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Se um avançado vive de golos, Darwin já tem vida

Darwin Núñez, o jogador mais caro da história do Benfica, já fizera quatro assistências e até golos anulados tivera, mas, na Polónia, por fim se estreou a marcar e logo com três golos (dois de cabeça, outro com técnica aplicada na área, pela relva). O uruguaio muito contribuiu para o Benfica ganhar por 2-4 na estreia na Liga Europa, em que o Lech Poznan lhe causou bastantes problemas - e Otamendi acabou o jogo como capitão

Diogo Pombo

PressFocus/MB Media/Getty Images

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Entre Poznan e Gdansk cabem uns trezentos e pouco quilómetros rodoviários, é ir do interior à costa norte da Polónia, de onde faz muito frio para onde, quando a Terra se aproxima do sol, o frio dá tréguas e os polacos ganham um lugar de praia. Também de Poznan, mas uns trezentos e muitos quilómetros para sul, fica Chorzów, cidade onde se estreou Jorge Jesus na Europa, já lá vão 22 anos.

Poznan é apenas um sítio, fica a meio caminho de Chorzów e Gdansk, mas temporalmente é um interlúdio. Um é o lugar onde o treinador se estreou, com o Estrela da Amadora, o outro é onde assumidamente quer estar, daqui por uns meses, a ganhar a Liga Europa com Benfica que tem uns primeiros 10 minutos à Benfica de JJ, cheio de combinações de passes em espaços centrais, nas costas dos médios polacos, para deixar alguém de frente para a baliza com a bola.

Um tricotar de passes deixou Waldschmidt a receber na área e um penálti, por mão na bola, aparecer para Pizzi, saltando antes de bater na bola, transformar em 0-1. O Benfica pressionava na área do Lech, saberia já que os polacos se atrevem nas saídas da bola e tentava condicioná-los para recuperar bolas ali nas redondezas. Mas era isso que o anfitriões queriam.

As construções rasteiras dos polacos, com os dois centrais na área, atraíam a pressão adversária, mas depois pareciam nem quererem tentar colocar passes nos médios, ao centro. Chamavam sempre os apertos de espaço dos jogadores do Benfica para saírem pelos laterais e, de um deles, tentar levar a jogada para alguém que atacava o espaço entre Grimaldo ou Gilberto e o central do seu lado. Depois, sim, aceleravam as jogadas ou abrandavam para deixar as rédeas em Pedro Tiba ou Jakub Moder, os médios.

Esse polaco rematou à entrada da área, para Vlachodimos se esticar, e dentro do retânculo e num canto, para o guarda-redes grego ver a bola a ir contra a barra. Remates que aconteceram antes e depois de Mikael Ishak rematar o 1-1 no final de uma das tais jogadas em que aproveitou o espaço nas costas de Grimaldo. Evitando a pressão ao centro, era assim que o Lech conseguia levar as jogadas até à área do Benfica e criava “os problemas” que Jesus antevira.

A pressão agressiva dos polacos, muito rápidos a aproximarem-se de qualquer adversário - mesmo que deixando crateras de relva entre os médios e os defesas - entupiu os passes de Gabriel para Waldschmidt, viram-se menos apoios frontais para alguém ficar de frente com a bola e, durante muito tempo, só raides com bola de Taarabt e Everton foram superando as linhas do Lech.

Quase no intervalo, o Benfica segurou uma jogada até à beira da área, libertou Gilberto para cruzar e Darwin, antecipando o tempo de salto, cabeceou o 1-2 com potência. Foi a única jogada ligada que logrou após o golo, mas montaria outro logo no arranque da segunda parte, com médios, extremos e avançados juntos, a atraírem adversários e tocarem no homem livre até Taarabt picar a bola para cair sobre Darwin na área.

PressFocus/MB Media

O uruguaio hesitou, deixou-a cair na relva, quando a tentou rematar mal lhe acertou, uma oportunidade perdeu-se. Na posse de bola seguinte, o Lech nem a acelerou, manteve-a controlada pela direita até se aproximar da baliza, virá-la para a esquerda, uma tabela ser feita e a passividade coletiva do Benfica ficar a ver Vlachodimos desviar o remate de Kaminski, mas Ishak fazer o 2-2 com a sobra.

Estranho não era o desperdício de Darwin, acontece; nem a atitude passiva do Benfica quando defende perto da área, já acontecera. Era de estranhar a braçadeira estar com Otamendi, nem com um mês de clube feito: a 30 de setembro fez o primeiro treino com a equipa e neste 22 de outubro ficou como capitão após Pizzi sair e entrar Rafa.

O Benfica já era capitaneado pelo jogador com menos minutos de Benfica em campo quando, aproveitando a falência, aos poucos, da pressão do Lech, a equipa trocou passes à beira da área polaca até dar um passe rasteiro em Darwin. E o uruguaio decidir em três tempos: a receção puxou o central que o marcava, o segundo toque fez-lhe um túnel e o terceiro passou a bola para a baliza. O 2-3 evidenciava a técnica fina na área que ainda não se vira nos cinco jogos e 501 minutos anteriores de Darwin.

Na meia hora seguinte, mesmo com Weigl em campo, o Benfica nunca logrou controlar o jogo tendo a bola, acalmando o ritmo e tentando fazer os polacos correrem atrás de passes. A equipa encolhia-se junto à sua última linha, as tentativas de pressionar eram desgarradas e o jogo virou um pingue-pongue de transições rápidas, cheias de espaço para cavalgadas com bola. Darwin, Pedrinho e Everton rematariam, mas Pedro Tiba e Kacharava também. O Benfica recuava até à área, resguarda-se num bloco baixo e dava espaço ao Lech para jogar até lá.

E acabaria com três centrais, o socorro de Jardel chamado para os últimos minutos e a equipa a defender-se de cruzamentos na área, com Darwin lá na frente, a acudir a bolas longas e esperançosas que fosse capaz de aguentar para, depois, virem Rafa, Pedrinho e talvez Gabriel. Já nos descontos, resultou: o matulão segurou a bola, deu tempo para uma jogada se criar para, na área, voltar a marcar à cabeçada com um cruzamento de Gilberto.

O Benfica ganhou 2-4, o uruguaio dos €24 milhões estreou-se a marcar com três golos ao sexto jogo, já não é apenas o tipo de avançado que ganha espaço para a equipa (como Jesus disse, há dois meses) e consegue dar o melhor de si quanto tem muitos metros de relva para correr, nem se limita a assistir para outros marcarem (já tem quatro desses passes).

Darwin Núñez já tem golo, mas o Benfica não teve a pressão organizada, constância com bola e o acerto a lidar com os espaços em campo próprio - sobretudo na última linha - que mostrara no fim de semana, contra o Rio Ave.