qual lóbi? Não conheço a maioria das pessoas que estão no poder. Houve uma altura, há seis ou sete anos, um grupo de juízes ia fazer um jogo de futebol lá à Luz e a única vez que lá fui foi para apresentar uma camisola do Eusébio. Mas tenho uma boa relação com o presidente da Federação Portuguesa de Futebol e com o primeiro-ministro, sim. Mas não me fez nenhum favor. Qual é o problema de ser amigo do primeiro-ministro?"

Operação Lex e Rui Rangel

"Não lhe ofereci nada. A justiça acho que funciona em Portugal. Nunca serei julgado por nenhum jornal, nem por nenhuma televisão. Se não fosse presidente do Benfica, tenho a certeza que não estava naquele julgamento. O que se devia dizer é como é que o Estado português, seja eu ou outro, fechar-lhe a porta. Demorei nove anos a ser ressarcido de dinheiro. O que tinha eu de pedir ao juiz Rui Rangel?"

O caso dos e-mails

"Há quantos anos duram os e-mails? Acham que o Benfica, nos últimos sete ou oito anos, não teve os melhores plantéis de Portugal? Ganhámos quatro campeonatos seguidos. Era preciso andarmos a pedir favores a árbitros? Acho é que os e-mails deram possibilidade a outras coisas mais graves. Os que disseram que era benfiquistas foram todos corridos. O que é o mala ciao? Sofri na pele com um caso chamado Mantorras. Eu falava do Apito Dourado aparecia o Mantorras.

Tenho a minha consciência completamente tranquila. Os meus filhos e a minha mulher podem ter orgulho no pai e no marido que têm. Quem me conhece sabe que era incapaz de subornar alguém. Vamos ver no que vai dar a justiça. Se me acusaram, têm de me julgar. Já me viraram ao contrário 10 vezes seguidas e continuo em pé. Ninguém vai perdoar que um indivíduo com a 4.ª classe faça esta obra e revolucione o futebol português. É preconceito. Se não tenho aparecido no Benfica, não havia estádio, não havia nada."

O que o impede de ter relação com Pinto da Costa?

"Houve um encontro entre mim e o Sr. Jorge Nuno e pus a condição, nessa reunião - e durante três semanas ninguém soube que tínhamos reunido -, que nem o FC Porto, nem o Benfica, tivessem alguém nos órgãos sociais da Liga de Clubes. E a primeira pessoa que me falou foi o Jorge Neto, mas disse-lhe que o homem era portista, não podia ser. Liguei ao Luís Duque, disse que estava com o Pinto da Costa e passei-lhe o telefone. Foi ali que foi escolhido o presidente da Liga. E o presidente da Assembleia-Geral ou era do Braga, ou do Vitória.

Andámos numa paz. O que cortou esta relação? Um dia, o sr. Pedro Proença entra no gabinete, diz que vai sair da arbitragem e que se ia candidatar a presidente da Liga. E eu, 'como é possível?', e ele disse que tinha o apoio do FC Porto. A partir daí, nunca mais falei. Isto é verdade, não há ninguém que possa desmentir. Depois, a pedido do presidente da FPF, entendemos que devíamos ir falar com o primeiro-ministro."

Mas é possível retomar?

"De certeza que é impossível. Eu assumo sempre a palavra e quando do outro lado não é cumprida, não vale a pena. Só se for numa situação drástica, como foi esta da pandemia. Logicamente que tínhamos interesses comuns e tenho de falar com as pessoas."

Paulo Gonçalves, o ex-assessor jurídico

"Garanto que sou amigo dele e falo com ele quando me apetecer. Marginalizar o Paulo Gonçalves? Até parece que não pode ter a sua vida normal."

Pedro Proença

"Disse-me que estava farto da Liga e que se ia embora. O Benfica saiu da Liga porque o Pedro Proença mentiu. Não tenho nada contra ele, mas não devia ter escrita a carta [ao Governo] sem a autorização dos três grandes."

Temos que demonstrar que os dirigentes não são os bandidos. Temos de lutar pelo bem comum. Ao longo deste período todo, acho que o Benfica tem tido a postura séria. O dinheiro que os clubes estão a receber é pela postura estratégica que o Benfica teve com a BTV. É preciso termos alguém que nos lidere e que saiba agregar. Que não divida para reinar. Vamos ser claros, por exemplo, a Liga de Clubes nunca soube agregar. Temos de encontrar um homem que agregue.

O Fernando Gomes é um presidente consensual. É um homem agregador. Quando telefona, toda a gente vai amanhã. Em termos estratégicos, o futebol português faz-se nos corredores, não nos jornais.